Prodes / Inpe
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Desmatamento consolidado da Amazônia em 2019 superou 10 mil km², afirma Inpe

Atualização dos dados referentes ao período de agosto de 2018 a julho de 2019, cuja prévia tinha sido divulgada em novembro, mostra que perda foi ainda maior do que indicado anteriormente; alta foi de 34% ante os 12 meses anteriores

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2020 | 18h46
Atualizado 23 de junho de 2020 | 12h56

SÃO PAULO - O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgou nesta terça-feira, 9, a consolidação dos dados do Prodes, o sistema que aponta o desmatamento oficial da Amazônia, referentes ao período de agosto de 2018 a julho de 2019, e indicou que a devastação da floresta no primeiro ano do governo Bolsonaro foi ainda maior do que a apontada previamente. No período, a Amazônia perdeu 10.129 km². 

A taxa oficial atualizada agora representa uma alta de 34,41% em relação aos 12 meses anteriores e é simbólica por ter sido superior aos 10 mil km². Entre agosto de 2017 e julho de 2018, a perda havia sido de 7.536 km².

Em novembro, uma prévia do Prodes havia indicado que o desmatamento tinha sido de 9.762 km². O novo dado é resultado do fim do processamento de todas as imagens de imagens de satélite disponíveis e consolidação dos dados sobre o chamado corte raso, em que ocorre remoção completa da cobertura florestal, foi maior. Essa atualização é normal no processo de análise do desmatamento da Amazônia. O Inpe sempre divulga uma estimativa em novembro e a taxa final alguns meses depois.

Esta taxa é a pior observada na Amazônia desde 2008, quando o Prodes revelou uma perda de 12.911 km². Desde então, o desmatamento da região sempre esteve abaixo dos 8 mil km². O menor valor foi obtido em 2012: 4.571 km².

A expectativa de especialistas é o que período de 12 meses que se encerra no próximo mês de julho deve vir ainda maior. Um outro sistema de monitoramento do Inpe, o Deter, que faz alertas de onde estão ocorrendo desmatamentos a fim de orientar a fiscalização em campo, vêm indicando altas consecutivas de devastação desde agosto. 

Em apenas 10 meses, os alertas do Deter já respondem por 92% do observado nos 12 meses anteriores. Entre agosto do ano passado até 28 de maio deste ano, foi registrada a derrubada de 6.309 km². Nos 12 meses anteriores (de agosto de 2018 a julho de 2019), foram 6.844 km².

Por ser muito dinâmico, o Deter acaba sujeito a uma baixa visibilidade quando há muitas nuvens, e nem sempre consegue ver tudo, mas a tendência apontada por ele normalmente é confirmada depois pelo Prodes. Enquanto o Deter alertou, no passado, os 6.844 km², o Prodes depois apontou para a devastação de 9.762 km² e agora bateu o martelo de 10.129 km².

Alerta para explosão de desmatamento e de queimadas neste ano

Se em maio, de acordo com o Deter, o nível de alertas de 2020 já quase alcançou 2019, é de se imaginar que o Prodes também virá com uma taxa ainda mais alta que a do ano anterior.

Observando somente o período de agosto a maio, a alta fica mais clara. Entre agosto de 2018 e maio de 2019, os alertas do Deter indicavam a perda de 3.653 km². Já entre agosto de 2019 e 28 de maio de 2020, foram feitos alertas para 6.309 km², alta de 72%. Ainda não foram contabilizados os últimos três dias de maio.

No ano passado, foi a partir de maio que o desmatamento disparou. Foi quando os alertas do Deter começaram a ser destacados na imprensa estrangeira que o presidente Jair Bolsonaro começou a colocar em dúvida os dados do Inpe. Ele chegou a dizer que os números eram mentirosos e que o então diretor do instituto, Ricardo Galvão, estaria "a serviço de alguma ONG". Ao Estadão, Galvão acusou Bolsonaro de ser "pusilânime e covarde" e acabou exonerado alguns dias depois.

Em nota técnica publicada no fim de maio, pesquisadores do Inpe revelaram preocupação com o impacto que esses cortes poderão ter sobre as queimadas deste ano. "Sabemos que essas áreas desmatadas são posteriormente queimadas, e em um clima mais seco, podem causar incêndios descontrolados", escreveu o grupo liderado pelo pesquisador Luiz Aragão.

Os cientistas afirmaram que, nos primeiros meses deste ano, o oceano Atlântico apresentou um aumento de temperatura acima da média histórica, o que pode causar mais secas na região sudoeste da Amazônia e intensificar processos de queimadas. "Este ano o desmatamento nos Estados amazônicos explicou 50% da ocorrência de queimadas no início do ano, quando são mais escassas. De agosto de 2019 a maio de 2020, detectaram-se 78.443 focos de queimadas na Amazônia, maior quantidade que no mesmo período de 2018-2019", escrevem.

Eles dizem que a expectativa, caso não haja controle por parte do governo, que as queimadas devem ser ainda mais intensas neste ano na temporada seca.

Uma outra análise feita pelas ONGs Instituto Sociambiental, Rede Xingu +, Greenpeace, Imazon e Imaflora, estimou, com base no avanço do Deter, que o desmatanto consolidado pelo Prodes neste ano pode acabar sendo o dobro do observado no ano passado. 

As organizações vão enviar um documento ao Ministério Público Federal, ao MP do Pará e ao governo do Estado alertando para o risco e pedindo atenção ao combate de crimes ambientais em junho e julho, justamente os meses em que o desmatamento é mais alto. No Pará, o aumento de alertas foi de 136% nos últimos dez meses.

O texto alerta ainda que está se consolidando um novo arco do desmatamento ao longo das BRs 163, 319 e 364, pressionando terras indígenas e unidades de conservação. "As áreas protegidas da Bacia do Xingu, entre os Estados do Pará e Mato Grosso, figuram entre as regiões mais vulneráveis, com quase nove mil hectares desmatados só neste ano (até abril), 56% a mais do que o mesmo período de 2019", afirmam as ONGs.

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