Carlos Nobre/Arquivo pessoal
Carlos Nobre/Arquivo pessoal

Conheça os desafios dos países em desenvolvimento no combate ao aquecimento global

Para especialista, não há uma grande sinalização de que os países ricos estariam dispostos, de fato, a ajudar os mais pobres

Entrevista com

Carlos Nobre, climatologista do Instituto de Estudos Avançados da USP

Alex Gomes e Ocimara Balmant, especiais para o Estadão

18 de novembro de 2021 | 05h00

Da desconfiança quanto ao compromisso dos países ricos em apoiar os mais pobres até a trajetória do Brasil nas edições da Conferência do Clima, que foi do protagonismo ao retrocesso. Confira, a seguir, os principais tópicos abordados por Carlos Nobre, climatologista do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), em sua participação no evento Especial COP-26, realizado no último dia 10.

FINANCIAMENTO

“A parte do financiamento ainda é muito nebulosa. Desde a Eco-92 já se fala na importância de apoiar os países mais pobres e em desenvolvimento em uma transição para menor emissão (de gases de efeito estufa), mas os países ricos até hoje pouco colaboraram. Os valores despendidos a isso foram ínfimos. Palavras genéricas existem em todos os documentos das COPs, mas isso nunca se refletiu em ações efetivas.”

CRISE CLIMÁTICA

“Fenômenos extremos vêm acontecendo nos países desenvolvidos há anos, mas explodiram nos últimos três. Incêndios na Califórnia, furacões muito intensos nos EUA. A China e a Europa também estão sofrendo muito. O Canadá teve temperaturas de 50 graus no último verão. Mas não há uma grande sinalização de que os ricos estariam dispostos a apoiar os mais pobres (o documento final da COP-26, divulgado no dia 13/11, trouxe a recomendação de dobrar os recursos oferecidos às nações em desenvolvimento). Eles estão se preparando para tornar suas sociedades e seus sistemas econômicos muito mais resilientes, principalmente os europeus e até mesmo a China, mas pensando nas suas economias.”

COPS

“Na COP-25, em 2019, o Brasil estava numa posição muito retrógrada em relação ao que já havia desempenhado. Quando estava reduzindo bastante suas emissões, era um líder mundial nas negociações e discussões. Antes mesmo (do Acordo) de Paris, o Brasil já havia se comprometido com metas voluntárias. Em 2009, em Copenhague, apresentou metas de redução dos desmatamentos na Amazônia. Em 2010, o Congresso aprovou uma lei que determinava uma grande redução até 2020. Mas o Brasil não conseguiu. As emissões diminuíram até 2014, mas depois começaram a crescer, principalmente devido aos desmatamentos.”

COMPROMISSO

“Se comprometer a zerar as emissões advindas do desmatamento até 2030 e assinar o compromisso de reduzir as emissões de metano é um gigantesco esforço para o Brasil, até porque 70% das nossas emissões vêm da pecuária. Em 2020, o mundo reduziu 6% das emissões por conta da pandemia, enquanto o Brasil aumentou o desmatamento e as emissões da agricultura.”

CAUSA INDÍGENA

“Simbolicamente, o Brasil teve uma participação fantástica, com o discurso marcante da indígena Txai Suruí. Isso está tendo uma repercussão mundial e eleva a confiança que o povo brasileiro pode ter em agendas de sustentabilidade. Essa foi a COP com a maior participação de lideranças indígenas de todo o planeta, que colocou no documento final vários parágrafos de proteção dos povos indígenas, de valorização do conhecimento tradicional.”

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