João Marcos Rosa/Estadão
João Marcos Rosa/Estadão

Criadouro paulista consegue primeiro filhote de ave extinta na natureza

Um criadouro de Borá, no interior paulista, conseguiu o primeiro filhote do mutum-de-alagoas, típica da Mata Atlântica do Estado de Alagoas, a nascer no Estado de São Paulo

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

07 Junho 2017 | 03h00

SOROCABA – Extinto há 36 anos na natureza, o mutum-de-alagoas ganha uma chance de recuperar seu lugar entre as mais belas aves brasileiras a 2,5 mil quilômetros de seu habitat primitivo. Um criadouro de Borá, no interior paulista, conseguiu o primeiro filhote da espécie, típica da Mata Atlântica do Estado de Alagoas, a nascer no Estado de São Paulo. A avezinha completa quatro meses nesta quarta-feira (7) e, cercada de cuidados, caminha para se tornar um belo exemplar adulto. “O filhote está imenso, esbanjando saúde”, comemora a bióloga Érica Coriolano, que acompanha diariamente o desenvolvimento da ave rara.

O nascimento é resultado de um trabalho do Instituto Pauxi Mitu, um dos seis criadouros conservacionistas que integram o Plano Nacional para a Conservação do Mutum-de-Alagoas, coordenado pelo Instituto Chico Mendes para Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O criadouro, que adotou o nome científico da espécie, recebeu seis casais de mutum-de-alagoas em setembro do ano passado. A bióloga conta que a transferência se deu no período de reprodução da espécie, mas não estava prevista a postura de ovos viáveis de forma tão rápida, pois as aves precisavam de um período para se adaptarem ao novo lar.

Para surpresa da equipe, um ovo posto fora do ninho estava fecundado. “Nossa funcionária achou o ovo e mandou a foto pelo Whatsapp. Quando olhei, achei que estava quebrado e a ideia era examinar e descartar. Ao fazer a ovoscopia (exame do interior da casca), vi que era um ovo bom.” Cerca de um mês depois, no dia 7 de fevereiro, o filhotinho rompeu a casca na chocadeira. Ainda não se sabe se é macho ou fêmea – a sexagem será feita através de exame de sangue. Também será feito o exame de DNA para aferir o grau de pureza da ave, já que muitos dos mutuns-de-alagoas existentes em cativeiro foram cruzados com mutum-cavalo, espécie muito parecida.

Conforme a bióloga, o plano prevê a soltura das aves nascidas em cativeiro numa reserva ambiental de quase mil hectares no Estado de Alagoas. O santuário, transformado em Reserva Particular do Patrimônio Nacional (RPPN) pela Usina Leão, dona da área, tem as mesmas características do habitat original do mutum extinto, que vivia em matas próximas à foz do Rio São Francisco. “Os seis casais continuarão conosco, produzindo mais filhotes, o que possibilitará a troca com outros criadouros e a recuperação da pureza genética da espécie, através de cruzamentos”, explicou. Atualmente, segundo ela, existem cerca de 200 mutuns-de-alagoas puros em criadouros nacionais, a maioria no município de Contagem (MG). 

Criado há sete anos, o Instituto Pauxi Mitu resulta de convênio de cooperação entre o Grupo Toledo, do empresário alagoano Marcelo Acioli Toledo, e o ambientalista Fernando Pinto, do Instituto para Preservação da Mata Atlântica (IPMA). O grupo mantém usinas de açúcar e álcool em Alagoas e em Borá, interior de São Paulo. O Pauxi Mitu atua na proteção de aves ameaças de extinção e em educação ambiental. Atualmente, 306 aves são mantidas em viveiros do criadouro que também conseguiu, recentemente, a reprodução do mutum-do-sudeste, espécie vulnerável na natureza.

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