Corte ambicioso de emissões de CO2 pode fazer PIB crescer mais, aponta estudo

Trabalho sugere que economia pode crescer quase 4% a mais em relação a cenário mais moderado de redução de gás-estufa; desemprego também diminui

Giovana Girardi, O Estado de S. Paulo

27 Agosto 2015 | 19h45

Reduzir as emissões de gases de efeito estufa de um modo mais ambicioso do que o Brasil já tem feito pode melhorar a economia, aumentando o PIB em quase 4% e reduzindo o desemprego a uma taxa de 3,50%. A previsão, para 2030, está num estudo realizado por 80 especialistas brasileiros em mudanças climáticas sobre os impactos que medidas para conter o aquecimento global podem ter na economia.

É uma tentativa de responder a um velho temor de que ações nesse sentido poderiam impedir o desenvolvimento. Em números, a pesquisa mostra exatamente o contrário: conter as emissões é um bom negócio para o bolso do País.

O projeto IES-Brasil (Impactos Econômicos e Sociais: Cenários de Mitigação de Gases de Efeito Estufa) compara medidas já previstas na Política Nacional de Mudanças Climáticas com cenários futuros em que são consideradas ações adicionais de mitigação (redução das emissões). 

O trabalho partiu das metas apresentadas pelo Brasil durante a Conferência do Clima de Copenhague, em 2009, válidas para 2020, e nas previsões do governo contidas no Plano Nacional de Energia para 2050. Com base nesses dados foram propostos três cenários de mitigação para 2030: o primeiro, apelidado de Cenário de Plano Governamental (CPG), imagina que essas medidas propostas para 2020 seriam extendidas até 2030; o segundo, chamado de cenário de mitigação adicional 1, contém algumas ações extras de redução das emissões; o terceiro, ou cenário de mitigação adicional 2, apresenta ações mais ambiciosas de redução.

“Analisamos esses dados da perspectiva do ministro da Fazenda e da presidente, que podem pensar: já sei que as mudanças climáticas vão causar danos, mas se tomar medidas contra isso, será que não vai prejudicar a economia, a classe média emergente que começou a ter acesso a bens de consumo?”, explica o pesquisador Emílio La Rovere, coordenador do Centro de Estudos Integrados sobre Meio Ambiente e Mudanças Climáticas da Universidade Federal do Rio, e um dos líderes do estudo.

Os pesquisadores consideram que o Brasil vai cumprir a meta para 2020, mas, no cenário de plano governamental, as emissões brasileiras subiriam um pouco logo depois, podendo chegar a 2030 em 1,66 gigatonelada de CO2-equivalente (hoje estão em torno de 1,2 gigatonelada -- veja quadro acima). No cenário de mitigação adicional 1, as emissões seriam 22% menores, sendo de 1,3 gigatonelada em 2030. Já no cenário de mitigação adicional 2, a redução seria de 39%, ficando em 1 gigatonelada.

A análise considerou os custos para adotar essas ações, expectativas de crescimento da economia brasileira, do valor do barril de petróleo e do tamanho da população. Pelos cálculos, no CPG o PIB chegaria a 5,5 trilhões, no mitigação 1, a 5,69 trilhões, e no mitigação 2, a 5,68 trilhões. O último valor é 3,98% maior que o primeiro. Já a taxa de desemprego cairia, respectivamente, a 4,35%, 4,08% e 3,50%, principalmente com a geração de vagas na indústria de energias renováveis.

A conclusão é que nos três cenários “é possível crescer economomicamente, melhorar o desenvolvimento social e reduzir as emissões”, mas que menos carbono na atmosfera pode trazer um resultado ainda melhor. “A nossa projeção considera que o governo vai reduzir o custo Brasil, aumentar a nossa produtividade, investir em educação e inclusão social”, afirmou William Wills, coordenador de modelagem do estudo, durante apresentação dos resultados do programa em audiência pública na Comissão Mista de Mudança Climática do Congresso na última terça-feira (25).

“Não atrapalha a economia, nem o emprego nem o consumo para classes de baixa renda. E se o mundo realmente embarcar na transição para diminuir as emissões, o Brasil já sairia fortalecido se adotasse medidas mais ambiciosas. Essa é a mensagem do estudo, o Brasil pode assumir liderança na negociação”, complementa La Rovere.

Ele explica ainda que são cenários plausíveis mesmo considerando o momento de recessão em que o Brasil se encontra. “Quando começamos a fazer o estudo, no ano passado, a crise estava começando. As projeções de crescimento ficam adiadas agora, mas com ajuste fiscal, reformas, o País em alguns anos volta a crescer. E em algum momento as configurações voltam a ser as usadas no estudo”, diz La Rovere. “Nosso trabalho não é uma previsão, mas dá uma direção de onde podemos chegar. Até porque a mudança climática não vai acabar em 2030 e quando o País voltar a crescer, como vão ficar as emissões?”, questiona o pesquisador.

Metas para Paris. Coordenado pelo Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, o trabalho, encomendado pelo Ministério do Meio Ambiente, está sendo trazido a público agora, mas já tinha sido apresentado no final de março para a ministra Izabella Teixeira, como subsídio para a elaboração das chamadas INDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas Pretendidas, na sigla em inglês). Tratam-se das metas de redução de emissões que cada país tem de apresentar até 1º de outubro para as negociações da Conferência do Clima que será realizada em Paris, no final do ano. 

O Brasil ainda não apresentou a sua e há uma expectativa de que isso ocorra durante a cúpula da ONU sobre os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, que ocorre de 25 a 27 de setembro reunião da Assembleia Geral da ONU em Nova York.

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