Gabriela Biló/Estadão - 27/8/2019
Gabriela Biló/Estadão - 27/8/2019

Conter desmatamento e tráfico animal pode evitar novas pandemias a baixo custo, diz estudo

Em estudo na revista Science, pesquisadores defendem que a devastação de florestas como a Amazônia pode levar a novas pandemias, mas os custos para conter a devastação ambiental são bem menores que os valores para lidar com a doença

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2020 | 19h40

Desde que teve início a pandemia de covid-19, doença cuja origem provavelmente está em morcegos da China, especialistas em ecologia têm alertado que o desmatamento de florestas tropicais e o tráfico de animais silvestres podem acabar revelando novos vírus com potencial pandêmico tão grande quanto o do novo coronavírus. Um grupo de pesquisadores calculou, agora, quanto custaria evitar isso. E mostra que é muito mais barato que lidar com a doença em si.

O trabalho, publicado nesta quinta-feira, 23, na revista Science, por cientistas do Brasil, do Quênia, da China e dos Estados Unidos, estima que coibir o tráfico de animais e frear o destruição de florestas tropicais no mundo custaria entre US$ 22 bilhões e US$ 31 bilhões por ano. Eles comparam o valor com US$ 2,6 trilhões já perdidos com a covid-19, além das mais de 600 mil vidas

Os pesquisadores, liderados por Andrew Dobson, da Universidade Princeton, ressaltam a relação de doenças emergentes com a devastação ambiental. Além do Sars-COV-2, vários outros vírus, como o HIV e o ebola, passaram de hospedeiros animais para os seres humanos por causa desse contato próximo com morcegos e outros primatas. 

“A relação entre desmatamento e pandemias já está bem debatida. Hoje sabe-se que é um meio estabelecido para doenças emergentes, mas o combate ao problema ainda não entrou na agenda de prevenção de eventuais pandemias”, disse ao Estadão Mariana Vale, professora do Departamento de Ecologia da UFRJ e uma das autoras do trabalho. 

“Ao fazermos a conta, porém, vemos que o valor é irrisório se compararmos com os gastos não só desta pandemia, mas também de outras pandemias menores, mas também de origem zoonótica (vinda de animais), como a de HIV/Aids”, complementou.

Os autores recomendam quatro estratégias de prevenção: controle de desmatamento; ações para acabar com o comércio de animais silvestres; vigilância sanitária nas áreas com alto risco de surgimento de doenças emergentes, onde as pessoas têm muito contato com animais, para identificar rapidamente o surgimento de novos vírus; e investimento em biossegurança nas criações animais, sobretudo naquelas conhecidas por terem a chance de passar vírus para os humanos, como porcos e aves.

Pelos cálculos dos pesquisadores, o investimento mais alto teria de ser feito em programas e políticas para conter em até 50% o desmatamento. Para essa medida, eles estimam um custo de US$ 19 bilhões por ano. 

Para os autores, as bordas das florestas tropicais, onde mais de 25% da floresta original foi perdida, tendem a ser focos de transmissões virais entre animais e humanos. Nessas regiões perturbadas, o trânsito de animais em busca de alimento nos assentamentos humanos é maior, em especial de morcegos, que são os prováveis reservatórios dos vírus da covid-19, do ebola e da Sars.

O risco da Amazônia

Mariana lembra que isso é um risco particularmente grande na Amazônia, que vem sofrendo uma alta no processo de destruição nos últimos anos. Ela afirma que lá a diversidade de morcegos é a maior do mundo. Vivem na floresta cerca de 120 espécies de morcegos.

Para a pesquisadora, pode ser considerada uma sorte que a devastação da Amazônia até hoje ainda não tenha resultado no encontro de humanos com um vírus potencialmente pandêmico. “Alguns cientistas acham que a probabilidade é baixa. Eu sou da turma que acha que é alta”, diz. 

Segundo Mariana, existem três fatores que colaboram para o surgimento de uma doença emergente: a quantidade de animais que podem ser possíveis reservatórios, como morcegos e primatas; a quantidade de pessoas e de animais de criação; e a taxa de contato entre pessoas e animais silvestres.

“Na Amazônia a quantidade de morcegos e primatas é das maiores no mundo. A população humana é baixa, mas não insignificante – cerca de 24 milhões, com cidades que têm porte razoável, como Manaus, que tem até ligação aérea direta com os EUA. E o contato com animais silvestres está crescendo com o desmatamento. Isso aumenta a chance de surgimento de uma doença emergente”, explica.

Outros investimentos

Os pesquisadores recomendam ainda um investimento entre US$ 217 milhões e US$ 279 milhões milhões por ano, pelos próximos dez anos, em medidas precoces de detecção e controle de novas doenças. Nesse quesito, eles sugerem a criação de um acervo de genética viral, tanto para ajudar a identificar a fonte de novos patógenos emergentes, quanto para acelerar o desenvolvimento de testes sorológicos para monitorar surtos futuros e de vacinas para preveni-los.

Para acabar com o comércio de animais silvestres na China e educar consumidores e caçadores sobre os riscos potenciais, os pesquisadores estimam um gasto de US$19 milhões por ano. Outros US$ 852 milhões deveriam ser alocados na redução da transmissão de vírus interespécies na criação de animais domésticos para consumo humano.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.