Kip Evans
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Cuidar dos oceanos é salvar o planeta, diz especialista Sylvia Earle

Hoje, aos 82 anos, com mais de 7 mil horas de mergulho e dezenas de expedições científicas na bagagem, a já lendária oceanógrafa americana viaja incansavelmente pelo mundo, com a missão de abrir os olhos das pessoas para a realidade dos fatos

Herton Escobar, O Estado de S.Paulo

11 Março 2018 | 03h00

Agora não há mais desculpas. Oitenta anos atrás, quando Sylvia Earle era uma criança dando seus primeiros passos na areia da praia, o oceano era visto como uma fonte inesgotável de recursos, grande demais para ser influenciada de alguma forma pela ação humana. Os peixes não acabariam nunca, e o lixo jogado em suas águas simplesmente seria diluído ou desapareceria para sempre no fundo do mar.

Só que não. Hoje, aos 82 anos, com mais de 7 mil horas de mergulho e dezenas de expedições científicas na bagagem, a já lendária oceanógrafa americana viaja incansavelmente pelo mundo, com a missão de apagar essa visão equivocada e abrir os olhos das pessoas para a realidade dos fatos.

“Basta olhar as evidências”, diz ela. Os impactos da ação humana no oceano são imensos. Cerca de metade dos recifes de coral da Terra já desapareceu, e cerca de 90% dos grandes peixes marinhos – animais esplendorosos como o atum-azul, o espadarte e várias espécies de tubarão – já foram extirpados do oceano pela pesca. Uma chacina equivalente à devastação das florestas e à matança de elefantes, tigres e outros animais selvagens em terra; só para citar alguns exemplos.

A diferença é que quase ninguém vê o que acontece debaixo d’água. Visto da praia, o oceano parece o mesmo de 80 anos atrás. Mas os estudos científicos trazem à tona uma realidade profunda que a espécie humana não pode mais se dar ao luxo de ignorar, alerta Sylvia.

“Fomos irresponsáveis no passado porque não sabíamos o que estávamos fazendo. Mas agora sabemos, e portanto podemos mudar o curso das coisas”, discursou a pesquisadora, para um auditório lotado de empresários e ambientalistas, na manhã da segunda-feira passada, no prédio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). “Uma vez que você tem o conhecimento, não há desculpa para continuar com hábitos ruins.”

“Vivemos um momento crucial”, continuou a pesquisadora, com uma disposição de dar inveja a muito marmanjo na plateia. “Como nunca, entendemos que precisamos cuidar do mundo natural; especialmente do oceano, porque o oceano é o controlador do clima, o controlador do tempo; é onde está a maior parte da água e a maior parte da vida na Terra; é quem faz a química e controla a temperatura do planeta.”

O oceano, afirma ela, é o “coração azul” da Terra, e a saúde do planeta – e de todas as espécies que vivem nele, incluindo nós – depende da saúde dele. “Se falharmos em cuidar do oceano, as florestas tropicais não podem existir e nós não podemos existir”, disse Sylvia. 

Nesse sentido, a Terra é hoje um paciente cardíaco em observação, com suas artérias entupidas pela poluição e a química de seu sangue alterada pelas mudanças climáticas. O acúmulo de dióxido de carbono na atmosfera – que um dia também nos pareceu grande demais para ser influenciada pelo homem – tem um impacto direto no oceano, aumentando a acidez da água do mar e, dessa forma, ameaçando a existência de corais, conchas e qualquer outro animal que tenha um esqueleto de carbonato de cálcio. 

“Nós não tínhamos como saber isso quando eu era criança, não tínhamos as evidências”, declarou Vossa Profundeza, como Sylvia foi chamada, de forma icônica, pela revista americana New Yorker, num perfil publicado em 1989. “Agora, temos.”

Otimismo. A boa notícia, disse ela, é que ainda dá tempo de evitar o pior, e até reverter parte do estrago. Uma das estratégias mais importantes para isso, destacou Sylvia, é a criação de grandes áreas protegidas marinhas, capazes de resguardar ecossistemas inteiros – como as que estão sendo propostas pelo Brasil para os arquipélagos de São Pedro e São Paulo, 630 quilômetros além de Fernando de Noronha, e Trindade e Martin Vaz, na costa capixaba. 

Sylvia veio ao Brasil para o lançamento da edição brasileira de seu livro, A Terra é Azul, pela editora Sesi-SP. Mas o momento coincidiu com a discussão das propostas de criação das duas unidades de conservação, e isso acabou virando o foco da visita. Ela falou na Fiesp no dia 5, pela manhã, e logo em seguida voou para Brasília, onde se encontrou com o presidente Michel Temer e reforçou o pleito de dezenas de associações científicas e ambientalistas, que pediam a aprovação da novas áreas protegidas, propostas pelo Ministério do Meio Ambiente.

Deu certo. Ao final da audiência, Sylvia e o ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, anunciaram em entrevista coletiva que Temer havia concordado com o pleito. A expectativa é de que os decretos de criação das unidades sejam publicados na próxima semana, durante o Fórum Mundial da Água, em Brasília.

Os detalhes ainda não estão claros, e muitos cientistas e ambientalistas questionam a capacidade do governo de realmente garantir a segurança das áreas, tão grandes e tão distantes. Mas o primeiro passo, lembra Sylvia, é sempre criar as unidades. “A capacidade de implementar a proteção começa com o fato de ter algo para proteger”, disse ela ao Estado. “Você não pode proteger algo que não existe.”

Estudos mostram que áreas protegidas, bem implementadas, não só conservam recursos que há nelas como ajudam a repovoar áreas vizinhas, atuando como berçário da vida selvagem e ajudando a manter funções vitais do oceano. Bom para os peixes, bom para o planeta, bom para o homem. “Basta olhar as evidências”, insiste Sylvia. “Basta olhar as evidências.”

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Herton Escobar, O Estado de S.Paulo

11 Março 2018 | 03h00

Sylvia Earle começou sua visita ao Brasil por um dos lugares mais simbólicos da conservação marinha no Brasil: o Arquipélago dos Alcatrazes, no litoral norte de São Paulo. Dotado de uma beleza pré-histórica, Alcatrazes passou quase 30 anos fechado à visitação pública, sendo usado como área de treinamento de guerra da Marinha do Brasil. 

Até que, em agosto de 2016, militares e ambientalistas entraram em acordo. O arquipélago foi declarado área protegida federal – mais especificamente, um Refúgio de Vida Silvestre, ou Revis.

Estudos mostram que Alcatrazes abriga a maior biodiversidade de peixes da costa brasileira. E a presença da Marinha, apesar dos conflitos, ajudou a preservar – e recuperar – grande parte dessa riqueza biológica, que vinha sendo depauperada pela pesca, diz o jornalista, ambientalista e navegador João Lara Mesquita.

Nos anos 1960, ainda criança, ele testemunhou a abundância da vida marinha do arquipélago, vendo seu pai, um ávido pescador, tirar anchovas e mais anchovas de lá. Nos anos 1980, viu essa riqueza diminuir drasticamente. Agora, recentemente, voltou a mergulhar no local e se surpreendeu com a quantidade e variedade de vida que viu.

Ao manter os pescadores afastados, a Marinha permitiu que a vida marinha florescesse de novo no arquipélago. “Essa é a grande mensagem da Sylvia: Ainda dá tempo. Apesar de todo o estrago que a gente causou, ela é otimista”, diz Mesquita, um grande admirador da cientista americana. “O livro dela abriu meus olhos para muita coisa.”

Evidências. A história de Alcatrazes, diz ele, é prova de que Sylvia está correta ao defender a criação de áreas protegidas como “paraísos” para reverter a perda da biodiversidade marinha. “É só dar um tempo que a vida volta.”

E para isso, no Brasil, a parceria com a Marinha é essencial, afirma Mesquita – ressaltando que a corporação sofre com a falta de recursos financeiros e humanos. “Se a gente quiser o oceano brasileiro bem protegido, precisamos de mais recursos para a Marinha.”

Risco de um tiro pela culatra

Durante a entrevista, João Lara Mesquita se mostrou particularmente preocupado com boatos que vinham da reunião no México, o World Ocean Summit 2018, com a presença da delegação brasileira, de que a Marinha teria exigido que a ilha de Trindade e o Arquipélago de São Pedro e São Paulo fossem completamente excluídos da zona de proteção integral das áreas protegidas.

Se isso acontecer, disse ele, será um tiro pela culatra do governo Michel Temer. No lugar de aplausos, ele ganhará vaias. E quando se tornar público, reiterou, a situação do presidente e do ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, ficarão insustentáveis. 

Tal desfecho, segundo Mesquita, seria uma enorme frustração imposta aos milhares de brasileiros que assinaram cartas e e-mails pedindo a proteção real dos dois arquipélagos.

 

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Herton Escobar, O Estado de S.Paulo

11 Março 2018 | 03h00

As áreas de proteção propostas para o Arquipélago de São Pedro e São Paulo e para a Ilha de Trindade, com mais de 400 mil quilômetros quadrados cada uma (um território oceânico do tamanho do Paraná), se aprovadas, entrarão para a lista das 20 maiores unidades de conservação marinhas do mundo – nas posições 16.ª e 17.ª

A criação de áreas protegidas gigantes no oceano virou uma tendência mundial nos últimos anos, impulsionada pela adoção das chamadas Metas de Aichi, acordo internacional sancionado pela Convenção sobre Diversidade Biológica das Nações Unidas, que prevê a proteção de pelo menos 10% das áreas costeiras e marinhas de cada país signatário até 2020. Mais de 14 milhões de km² de áreas protegidas marinhas foram criadas desde 2010, quando o acordo foi assinado, elevando a taxa de proteção global dos oceanos de 2,5% para quase 7%, segundo dados do World Database on Protected Areas. 

Se forem consideradas apenas as unidades de conservação efetivamente implementadas e operacionais, porém, esse índice cai para 3,6%, segundo o Atlas of Marine Protection.

Daí surge uma das principais críticas feitas por pesquisadores a essa “onda” de criação de grandes áreas protegidas oceânicas: muitas estariam sendo declaradas apenas com o intuito de cumprir estatisticamente as Metas de Aichi, sem o planejamento ou o suporte necessário para proteger, de fato, os recursos naturais marinhos.

“São poucas as áreas protegidas no mundo que são efetivas”, diz o pesquisador Antonio Carlos Marques, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. “Conservação não é uma questão retórica, de formalidade diplomática. O papel aceita tudo.”

Ainda assim, diz ele, não há como negar o mérito da criação dessas unidades no Brasil. “São áreas importantes de serem conservadas, isso é inquestionável. Esse é primeiro passo; vamos acompanhar agora para ver se vai funcionar ou não.”

“É uma notícia boa e ruim ao mesmo tempo”, diz o pesquisador brasileiro Luiz Rocha, da Academia de Ciências da Califórnia. 

Muitas dessas áreas gigantes, segundo ele, estão sendo criadas em áreas isoladas, despovoadas e pouco ameaçadas, buscando apenas cumprir as Metas de Aichi da forma mais simples e barata possível. O lado ruim, diz Rocha, é que isso diminui a pressão pela preservação de áreas menores e muito mais ameaçadas, próximas da costa. “Criar uma reserva isolada no meio da Amazônia é fácil; quero ver criar uma reserva na fronteira do desmatamento”, compara. 

Prioridades. As propostas do Ministério do Meio Ambiente (MMA) para Trindade e São Pedro e São Paulo incluem duas zonas de proteção: uma área de preservação integral no entorno das ilhas, chamada Monumento Natural (Mona), cercada por uma grande Área de Proteção Ambiental (APA) em mar aberto.

Para a conservação da biodiversidade, segundo os cientistas, a prioridade deve ser a preservação dos ecossistemas recifais das ilhas e dos topos de montes submarinos, onde vivem a maior parte das espécies raras e ameaçadas. Os limites dessas zonas de exclusão, porém, ainda estão sendo negociados entre o MMA e a Marinha do Brasil.

O controle da pesca é essencial, diz o pesquisador Hudson Pinheiro. “Não queremos que se repita a história de São Pedro e São Paulo, que já teve uma espécie de tubarão extinta.” Em Trindade, diz ele, a quantidade de tubarões também caiu drasticamente. “Se não diminuir o esforço de pesca, a efetividade dessas áreas é muito baixa.”

“Estamos comemorando o compromisso do governo, mas ainda há um longo caminho a percorrer”, diz Rodrigo Medeiros, vice-presidente da Conservação Internacional no Brasil. A ONG é uma das parceiras do MMA na Iniciativa Azul, projeto que busca unir forças entre governo, terceiro setor e iniciativa privada para a criação e implementação de áreas protegidas marinhas. “É um momento muito positivo para o mar no Brasil. Temos que aproveitar.”

 

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Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

11 Março 2018 | 03h00

UBATUBA - Há quase dez anos, a maior parte da zona costeira do Estado de São Paulo é considerada Área de Proteção Ambiental (APA), mesma categoria das unidades de conservação gigantes que o governo federal planeja criar em alto mar. Até hoje, porém, faltam regras claras para a ocupação e o uso sustentável dessas áreas.

A Ilha do Prumirim, em Ubatuba, é um exemplo disso. A faixa de areia está repleta de placas de madeira pedindo para que as pessoas não joguem lixo na praia. O objetivo é garantir que o espaço não se torne uma nova Ilha das Couves, um dos locais mais populares da região, que teve seu ambiente bastante degradado pelo turismo descontrolado.

Ambas as ilhas estão inseridas na APA Marinha do Litoral Norte, que tem por finalidade “proteger, ordenar, garantir e disciplinar o uso racional dos recursos ambientais da região”.

O plano de manejo da unidade deveria ter ficado pronto dois anos após sua criação, em 2008, mas até hoje não foi finalizado.

De acordo com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente, o plano deve ser entregue “até o final do ano”. “O adiamento foi consequência de estratégias adotadas em gestões anteriores, mas a conclusão é meta desta atual gestão”, informou por meio de nota.

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