Desmatamento da Mata Atlântica caiu 69% até 2005

Estudo de ONG com Inpe indica, porém, aumento nos últimos dois anos.

Carolina Glycerio, BBC

27 de maio de 2008 | 19h30

O ritmo de desmatamento da Mata Atlântica caiu 69% no período entre 2000 e 2005 em relação a 1995-2000, mas ainda assim restam apenas 7,26% de um dos biomas com maior diversidade do Brasil, revelam os dados do novo Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, divulgado nesta terça-feira.São Paulo, com uma queda de 91%, e Espírito Santo (-95%) foram os Estados onde a redução dos novos desmatamentos ocorreu de forma mais acentuada. Dos 1,3 milhão de metros quadrados que antes se espalhavam por 17 Estados brasileiros, sobraram 97.596 km2, segundo o estudo, elaborado pela organização não-governamental SOS Mata Atlântica e pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). As maiores taxas de desmatamento ocorreram em Santa Catarina (45.530 ha), Minas Gerais (41.349 ha) e Bahia (36.040 ha), nesta ordem, de acordo com o levantamento, que mapeou 98% do bioma ou 16 dos 17 Estados (a exceção foi o Piauí).A diretora de Gestão do Conhecimento e coordenadora do Atlas pela SOS Mata Atlântica, Márcia Hirota, disse que apesar da queda no período analisado pelo Atlas, o acompanhamento mais recente dos cinco municípios com as maiores taxas de desmatamento indica um "aumento muito preocupante" nos últimos dois anos."A avaliação não reflete o estado global da Mata Atlântica mas já aponta o que está acontecendo nesses municípios", disse Hirota, numa entrevista coletiva online promovida pela SOS Mata Atlântica."No Rio de Janeiro, por exemplo, o total de desmatamento triplicou entre 2005-2007 comparado com 2000-2005 quando realizamos esta análise sobre 75% do território. Em valores absolutos foi baixo mas em termos percentuais é um alerta para o Estado."Os cinco municípios analisados entre 2005 e 2007, por serem considerados os mais críticos em termos de desmatamento, foram Bituruna (PR), Itaiópolis (SC), Coronel Domingos Soares (PR), Palmas (PR) e Encruzilhada (BA).Os números que constam do quarto Atlas SOS Mata Atlântica/Inpe estão bem abaixo dos do governo, que estima haver mais de 20% em remanescentes de mata atlântica.Flavio Ponzoni, coordenador técnico do Atlas pelo Inpe, explicou que a discrepância se deve à diferença das metodologias - a oficial, por exemplo, considera áreas remanescentes de mata atlântica já degradadas, que são excluídas no Atlas.FragmentaçãoOutra tendência apontada no estudo é a fragmentação da Mata Atlântica em pequenos pedaços de três ou cinco hectares que nem mesmo são considerados no mapeamento da SOS Mata Atlântica com o Inpe. Se esses pequenos polígonos fossem considerados, a área de cobertura pela Mata Atlântica aumentaria para 142.472 km2 (10,6% da floresta original)."Os maiores fragmentos florestais encontram-se no Corredor Sul fluminense, Serra do Mar de São Paulo inclusive Vale do Ribeira e litoral norte do Paraná até Santa Catarina, Parque Nacional do Iguaçu. Esses são os maiores blocos da Mata Atlântica", diz Hirota.O diretor de mobilização da SOS Mata Atlântica, Mario Mantovani, que também participou da coletiva online, comentou o impacto do aumento do desmatamento na Amazônia na dinâmica da ocupação da Mata Atlântica."O que acontece em São Paulo é um exemplo desse impacto. A cana está ocupando as áreas de pecuária do nordeste do Estado e os empresários do setor supercapitalizados (R$ 60 mil o hectare) estão comprando terra barata no sul do Pará", disse Mantovani.Ponzoni, do Inpe, diz que não há indícios, pelo menos por enquanto, que a cana esteja avançando sobre áreas de floresta. Por outro lado, ele prevê que à medida que a cana avance sobre áreas destinadas a eucaliptos e outras monoculturas de reflorestamento para uso comercial, essas culturas comecem a avançar sobre áreas de floresta.Para Mantovani, o ciclo da destruição "tem como motor a falta de políticas públicas", como, por exemplo, a demora em fazer uma regularização fundiária, que defina de quem são as terras e quem responde pelo que acontece nelas.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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