Daniel Tregidgo / Lancaster University
Daniel Tregidgo / Lancaster University

Demanda por alimentos em Manaus afeta fauna amazônica em raio de mil quilômetros

Estudo feito por cientistas britânicos usou o tambaqui, peixe de alto valor comercial na região, como exemplo do impacto urbano; animal se torna menor e mais raro à medida em que se aproxima da cidade

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2017 | 18h37

A demanda por alimentos nas metrópoles da Amazônia reduz a fauna das florestas em um raio de até mil quilômetros dos centros urbanos, de acordo com um novo estudo liderado por cientistas britânicos. A pesquisa foi publicada hoje na revista científica PNAS.

Segundo os cientistas, a rápida urbanização da Amazônia brasileira levou à situação atual em que mais de 18 milhões de pessoas vivem em cidades cercadas pela floresta. Mas, até agora, os impactos dessa transformação demográfica sobre a fauna eram desconhecidos.

"Esse estudo revelou, pela primeira vez, até onde exatamente se estendem os impactos de uma metrópole sobre a fauna selvagem das florestas", disse o autor principal da pesquisa, Daniel Tregidgo, da Universidade Lancaster (Reino Unido).

Pelo período de um ano, os cientistas sob a coordenação de Tregidgo percorreram comunidades rurais situadas em pontos remotos da selva ao longo do rio Purus, um dos principais afluentes do Amazonas, para reunir evidências.

Utilizando como exemplo o tambaqui - uma espécie de peixe comercialmente importante para os consumidores da Amazônia -, os pesquisadores entrevistaram centenas de moradores das áreas rurais amazônicas sobre sua atividade pesqueira ao longo dos rios que fluem para Manaus.

Os pesquisadores perguntaram a todos os pescadores detalhes sobre o pescado e sobre os métodos de pesca utilizados em cada uma de suas viagens nos três últimos dias antes da entrevista.

Os dados revelaram que quanto mais próximo de Manaus, mais raros e menores são os tambaquis pescados. A redução do tamanho corporal dos peixes é de até 50%. Para surpresa dos pesquisadores, essa tendência foi comprovada a até mil quilômetros da cidade. A partir dessa distância, os peixes são maiores, mais comuns e mais fáceis de capturar.

Acesso fácil. Os pesquisadores descobriram também que o declínio do estoque de peixes está ligado à presença embarcações, nas regiões próximas à cidade, que fornecem aos pescadores acesso confiável aos compradores e ao gelo, que permite conservar o pescado por mais tempo. Essa facilidade, segundo os autores do estudo, é o combustível para o excesso de pesca.

Segundo Tregidgo, a descoberta tem importantes implicações para a diversidade da floresta e para os meios de subsistência humana, que podem sofrer os impactos da defaunação - o esgotamento das espécies da fauna - causados pela concentração urbana.

"As metrópoles da Amazônia lançam uma sombra de defaunação que tem mil quilômetros. Nossa pesquisa mostra que o impacto da demanda urbana por uma espécie de alto valor comercial é sentido a uma distância das cidades muito maior do que imaginávamos", disse Tregidgo.

Segundo Tregidgo, a descoberta é relevante porque os trópicos abrigam dois terços da biodiversidade da Terra e estão passando por um rápido aumento da população humana, com urbanização e tranformações econômicas que resultam em uma demanda cada vez maior por alimentos.

"A maior parte dessa demanda está sendo suprida pela expansão da produção industrial de carne, mas os alimentos naturais como peixes e outros animais da floresta também são uma fonte importante de alimento para centetnas de milhões de consumidores das regiões tropicais", explicou.

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