REUTERS/Fred Greaves
REUTERS/Fred Greaves

Crise climática ameaça 3,6 bilhões no mundo, com efeitos piores em áreas pobres, diz painel da ONU

Relatório do IPCC aponta efeitos negativos na produção agrícola brasileira com reflexos sobre a economia e a segurança alimentar

Emilio Sant’Anna, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2022 | 08h00

Desigualdade, marginalização, uso insustentável da terra e do oceano expõem ainda mais a população mundial às mudanças climáticas induzidas pelo homem. Segundo relatório do Painel Intergovernamental sobre o Clima (IPCC), da ONU, divulgado nesta segunda-feira, 28, entre 3,3 bilhões e 3,6 bilhões de pessoas estão vulneráveis hoje a esses efeitos - com consequências diferentes entre países e regiões, mas marcadamente piores de acordo com a fragilidade socioambiental.

No caso brasileiro, o documento aponta efeitos negativos na produção agrícola com reflexos sobre a economia e a segurança alimentar, a maior exposição da Amazônia aos efeitos das mudanças climáticas e da ação humana e o perigo de no futuro grandes massas migratórias no Nordeste serem causadas por eventos extremos como secas e inundações mais frequentes.  

O último documento do IPCC mostrou, em agosto de 2021, que a Terra está esquentando mais rápido do que era previsto anteriormente e se prepara para atingir 1,5ºC acima do nível pré-industrial já na década de 2030, dez anos antes do que era esperado. Com isso, haverá eventos climáticos extremos em maior frequência, como enchentes e ondas de calor.  

A estimativa da população hoje exposta aos efeitos das mudanças climáticas representa até mais do que 50% da população mundial de 7,8 bilhões de pessoas. Mesmo que a temperatura exceda temporariamente 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais, os impactos esperados são severos e alguns dos quais irreversíveis.

"Abdicar da liderança é criminoso. Os maiores poluidores globais são culpados de destruir a nossa própria casa', disse o secretário-geral da ONU, António Guterres. "Negação e procrastinação não são estratégias, mas a receita para o desastre", acrescentou o enviado especial do governo americano para o clima, John Kerry. 

O aumento das ondas de calor, secas e inundações, segundo o documento, já excede a tolerância de plantas e animais, levando a mortalidades em massa em espécies como árvores e corais. Esses extremos climáticos ocorrem simultaneamente, causando impactos em cascata cada vez mais difíceis de gerenciar. 

Apesar dos esforços para atenuar esses efeitos, as populações e os ecossistemas menos capazes de lidar com as mudanças climáticas estão sendo os mais atingidos, diz o documento aprovado no domingo, 27. São locais marcados por padrões de desenvolvimento ligados ao colonialismo e governança ineficaz. 

O relatório do IPCC aponta que as populações urbanas cresceram, com mais de 397 milhões de pessoas entre 2015 a 2020. E mais de 90% desse crescimento ocorreu em regiões menos desenvolvidas. O boom populacional convive com o aumento da vulnerabilidade, que ocorre em assentamentos não planejados e informais, e em centros urbanos pequenos e médios em países de baixa e média renda onde a capacidade de adaptação é limitada. 

As Américas Central e do Sul estão altamente expostas, diz o relatório aprovado no domingo, 27, por 195 membros do IPCC. A região é vulnerável e fortemente impactada pelo aquecimento global, situação amplificada pela desigualdade, pobreza, crescimento populacional e alta densidade populacional nas cidades, com a ocupação de áreas de risco.  A alta dependência dos recursos naturais para a produção de commodities também é um fator de risco. 

Nesse contexto, de acordo com o relatório divulgado nesta segunda, o Brasil tem algumas regiões com alta probabilidade de enfrentar consequências drásticas. Na Amazônia, um dos maiores “filtros” de dióxido de carbono do mundo, principal gás causador do efeito estufa, as mudanças no uso da terra e o desmatamento deixarão a região mais suscetível a eventos extremos e incêndios florestais.

Como o Estadão mostrou, na última terça-feira, na borda sul da Amazônia, os efeitos das mudanças climáticas, como o aumento da intensidade dos ventos, associados ao desmatamento, causam quebras e mortes de árvores em maior escala do que em qualquer outra parte da floresta. Não por acaso, diz a pesquisa que identificou o fenômeno, a região afetada é também uma fronteira agrícola.   

No Sudeste brasileiro, onde estão as maiores cidades do País, são esperadas mudanças no padrão de chuvas e secas que trarão impactos para a vida econômica das grandes aglomerações urbanas. Para o Nordeste do País, assim como para a região andina e norte da América Central, os efeitos das mudanças climáticas podem causar, com grandes possibilidades, o deslocamento forçado de populações. Secas e inundações são algumas das causas ambientais mais frequentemente associadas a processos de migração. 

Neste ano, no Brasil, por exemplo, fortes chuvas, mais concentradas e mais frequentes, atingiram os Estados da Bahia, Minas, Goiás, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Mais de 200 mortes foram registradas em Petrópolis neste mês em decorrência de temporais e deslizamentos. No mesmo período, ondas de calor e estiagem atingiram o Sul do País causando recordes de temperatura na região. 

No Centro-Oeste os efeitos da seca são sentidos no desempenho do agronegócio, principal impulsionador do PIB brasileiro em anos de crise econômica. As ondas de calor e a estiagem causaram prejuízos de mais de R$ 45 bilhões nos Estados do Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul. 

A soja e o milho, principais grãos da pauta de exportações brasileiras, são as culturas mais atingidas. Somente para os produtores gaúchos, as perdas podem ultrapassar R$ 19,7 bilhões, segundo estudo da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado do Rio Grande do Sul (Feco-Agro).

Entre as consequências para as Américas Central e do Sul, já sentidas e que devem se intensificar, estão o aquecimento, aumento do nível do mar, erosão costeira, acidificação dos oceanos e lagos, morte de corais e aumento da frequência e gravidade das secas em algumas regiões, com diminuição da oferta de água associada, que impactam a produção agrícola, pesca tradicional, segurança alimentar e a saúde humana. 

Para Renata Camargo, especialista em Mudanças Climáticas do WWF-Brasil, o relatório do IPCC, focado em adaptação aos processos de mudanças climáticas, é um lembrete de que há muito a ser feito no Brasil. “Desenvolver e implantar políticas públicas de ocupação de solo alinhadas ao novo normal, com ênfase em habitação, saneamento, recuperação das bacias, bem como dar mais robustez aos sistemas de alerta e à defesa civil, são fundamentais em um país onde mais de 8 milhões de pessoas vivem em áreas de risco de deslizamentos e/ou enchentes”, afirma.

Apesar de alguns avanços, ainda há muito a ser feito, dizem especialistas. Em novembro, durante a Conferência do Clima (COP-26), em Glasgow, os 197 países que participaram chegaram a um documento final em que concordaram em cortar emissões, diminuir o uso de carvão mineral e aumentar os fundos para o desenvolvimento de políticas ambientais nos países em desenvolvimento. O resultado, no entanto, ainda é insuficiente para conter os efeitos das mudanças climáticas. 

O novo documento do IPCC aponta para a mesma conclusão e mostra que ainda há uma pequena janela de oportunidades para frear esse processo ou, ao menos, atenuar seus efeitos. “Este relatório é um alerta terrível sobre as consequências da inação”, diz Hoesung Lee, presidente da IPCC, em comunicado. “Isso mostra que a mudança climática é uma ameaça grave e crescente ao nosso bem-estar e a uma vida saudável. Nossas ações hoje moldarão como as pessoas se adaptam.”

Apesar dos alertas, o Brasil, na gestão de Jair Bolsonaro, bate recordes sucessivos de desmatamento. Em janeiro, a Amazônia registrou 430 quilômetros quadrados de floresta nativa desmatada. É o mesmo que abrir 43 mil campos de futebol na mata em apenas um mês ou o equivalente ao tamanho da cidade de Jundiaí (SP), de acordo com dados oficiais, coletados pelo sistema de satélite Deter, do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia.

O volume representa um aumento explosivo em relação ao mesmo período do ano passado, com alta de 418% ante janeiro de 2021, embora tenha chovido mais na região este ano. A devastação de janeiro, conforme os dados, representa a maior área perdida desde 2016, quando foram iniciadas as medições pelo sistema Deter-B.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.