Corte de combustível pode barrar balsas de garimpo, diz delegado da PF que já comandou Amazônia

Corte de combustível pode barrar balsas de garimpo, diz delegado da PF que já comandou Amazônia

Alexandre Saraiva, que atuou por dez anos na região amazônica, diz que ataque à logística do garimpo é meio efetivo de combater avanço da prática no Rio Madeira. Governo articula ações contra dragas que estão na região em busca de ouro

André Borges, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2021 | 13h40

BRASÍLIA – O delegado da Polícia Federal Alexandre Saraiva, que atuou por dez anos à frente da PF na região amazônica, avalia que a melhor estratégia para impedir o avanço das centenas de balsas de garimpo ilegal no Rio Madeira deve ser o corte de suprimentos usados pelos equipamentos.

Ao Estadão, Saraiva disse que chegou a viver situações parecidas em apreensões de balsas e que a medida mais efetiva, nestes casos, é acabar com a logística. “Quando você acaba com o combustível, com a chegada de peças de reposição, você paralisa a atividade. Tem que deixar passar só água e alimento, para ninguém morrer de fome. Fora isso, não pode entrar nada”, disse.

Saraiva deixou a chefia da superintendência da PF no Amazonas em abril, após apresentar uma notícia-crime contra o então ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, acusado de obstrução de investigação ambiental, advocacia administrativa e organização criminosa. Hoje, Saraiva comanda a PF em Volta Redonda, no Rio de Janeiro, sua base de origem.

O delegado afirma que, em 2012, durante a Operação Xawara, que combatia extração ilegal de ouro em Roraima, na terra indígena Yanomami, o corte de suprimentos foi feito com o uso de barreiras nos trechos do rio. Naquela ocasião, foram usadas correntes para cercar as balsas no Rio Uraricoera. “Se você isola o rio, retira o que alimenta as balsas. No caso do Madeira, teria que fazer um isolamento ali, nos dois lados, com uso de embarcações”, diz.

Em setembro de 2019, Saraiva também esteve à frente de uma operação contra o garimpo ilegal próximo aos indígenas isolados na terra indígena Vale do Javari, no extremo oeste do Amazonas, zona fronteiriça com o Peru. Na ocasião, foram destruídas aproximadamente 60 balsas que garimpavam ilegalmente naquela área.

“As pessoas devem sair e serem revistadas. Já as balsas ficam, não podem sair, porque são o instrumento do crime. A lei determina apreensão ou sua destruição”, afirma o delegado.

Alexandre Saraiva chama a atenção para o fato de que a forte movimentação das balsas no Rio Madeira poderia ter sido evitada, porque as autoridades federais dispõem de sistemas de satélite de alta precisão que mostram diariamente a movimentação em toda a região.

“Era possível ter feito alguma coisa, antes dessa aglomeração. Isso não surgiu de um dia para o outro. Agora, é uma situação de maior risco, pode haver resistência, é um cenário mais complexo”, comentou. “De qualquer forma, lei é lei, tem que cumprir. Não se permite negociação. Ali, tem que prender quem está fazendo atividade ilegal e apreender o maquinário. A questão é a forma como se fará cumprir a lei, que tem que ser maneira adequada. Não precisava ser difícil, mas ficou.”

Como revelou nesta quarta-feira o Estadão, a Polícia Federal articula ações para tentar conter o avanço de centenas balsas de garimpo ilegal que estão reunidas há dias no Rio Madeira, numa região onde teria sido encontrada uma grande quantidade de ouro pelas embarcações clandestinas, no município de Autazes. Outros órgãos federais participam dessa operação, como o Ibama e a Marinha.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.