TIAGO QUEIROZ/ESTADAO
TIAGO QUEIROZ/ESTADAO

De praia em praia, cientistas se mobilizam para coletar amostras de óleo no nordeste

Aparecimento de manchas de petróleo mudou rotina de pesquisadores e universidades

Priscila Mengue (texto) e Tiago Queiroz (fotos), enviados especiais ao Nordeste, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2019 | 05h00

IPOJUCA E PAULISTA - O sentido de urgência tão presente nos voluntários que atuam na retirada do óleo da costa nordestina também é latente em outro grupo local: a comunidade científica. De praia em praia, professores universitários, pesquisadores e estudantes de graduação têm saído a campo diariamente atrás de amostras da água, do petróleo e de organismos da fauna marinha. A rotina ainda se estende a testes em laboratórios, que já vem apresentando resultados sobre a contaminação ambiental.

O impacto na rotina acadêmica é mais claro em áreas como Biologia, Química, Oceanografia e algumas engenharias. No Laboratório Ecotoxicologia Aquática (Labecotox) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), por exemplo, o foco está nas praias oleadas. Dessa forma, pesquisas voltadas a regiões atingidas ganharam mais espaço (como uma sobre um espécie de peixe sentinela, presente em corais e conhecida como Donzelinha). 

“É um esforço concentrado com os outros alunos para reunir essa informação crucial desse desastre”, explica Paulo Carvalho, de 55 anos, coordenador do Labecotox e professor do Departamento de Zoologia da UFPE.

Com o próprio carro, o professor tem visitado praias de Pernambuco e uma de Alagoas para recolher amostras da água e de peixes, chegando até a mergulhar em uma área de coral também atingida pelo óleo. Na pernambucana Praia do Janga, em Paulista,  encontrou dezenas de peixes mortos, trazidos por uma grande mancha de óleo. 

Os resultados iniciais do petróleo no litoral já foram percebidos por Carvalho e por grupos de pesquisas de outras universidades, como um estudo divulgado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) que detectou metais pesados em animais marinhos. A ideia é, também, continuar com as saídas de campo, geralmente acompanhadas de mestrandos, doutorandos e graduandos, mesmo após o fim do aparecimento das manchas, para monitorar o impacto além dos efeitos mais imediatos. 

Ele se preocupa especialmente com o impacto dos hidrocarbonetos policíclicos aromáticos presentes no petróleo, que trazem 16 tipos de moléculas que chama de “grandes vilões". Elas muito tóxicas, algumas cancerígenas, enquanto e outras podem causar sérios impactos à fauna marinha, como algumas espécies de peixes. 

“As moléculas já estão se dissolvendo na água, e são muito tóxicas. Os peixes absorvem principalmente através das brânquias e já estão assimilando para dentro da circulação sanguínea”, explica. “Os órgãos internos estão começando a ter danos, mesmo que não cause a morte. Esse gasto energético para se livrar da molécula pode afetar a taxa de crescimento, pode fazer com a fêmea não se desenvolva para se reproduzir adequadamente.”

Situação semelhante tem vivido Mauro de Melo Junior, de 40 anos, professor de Biologia Marinha da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e coordenador do Laboratório de Ecologia do Plâncton (Leplanc). “Estamos há duas semanas indo para campo fazer coleta, monitorando os estuários e as áreas costeiras.”

Na Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais, maior unidade de preservação federal marinha costeira do Brasil, viu a rede que utiliza para a retirada de amostras ficar cor de ferrugem. “Era como se óleo estivesse disperso. Tinha muita matéria particulada”.

A situação se assemelha a outro problema encontrado no ambiente marinho: o microplástico. “Está acontecendo a mesma coisa com a mancha de óleo: partículas bem pequenas entrando nas cadeias alimentares.”

O professor coordenada pesquisas que envolvem os plânctons, micro-organismos considerados base da cadeia alimentar marinha. “É como um grão de arroz dividido em cinco partes, a maior parte dos organismos têm esse tamanho. Estamos tentando investigar agora se o petróleo está afetando. Tartarugas, aves, peixes têm mais visibilidade, mas, no caso do plâncton, o risco ambiental é muito maior, afeta muitos animais, inclusive os corais - onde vários se reproduzem.”

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Monitoramento em andamento, amostras coletadas ! #ecotoxicology #toxico Imagens de @paulosmcarv

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