Debate sobre energia nuclear pode mudar de rumo

A possibilidade de um acidente no Japão pós-tsunami pode enfraquecer politicamente a opção pela garação de energia a partir de fissão nuclear

Karina Ninni, estadao.com

11 de março de 2011 | 21h09

Com o anúncio de crescente risco de um acidente nuclear no Japão por conta do tsunami que atingiu o país e que desestabilizou a usina nuclear de Fukushima, onde se confirmou um vazamento de material radioativo, as discussões sobre a geração de energia via fissão nuclear podem tomar um novo rumo.

Quem afirma é o professor José Eli da Veiga, titular do departamento de economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) que lança, no próximo dia 16, um livro sobre o tema. Em Energia Nuclear: do anátema ao diálogo (São Paulo, Editora Senac, 2011), Veiga reuniu quatro experts sobre o assunto no Brasil  - o físico José Goldemberg, o engenheiro naval Leonam dos Santos Guimarães, o engenheiro químico João Roberto Loureiro Mattos e o engenheiro civil Oswaldo dos Santos Lucon - para oferecer visões distintas sobre o tema, que causa tanta controvérsia entre os próprios cientistas.

Em entrevista exclusiva, José Eli da Veiga falou ao estadao.com:

Pelo que se percebe, o tema energia nuclear ainda causa muita polêmica. No primeiro capítulo do livro, assinado por você, afirma-se que à análise fria dos fatos se contrapõe uma 'retórica afetiva'. Por que o assunto ainda hoje é tratado de forma mais passional do que racional?

No Brasil, não há discussão fora do meio acadêmico, o que é chocante. Mas percebo que as pessoas, ao se colocarem contra ou a favor das usinas nucleares, não se posicionam por conhecimento de causa, e sim por uma ou outra experiência pessoal. Por exemplo: eu trouxe dos EUA um adesivo que fazia objeção a armas nucleares. Colei na minha sala. Um aluno veio me ver e afirmou que tinha achado um erro o Brasil estipular na Constituição que não desenvolveria armas nucleares (segundo a Constituição de 1988, as atividades nucleares ficaram restritas a “usos pacíficos”). Então as pessoas se posicionam com base em seus credos e não com base no conhecimento de causa.

Há algum consenso entre a comunidade científica quando o assunto são usinas nucleares?

Por incrível que pareça, não. Esse é o tema do livro: a controvérsia. Por exemplo: diante da ideia disseminada de que um país que adquire tecnologia para gerar energia nulear estaria a um passo de produzir armamentos nucleares, poderia parecer óbvio que, quanto menos países tivessem acesso a essa tecnologia, mais a salvo estaria o mundo. Mas nem isso é consenso. Grandes nomes da ciência política, como Keneth Waltz, da Universidade de Berkley, defendem que o ideal é que cada vez mais mais países tenham acesso à tecnologia nuclear.

Um acidente como o de Chernobyl provoca nas pessoas certa ojeriza à opção de geração de energia por meio de fissão nuclear. Mas, no livro, você cita fontes que afirmam que os efeitos de Chernobyl não foram tão catastróficos assim. Você acredita que a sociedade atenta para o nível de periculosidade de uma usina do gênero ou o prórpio risco de acidentes já delineia o posicionamento das pessoas acerca do tema?

Eu cito no livro um ecólogo e ambientalista, o Stewart Brand, que afirmou que as consequências de Chernobyl foram infinitamente menores do que se imagina. Ele fez essas observações com base em um estudo da ONU, que afirmava que os impactos não seriam o que se imaginava. Eu também tinha a opinião de que Chernobyl foi a gota d'água, a prova de que realmente a geração de energia nuclear era um risco imenso, que não valia a pena se correr. Agora, estou em dúvida. Os que defendem a geração de energia nuclear afirmam que Chernobyl era uma usina antiga, com uma tecnologia completamente ultrapassada.

Você acha que as discussões sobre emissões e aquecimento global alteraram as bases do debate sobre as matrizes energéticas no mundo?

Com certeza. O número de pessoas que a vida toda foram contra a geração de energia nuclear e agora estão mudando de opinião é cada vez maior. Elas estão se perguntando: faz sentido, hoje, com tudo o que se sabe sobre o carvão e suas emissões, gerar energia a partir dele? Agora, eu não sou um expert no assunto 'energia nuclear'. O que me propus a fazer foi apresentar os argumentos, por meio de artigos de especialistas, por que me dei conta da evolução que o debate estava tendo mundo afora.

O premiê japonês acaba de mandar evacuar uma área ao redor da usina nuclear de Fukushima, onde se confirmou um vazamento de material radioativo do reator 1. Segundo as agências noticiosas, os níveis de radiação em torno do complexo aumentaram oito vezes nas últimas horas em um ponto de checagem do lado de fora do usina e estão mil vezes maiores do que o normal na sala de controle do reator. Isso pode alterar a reavaliação que está sendo feita sobre geração de energia nuclear?

Certamente. Se acontecer um acidente com a usina japonesa, a ideia de gerar energia através de tecnologia nuclear perde muita força politicamente, agora que o debate está muito avançado internacionalmente nos meios acadêmicos, até por conta do aquecimento global e suas causas. Atualmente, existem aqueles que defendem que há um renascimento dos investimentos em energia nuclear, com é o caso do Leonam, que assina um capítulo do livro, e os que afirmam o contrário, como o Goldemberg. Agora, no caso do Japão, o mero aumento dos níveis de radiação não quer dizer nada à primeira vista. Precisamos esperar pelos fatos.

E hidrelétricas? Você acredita que, sendo a Amazônia nossa mais nova fronteira energética, celeumas como a que vem se travando em torno de projetos como o de Belo Monte influenciam o debate?

É claro. Um dos grandes argumentos contra a geração de energia por meio de usinas nucleares é o aproveitamento do potencial hidrelétrico da Amazônia. Agora, se você me perguntar, como cidadão brasileiro, se eu sou a favor do aproveitamento de todas as quedas d'água da Amazônia, eu vou dizer que não. Acho que há rios em que não se deve mexer. Mas é claro que sabemos que a energia hidráulica é muito mais barata que a nuclear. A construção de usinas de última geração está ficando cada vez mais cara, até por conta dos requisitos de segurança que hoje se tem.

Você cita no livro que a geração de energia eólica e solar é intermitente e, portanto, só pode ser complementar. Isso é consenso entre e comunidade científica?

Sim. Agora, não significa que precisa ser sempre assim. Quanto mais se investir em pesquisa para geração de energia solar e eólica mais chances essas fontes têm de ser competitivas. Um exemplo é a captação de energia solar no espaço. Os satélites já funcionam à base de energia solar. A tecnologia para gerar energia solar no espaço nós já temos. Mas não temos como transmiti-la para a Terra.

O livro Energia Nuclear: do anátema ao diálogo será lançado dia 16 de março, às 15h, na Auditório da FEA/USP, com uma mesa redonda que contará com o organzador do livro, José Eli da veiga, o físico José Goldemberg e o engenheiro Leonam dos Santos Guimarães. 

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