Conservadores atacam agenda ambiental de Obama nos EUA

Vários estados estão revogando normas de proteção ambiental em ofensiva liderada pelo grupo conservador Tea Party

Com informações do The Guardian

04 de março de 2011 | 20h07

A correspondente do jornal britânico The Guardian nos EUA esmiúça, em matéria publicada nesta sexta, o lobby do partido republicano e dos conservadores do Tea Party contra a agenda ambiental de Barack Obama e os esforços da Casa Branca para  fazer frente às mudanças climáticas. 

"O que está acontecendo é quase sem precedentes na história ambiental: os anti-ambientalistas estão se movendo em tantas direções e de tantas formas para atingir os mesmos resultados que, mesmo que sejam apenas parcialmente bem sucedidos, ainda teremos que lidar com consequências sérias", afirmou o secretário da National Association of Clean Air Agencies, Bill Becker, à repórter do The Guardian. A instituição monitora a poluição do ar.

"É como se estivessem jogando o máximo de lama que pudessem contra uma parede, esperando que alguns punhados fiquem lá grudados. Quanto mais jogam, mais sentem que pode 'colar'. E estão jogando um bocado."

De acordo com a matéria, na quinta-feira, os republicanos introduziram um projeto de lei nas duas casas do Congresso para tirar da administração Obama seus poderes para agir com relação às mudanças climáticas. O projeto de lei apresentado na Câmara e no Senado impediria a Environmental Protection Agency (EPA) de usar as leis de poluição do ar existentes para reduzir o dióxido de carbono.

A EPA seria interrompida em sua atribuição de regular as emissões de carbono das usinas elétricas e fábricas. O PL não chega a derrubar o acordo firmado entre a Casa Branca e os fabricantes de automóveis para reduzir as emissões de veículos. Mas não permite novas reduções das emissões provenientes de automóveis depois do fim do acordo, em 2016.

James Inhofe, senador republicano pelo Oklahoma e uma das vozes mais veementes em negar os efeitos das mudanças climáticas, também foi ouvido pelo periódico britãnico."O ato de prevenção contra taxações energéticas impede que as regulações via sistema cap-and-trade tenham efeito, de uma vez por todas", afirmou. 

O PL deve passar facilmente pela Câmara, onde os republicanos são maioria e na qual já ganhou adepos até mesmo entre alguns democratas. Mas terá um caminho mais difícil no Senado, onde a imensa maioria é de democratas.

Mas o projeto de lei representa apenas uma linha de ataque. As soluções orçamentárias aventadas pelos republicanos, que estabeleceram U$ 61 bilhões em cortes, reservaram para a EPA o maior dos desfalques em verbas: US$ 3 bilhões, ou 30% de seu orçamento.

A ideia é privar a agência dos recursos necessários para que ela comece a regular a emissão de dióxido de carbono.

Outras propostas de mudanças nas leis ambientais também podem acabar com os fundos para a protecção do salmão na baía de São Francisco ou o tratamento do esgoto que vai para os lagos da Flórida. Os conservadores ainda querem enfraquecer as regras para a poluição por mercúrio oriunda dos fornos de cimento e permitir a caça do lobo cinzento novamente. E redirecionar os US$ 900 milhões oriundos de concessoões para exploração de petróleo, que vêm sendo tradicionalmente usados para manter parques estaduais.

Ativistas dizem que os cortes vão muito mais fundo do que qualquer um promulgado sob o gverno de George Bush, que era famoso por bloquear tentativas de contenção do aquecimento global e por sua oposição generalizada à regulamentação da indústria pelo governo.

Vários senadores democratas argumentam que, sem uma atitude forte de Barack Obama,a campanha anti-ambiental pode causar danos irreversíveis.

A matéria afirma que as medidas anti-ambientais se espalham. Na última semana, New Hampshire votou por acabar com uma iniciativa de reduçao de gases causadores do efeito estufa. "Nem os homens nem as vacas são responsáveis pelo aquecimento global", afirmou o líder republicano do Estado, Shawn Jasper.

Os governadores adeptos do movimento Tea Party no Novo México e no Maine também se mexeram para reverter leis de poluição de ar e águas, bem como esforços para promover energias alternativas. Na Pensilvânia as autoridades removeram restrições de exploração de gás natural em parques estaduais.

No Wisconsin o governador, Scott Walker, diz que está cirtando verbas de programas locais de reciclagem. Prefeitos disseram a repórteres que não poderiam mais fornecer caminhonetes para recolher jornais e vidro para reciclagem.

Já a Flórida e outros estados deram para trás na adesão ao projeto que é a "menina dos olhos" de Obama - a criação de uma rede ferroviária de alta velocidade - e encerraram projetos de construção ferroviária em suas áreas.

"O que temos visto recentemente são os envolvidos tentando usar a crise orçamentária do Estado para justificar a suspensão de políticas ambientais", afirmou o diretor de políticas de aquecimento global da National Wildlife Federation, Joe Mendelson, à correspondente Suzanne Goldberg."Eles estão usando o processo de confecção do orçamento, como sempre, para esconder o que realmente estão fazendo, que é um assalto às proteções ambientais fundamentais já estabelecidas."

Muito do sucesso deste momento anti-ambientalista foi construído a partir do êxito dos candidatos extremistas do Tea Party nas eleições de novembro.

"Tudo está sendo feito com vistas às próximas eleições", disse Doug Scott, diretor da agência de protação embiental do Illinois.

Como pano de fundo, há a imensa injeção de dinheiro dos irmãos milionários Charles e David Koch no grupo Americans for Prosperity, adepto do Tea Party. As indústrias Koch e seus empregados doaram US$ 2,2 milhões para os candidatos conservadores nas últimas eleições, mais do que corporações como a Exxon Mobil, segundo o Centre for Responsive Politics.

Seus interesses não foram vãos. O grupo Americans for Prosperity vê a minimização das regulamentações ambientais como uma área chave - especialmente aquelas relacionadas com as mudanças climáticas, que irão custar mais para a indústria do petróleo.

"A política energética é uma das nossas três maiores prioridades", disse Phil Kerpen, diretor de políticas do grupo. "Não é que sejamos totalmente contra as proteções ambientais mas na nossa hierarquia de valores elas ocupam o banco de trás."

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