Defesa Civil monitora chuva e novos riscos em Brumadinho

Defesa Civil monitora chuva e novos riscos em Brumadinho

Poder público e Vale se esforçam para evitar mais rompimentos; boato de quebra de estrutura corria na cidade

Giovana Girardi e Renata Batista, Enviada especial

27 de janeiro de 2019 | 03h00

SÃO PAULO E BRUMADINHO (MG) - Enquanto o desastre do rompimento da barragem do Córrego do Feijão começava a ser contabilizado em número de mortos, neste sábado, 26, uma nova ameaça pairava em Brumadinho, a de que uma nova barragem poderia se romper. A preocupação estava na boca dos moradores e surgiu na fala de autoridades.

Logo após o sobrevoo do presidente Jair Bolsonaro com ministros e outras lideranças pela região afetada, o ministro Gustavo Canuto, do Desenvolvimento Regional, afirmou no início da tarde que a preocupação no momento era com chuva e com a barragem 6. 

Localizada ao lado da barragem 1, que rompeu nesta sexta-feira, 25, a B6 armazena água e tem volume de 1 milhão de m3. Segundo Canuto, ela está sendo monitorada e a Defesa Civil checa com frequência sua estabilidade. “Se romper, o desastre pode ser ainda maior”, disse.

Na sequência, o coronel Evandro Borges, coordenador da Defesa Civil de Minas, também citou que a B6 está “sendo monitorada de forma constante, em face do risco que ela pode apresentar de rompimento, o que pode agravar a situação por onde aconteceu o desastre”. A Vale anunciou que estava fazendo a drenagem da barragem com o uso de bombas, para reduzir a quantidade de água, e que o monitoramento da estrutura estava sendo realizado a cada hora. 

No caso de um eventual rompimento, o despejo de 1 milhão de m3 de água poderia diluir a lama que agora está se movendo em velocidade mais lenta, aumentando o fluxo e carregando o material Rio Paraopeba abaixo. Mesmo em menor intensidade, a chuva também traz esse risco. “A velocidade dos rejeitos está ligada à densidade do material, quanto mais água, mais rápido se desloca”, explica Miguel Felippe, líder do grupo de pesquisas Terra (Temáticas Especiais Relacionadas ao Relevo e à Água) da Universidade Federal de Juiz de Fora. 

“A parte da lama que já está depositada nos vales pode ser lavada pela água. A barragem a gente não sabe se vai romper. Mas chover, em algum momento vai, seja hoje ou daqui um tempo. E toda vez que chover o material depositado nas margens desse vale será levado para o rio e vai sendo distribuído”, complementa. “O problema não vai diminuir.”

O pesquisador, que acompanhou o desdobramento do rompimento da barragem do Fundão, em Mariana, em novembro de 2015, afirma que até hoje se coleta água no Rio Doce com o rejeito da Samarco. Ele explica que, ao contrário de Mariana, o rejeito de Brumadinho ficou mais retido nas margens de pequenos córregos antes de chegar ao Rio Paraopeba. “Esse material vai voltar por anos.”

O sedimento pode transformar a dinâmica do rio, alterando o hábitat para a fauna e a flora. Além de afetar a biodiversidade, pode prejudicar os recursos pesqueiros ou mesmo de lazer das populações que vivem à margem do rio. Existe uma preocupação também com o abastecimento de água. Há um ponto de captação de água no Rio Paraopeba, cerca de 9 km abaixo da foz do Córrego do Feijão, que foi suspenso pela Companhia de Saneamento de Minas (Copasa) após o rompimento da barragem. 

Segundo a instituição, não há risco para o abastecimento da região metropolitana de Belo Horizonte. Mas, lembra Sergio Menin, presidente da Comissão de Recursos Hídricos da Sociedade Mineira de Engenheiros, o ponto de captação foi construído durante a crise hídrica. Isso poderia fazer falta num eventual cenário de seca.

A ambientalista Márcia Hirota, da SOS Mata Atlântica, afirmou que a organização está se mobilizando para fazer uma expedição na região, a exemplo do que foi feito no Rio Doce, para averiguar os impactos ambientais. “Os rejeitos vão descer, uma hora ou outra pela Paraopeba. Só não sabemos ainda o curso disso, o que poderá ser atingido”, diz. O medo é que chegue ao Rio São Francisco, do qual o Paraopeba é afluente.

Menin estima que esse risco não existe, porque antes de desaguar, o Paraopeba chega à barragem da usina de Três Marias, que tem um reservatório grande o suficiente para segurar os rejeitos. “Acredito que dali não passa.”

Apreensão

Em Córrego do Feijão, a todo momento neste sábado chegava uma “notícia” sobre o suposto rompimento de uma segunda barragem, o que foi várias vezes negado por bombeiros e Vale. Os moradores, porém, estavam apreensivos. Moradora do povoado, a policial civil Janaina Menezes passou o dia atenta aos sinais. Enquanto conversava com a reportagem do Estado, uma vizinha chegou dizendo que havia rompido. 

Por volta das 13 horas, todas as equipes de resgate deixaram as áreas de maior risco por causa do aumento do nível das águas. Segundo um bombeiro, é possível que estivesse chovendo na cabeceira de algum rio. Até os helicópteros diminuíram a frequência dos voos, que só aumentou às 14h30. 

No fim da tarde, a ameaça de chuva se confirmou. A jipeira Clarisse Jaú Funessy, moradora de Casa Branca, foi tentar ajudar nas buscas. Mas relatou que a orientação dos bombeiros era evitar as áreas próximas, pelo risco de um novo rompimento. O desempregado Fernando Nunes Araújo também se mostrou preocupado com o risco. “Estão retirando várias famílias de casa, mas não nos dão informação.”

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