Consumo consciente: o que cabe à sociedade no problema

O aquecimento global é democrático e vai atingir a todos, então é possível concluir que as soluções

Giovana Girardi,

05 Junho 2008 | 00h00

Foi preciso superar a careta do caixa do supermercado para sair com um pacote de pão e um vidro de azeite sem colocá-los em uma fatídica sacolinha de plástico. A compra era simples, fácil de carregar, o que tornava a sacolinha totalmente desnecessária, mas o comportamento dos atendentes fazia parecer que do outro lado do balcão estava um extraterrestre. Há que se admitir – ser ambientalmente correto no dia-a-dia tem lá seus obstáculos. É preciso superar uma certa vergonha e, às vezes, até uma dose de preguiça. Em algumas situações, é preciso deixar o luxo de lado. Mas atitudes individuais como essa são fáceis e estão ao alcance de todo mundo. São a colaboração que cada pessoa pode dar para diminuir as emissões globais de gases-estufa. Senão, vejamos. O plástico é subproduto do petróleo. Os fabricantes dizem que ele vem de uma sobra do processo de refino, ou seja, que não demanda mais extração de óleo. Mas sua produção é um processo industrial que requer energia e, por conseqüência, gera emissões. Calcula-se que no Brasil são consumidos 18 bilhões dessas sacolinhas por ano, de acordo com o Programa de Qualidade e Consumo Responsável de Sacolas Plásticas, que estimula a redução de 30% disso. Imagine que dá cem sacolinhas para cada brasileiro (muito mais se considerarmos que uma boa parte da população não tem acesso a sua "cota"). O site http://www.resbrasil.com.br/ apresenta um número ainda mais assustador. Um contador automático estima o consumo mundial – no começo desta semana estava em 211 bilhões só neste ano. A idéia válida aqui é a mesma para tudo: diminuir o consumo para ter menos impacto no ambiente. Ou, como simplifica o velho mote ambientalista, é preciso reduzir, reutilizar, reciclar. E quando se fala em consumo não é só o de produtos, mas o de recursos naturais, de energia e de combustíveis. São mudanças como as propostas acima (veja quadro) que podem fazer a diferença se abraçadas por todo mundo, defendem os especialistas. Um bom exemplo de "união faz a força" é o da carona solidária nas grandes cidades. Em São Paulo, a taxa média de ocupação é inferior a 1,5 pessoa por veículo (cerca de 64% dos carros que trafegam na cidade circulam somente com o motorista). Se todas as pessoas que andam sozinhas dessem (ou pegassem) carona, 25% dos carros deixariam de circular, reduzindo portanto as emissões do setor (43 milhões de toneladas de CO2 por ano) – a maior fatia das emissões do Estado. Mas, se o argumento ambiental ainda não convencer, pense no impacto que essa redução teria no trânsito. Também está nas mãos das pessoas escolher o meio de transporte que emite menos. A vantagem do carro a álcool é clara. A cada 18 mil km rodados, um carro 1.0 movido a gasolina emite 2.740 kg de CO2, contra 50 kg do carro 1.0 movido a álcool. Além disso, a cana-de-açúcar, ao crescer, absorve quase totalmente o gás carbônico emitido pela queima do combustível. O que faz com que o balanço chegue perto de zero. Tamanho, no caso das emissões, é, sim, documento. Carros maiores, com motor mais potente, ar-condicionado, emitem mais. "Todo mundo gosta de design bonito, de conforto, mas as pessoas precisam começar a pensar se de fato precisam disso. Carro é só meio de transporte", afirma Antonio Lombardi, gerente de Produtos para Sustentabilidade do Banco Real. A indústria automobilística ainda não estampa em sua propaganda que alguns carros emitem menos do que outros. Mas a eficiência do veículo já é uma boa dica. Carros que fazem mais quilômetro por litro conseqüentemente emitem menos. Outra coisa que está facilmente ao alcance é reduzir o consumo de energia. "Na época do apagão (em 2001), todo mundo se mobilizou, o País reduziu sua necessidade energética. As pessoas sabem consumir com responsabilidade. Agora é só continuar", afirma Luís Piva, coordenador da campanha de clima da organização não-governamental Greenpeace. Para quem pensa que a energia elétrica de fonte hídrica é limpa e, portanto, não há problema em usá-la, Piva lembra: "Basta olhar para o plano de desenvolvimento energético do País para 2030 para ver que há um potencial de sujar a matriz com mais termelétricas. Quanto mais consumirmos mais serão necessárias novas usinas." "Economizar energia evita que (a hidrelétrica) Belo Monte inunde (o Rio) Xingu", concorda Lombardi. "É preciso diminuir a necessidade de criar novas unidades geradoras." Entre as principais dicas estão: não deixe a luz acesa desnecessariamente, não deixe equipamentos eletrônicos em repouso (stand by), compre eletrodomésticos mais eficientes e opte pelas lâmpadas fluorescentes. Reduzir o desperdício também implica diminuir o consumo de energia – a gasta pela indústria para produzir mais. Lombardi resume a questão: "A mudança climática tem de fazer parte do dia-a-dia das pessoas. Não compre o que tem muita embalagem. Não é por que é reciclável que está sendo reciclada. Cuide melhor de suas coisas para não ter de comprar novas o tempo todo, em especial equipamentos eletrônicos. As coisas não têm de ser tão descartáveis. Para salvar o planeta, é preciso mudar o padrão mental em relação às coisas e conservar o que se tem."

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