Paul Ellis/AFP
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COP-26 aprova acordo com regras sobre mercado de carbono, mas avança pouco em financiamento

Mercado global de CO2 permite negociar créditos com base na quantidade de emissões, mas países em desenvolvimento queriam mais recursos de países ricos; China e Índia pressionaram para amenizar trecho sobre combustíveis fósseis

Emílio Sant´anna, enviado especial

13 de novembro de 2021 | 17h05

GLASGOW - Líderes de quase 200 nações aprovaram neste sábado, 13, o documento final da Cúpula do Clima (COP-26), em Glasgow. O acordo define regras para o mercado global de carbono, para negociação de créditos com base na quantidade de emissões de gases de CO2 feitas ou evitadas na atmosfera. Outro destaque do texto foi um apelo para a redução gradual do uso de combustíveis fósseis - trecho cuja linguagem foi atenuada ao longo das negociações. Especialistas dizem que houve progressos, mas insuficientes contra o aquecimento do planeta. A falta de avanço na oferta de verba pelos países ricos para que nações em desenvolvimento financiem adaptações às mudanças climáticas foi uma das frustrações.  

A regulamentação do mercado de carbono  - importante na luta contra o aquecimento global - era prevista desde o Acordo de Paris, em 2015. Alguns países têm seus mercados internos regulamentados e outros operam com mecanismos voluntários, como é o caso do Brasil. O sistema internacional - cujos detalhes da operação ainda serão definidos - é um passo para que países onde existem grandes áreas de absorção de CO2 (como a Amazônia) possam negociar títulos com nações poluentes, que precisam compensar o excesso de emissões na atmosfera. 

Na última COP - a de Madri, em 2019 - a delegação brasileira foi um dos principais obstáculos para um acordo. Nesta conferência, entretanto, o governo decidiu fazer concessões e aceitar o modelo proposto. “Chegamos não apenas com nossas posições e preferências, mas com o entendimento maduro de que as negociações sejam finalizadas”, disse o negociador-chefe do Brasil, Paulino Franco de Carvalho Neto.

Uma das principais críticas do Brasil era sobre os itens que impedem a dupla contagem: que a emissão de um crédito de carbono seja contada e abatida das emissões totais do país que vendeu e também do que comprou. 

Um item que os países em desenvolvimento pediam, e foi aprovado, é a transposição dos créditos criados pré-Acordo de Paris para o período posterior. O cálculo que as nações ricas fizeram é que não valia a pena travar a negociação ante um total não tão volumoso. 

Os países mais pobres, porém, ficaram sem a criação de uma taxa sobre as transações. Na COP, foi aprovada só a taxação de transações entre empresas, mas não entre países.

Outro destaque do documento aprovado nesta COP é a previsão de redução gradual do uso de combustíveis fósseis. A linguagem do texto, que inicialmente previa o abandono desse tipo de poluente, foi suavizada ao longo das negociações, após forte pressão de países produtores de petróleo ou consumidores de carvão. Nas últimas horas de negociação, houve apelo de China e Índia para usar o termo "redução", no lugar de "eliminação" dos poluentes, alvo de fortes críticas de outros países, que reclamaram da falta de transparência nessa mudança. 

O financiamento dessas estratégias contra as mudanças climáticas foi alvo de um dos principais embates ao longo da COP e frustrou as expectativas de garantir mais recursos. Ainda na plenária final do evento, na tarde deste sábado, representantes das nações mais pobres reivindicaram mais verbas. O Brasil foi uma das principais vozes nos apelos por mais verbas dos países desenvolvidos.  

O texto final recomenda dobrar os recursos oferecidos pelos países ricos às nações em desenvolvimento, com o objetivo de financiar ações contra o aquecimento global e adaptações às mudanças climáticas. Em 2009, os países desenvolvidos haviam se comprometido a criar, até o ano passado, um fundo climático de US$ 100 bilhões. A promessa, porém, não foi cumprida. Segundo os cálculos mais recentes, o montante oferecido para essa finalidade não passava de US$ 80 bilhões

O pacto propõe ainda que países-membros apresentem até o fim de 2022 novos compromissos nacionais de cortes de emissões de gases de efeito estufa, três anos antes do previsto, ainda que "tendo em conta as diferentes circunstâncias nacionais".

Relatório do Painel Intergovernamental sobre o Clima das Nações Unidas, em agosto, mostrou que a Terra está esquentando mais rápido do que era previsto e se prepara para atingir 1,5ºC acima do nível pré-industrial já na década de 2030, dez anos antes do que era esperado. Com isso, haverá eventos climáticos extremos em maior frequência, como enchentes e ondas de calor. 

Para o secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres, o acordo aprovado é bem-vindo, mas não suficiente. Segundo ele, o mundo continua à beira de uma "catástrofe climática".A ativista ambiental sueca Greta Thunberg, de 18 anos, foi às redes sociais expressar sua rejeição às negociações feitas. "Aqui vai um breve sumário: blá, blá, blá", escreveu no Twitter.

Brasil tenta reverter imagem de vilão ambiental

O Brasil chegou à conferência sob desconfiança internacional, diante da explosão do desmatamento na Amazônia e da postura de pouco diálogo do presidente Jair Bolsonaro sobre a agenda ambiental. Na conferência, entretanto, o País aderiu a acordos propostos pelos Estados Unidos e os países europeus - como os pactos para conter o desmatamento e as emissões de metano. 

Analistas consideram positivo que o Brasil não tenha colocado obstáculos nas negociações, mas afirmam que recuperar a reputação na área ambiental dependerá de ações efetivas da gestão Bolsonaro. Enquanto a COP ainda ocorria, dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), órgão ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, mostraram que o desmate na Floresta Amazônia bateu recorde em outubro na série histórica de sete anos. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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