Créditos de carbono humanizam favela

A favela do Bamburral é um núcleo de 570 famílias que vivem ao lado do aterro sanitário Bandeirante, em Perus, noroeste do município de São Paulo. Em pouco tempo, um projeto pioneiro pode mudar sua realidade: com o dinheiro de leilões de crédito de carbono, será desenvolvido um processo de urbanização e humanização que poderá alterar a situação atual e beneficiar todas essas famílias.

Ronaldo Marques,

17 Dezembro 2010 | 14h51

 

Os créditos de carbono foram adquiridos pela Prefeitura de São Paulo em leilões públicos que apregoaram a produção da usina local de biogás - ela extrai e queima o metano emitido pelo aterro, gerando energia suficiente para atender ao consumo de 700 mil pessoas. O projeto reune equipes das secretarias de Habitação e do Verde e Meio Ambiente do Município e o dinheiro arrecadado já chega a R$ 71 milhões.

 

"Juntamos os recursos no Fundo Especial de Meio Ambiente (Fema) e aplicamos em projetos socioambientais nas regiões que sofrem o impacto ecológico por estarem ao lado de um aterro sanitário, como é o caso da favela Bamburral", explica a superintendente de Habitação Popular, Elizabete França. A ideia é transformar a favela num modelo, para que outras regiões também unam desenvolvimento sustentável e social.

 

A urbanização da comunidade prevê infraestrutura, canalização de córrego e construção de quatro blocos de moradia que abrigarão 260 famílias atualmente moradoras de áreas de risco.

 

É o caso de Valdeci Cristina: ela mora em um barraco de dois cômodos, pouco acima do córrego. "Espero que, desta vez, a urbanização saia do papel e nos tire do lado desse lixão", diz.

 

Também está prevista a construção de um deck sobre o córrego para facilitar a locomoção dos moradores e um parque linear com áreas de esporte e lazer. O projeto foi desenvolvido pelo escritório Brasil Arquitetura e é conduzido pelo arquiteto Marcelo Ferraz. A execução das obras, no entanto, ainda aguarda licitação. "É um projeto bastante complexo, não somente pelas questões sociais envolvidas, mas também pela situação física do local, como a vizinhança com o aterro sanitário, o córrego poluído e sua nascente, a topografia acidentada”, diz Ferraz.

 

Para ele, também é importante investir os créditos de carbono em projetos sociais e não somente na preservação natural: "Esta oportunidade do Bamburral é um bom exemplo do uso desse tipo de investimento para estímulo de muitos outros."

 

Fernanda Müller, do Instituto Carbono Brasil, especialista em análises da situação das emissões de carbono e das condições de créditos de carbono no País, concorda com isso e vê na iniciativa um bom uso do dinheiro que pode, ao mesmo tempo, acabar com dois problemas. Ela explica: "Ao se investir na área social e ambiental utilizando recursos provenientes de ações ambientais positivas, como no caso dos créditos de carbono da usina de biogás, estamos de fato investindo no futuro do País de maneira sustentável”.

 

RONALDO DA SILVA MARQUES É ALUNO DA UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO

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