Terrence McCoy/Washington Post
Terrence McCoy/Washington Post

Crise do clima pode derrubar PIB do Brasil e torná-lo 83% menor do potencial sem aquecimento global

Relatório do IPCC divulgado nesta segunda-feira, 28, aponta efeitos devastadores sobre economia e saúde dos brasileiros

Emilio Sant’Anna, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2022 | 08h00

Os efeitos das mudanças climáticas serão - e já são - sentidos no Brasil de diferentes formas. De acordo com o relatório do Painel Intergovernamental sobre o Clima (IPCC), da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado nesta segunda-feira, 28, além dos efeitos sobre os diferentes ecossistemas e sobre a população, o resultado também se revela na geração de riquezas pelo País. O PIB brasileiro já é cerca de 13,5% menor do que seria sem o aquecimento causado pelo homem desde 1991.

A constatação é de um dos estudos citados pelo relatório, mas não para por aí. Se esse caminho de aquecimento não for evitado, a economia brasileira sofrerá ainda mais. A renda média mundial deve cair 23% com a continuidade das emissões de gases do efeito estufa, o dióxido de carbono (CO2) é o principal deles. No Brasil, até 2100, esse índice negativo de perda econômica pode chegar à queda de 83% em relação do que poderia ser sem os efeitos das alterações do clima.

O último documento do IPCC mostrou, em agosto de 2021, que a Terra está esquentando mais rápido do que era previsto anteriormente e se prepara para atingir 1,5ºC acima do nível pré-industrial já na década de 2030, dez anos antes do que era esperado. Com isso, haverá eventos climáticos extremos em maior frequência, como enchentes e ondas de calor.

De acordo com estudo citado pelo relatório lançado nesta segunda-feira, 28, cada tonelada de CO2 emitida globalmente se reflete em um custo ao país de cerca de US$24 (cerca de R$ 125) em efeitos da mudança climática. Em 2021,  36,4 bilhões de toneladas de CO2 foram emitidos no mundo. O relatório aponta que entre 3,3 bilhões e 3,6 bilhões de pessoas no planeta estão vulneráveis hoje aos efeitos das mudanças climáticas - com consequências diferentes entre países e regiões, mas marcadamente piores de acordo com a fragilidade socioambiental.

Apesar de os efeitos serem sentidos em maior intensidade pelas populações mais vulneráveis mundo afora, algumas dessas consequências serão distribuídas em várias camadas. A produção agrícola nacional, principal impulsionador do PIB em anos de crise econômica, deve ser duramente atingida. Segundo estudo citado pelo relatório do IPCC, a produção de arroz, por exemplo, pode ter queda de 6% com a manutenção de altas emissões ou 3% com cortes rápidos.

Já a produção de trigo pode cair 21% no primeiro cenário ou 5% com cortes rápidos, e a de milho em 10% com altas emissões ou 6% com cortes rápidos. No entanto, esses índices também podem ser piores, com queda de até 71% para o milho produzido no Cerrado, por exemplo, e menor produtividade na pecuária e pesca.

Além do aumento de chuvas e inundações no Sudeste brasileiro, onde estão as maiores cidades do País como São Paulo e Belo Horizonte, a seca é um fantasma cada vez mais real no território nacional. A previsão é que as chuvas diminuam  mais 22% no Nordeste até 2100 se as emissões forem mantidas em patamar elevado.

A Amazônia também deve ser duramente atingida, principalmente em sua borda sul. Até o fim do século, o aquecimento deve reduzir em 27% o fluxo para a bacia do Rio Tapajós e 53% para a bacia do Araguaia-Tocantins, ambas tributárias do Rio Amazonas, o maior do mundo.

Secas e inundações são algumas das causas ambientais mais frequentemente associadas a processos de migração. O fenômeno social é uma das consequências previstas para a região Nordeste com o aumento das temperaturas médias até o final deste século.

De acordo com especialistas, os efeitos desse processo serão duplamente negativos. Além de forçar o deslocamento de grandes massas de população, esse fluxo deve ir parar nas cidades, já inchadas e com serviços e planejamento públicos precários.

Neste ano, no Brasil, por exemplo, fortes chuvas, mais concentradas e mais frequentes, atingiram os Estados da Bahia, Minas, Goiás, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Mais de 220 mortes foram registradas em Petrópolis neste mês em decorrência de temporais e deslizamentos. No mesmo período, ondas de calor e estiagem atingiram o Sul do País causando recordes de temperatura na região.

Se os efeitos econômicos estão claros, as consequências para saúde do brasileiro não ficam atrás. Segundo estudo citado pelo relatório do IPCC, o calor e a umidade devem gerar condições além da tolerância humana, se as emissões não forem reduzidas. O Brasil está entre os países que teriam as mais perigosas condições. 

“O cenário descrito pelo relatório é mais grave do que inicialmente previsto, impactando negativamente infraestruturas, ecossistemas, meios de subsistência, qualidade de vida e a sobrevivência de populações mais vulneráveis”, diz  Caroline Rocha, gerente de Clima do instituto de pesquisas WRI Brasil.

O relatório revela que o chamado bulbo úmido, a combinação entre calor e umidade, deve subir. A temperatura do bulbo úmido de 31°C é  perigosa para o homem e acima de 35°C por mais de seis horas torna-se insuportável. Caso as emissões sejam cortadas aos níveis atualmente previstos, parte da região amazônica terá temperaturas de 32°C de 1 a 12 dias por ano, segundo estudo citado pelo IPCC. 

A pesquisa afirma que se as emissões forem ainda mais altas, a maior parte do território nacional terá temperaturas de 32°C por pelo menos um dia por ano. Já em partes do Norte e do Centro-Oeste, essa condição deve chegar a até 30 dias por ano. Em algumas regiões do Nordeste, no entanto, a valores podem chegar aos 35°C.

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