Emilio Sant'Anna/Estadão
Emilio Sant'Anna/Estadão

Conheça o garoto colombiano de 12 anos que luta pela Amazônia na conferência do clima da ONU

Francisco Vera Manazares está na COP-26, em Glasgow, a convite do programa Euroclima+, da União Europeia

Emilio Sant'Anna, enviado especial

10 de novembro de 2021 | 05h00

GLASGOW - Um metro e trinta e cinco. Trinta e seis quilos. Óculos grossos e um moletom verde em que se lê: “Não há planeta B”. Francisco Vera Manazares, 12 anos, é daqueles que as outras crianças sempre seguiram na escola. Um dos primeiros da classe, conta sua mãe, Ana María Manazares, suas “preocupações de menino” estão longe da escola, na pequena Villeta, a 100 km de Bogotá, na Colômbia. Tão distantes que veio parar em Glasgow, a convite do programa Euroclima+, da União Europeia, para participar da COP-26, a conferência do clima da ONU.

O garoto, que divide seu tempo entre os jogos de videogame (“Call of Duty...um horror, super violento”, reclama a mãe), a bicicleta e mover o mundo a seu redor com um propósito claro: lutar pelos direitos da sua geração a um futuro ambientalmente melhor. “Por que estou aqui? Quantas crianças o senhor está vendo por aqui? Jovens há muitos, mas crianças? É por isso que estou aqui”, diz olhando fixamente para mim.

Articulado e falante, Francisco também está aqui porque foi nomeado Embaixador para a Boa Vontade, pela UE. A honraria lhe garantiu ser ouvido em encontros, reuniões, palanques improvisados em protestos e a conhecer alguns países. Antes de vir para a Escócia, estava na Espanha.

A nomeação também levou o menino a estar ao lado do timorense Nobel da Paz, José Ramos Horta, em um evento, a dividir o microfone com a ativista Greta Thunberg e, ainda tão importante quanto, ao reconhecimento dos meninos da escola. Da ambientalista ouviu que estava no caminho e fazendo o que é certo.

“Ela me disse para não parar e que continuasse e que estou indo bem”, diz tão sem modéstia e quanto sem qualquer vaidade aparente.

Greta é uma referência, claro. Mas, Francisco quer ser o próximo no lugar da sueca, badalada e ouvida por onde passa?  “Quero ser como qualquer pessoa que luta pela vida. Hoje ela é referência, mas vou ser como ela ou qualquer outro que luta pela vida”, diz.  

Para Francisco, a distância até o futuro ainda é medida pela régua de crianças. Dois anos de diferença para outros meninos e meninas parece um abismo intransponível. Uma década é tempo que não cabe na percepção de alguém de 12 anos. Mesmo assim, é para onde sua cabeça viaja.  “Os cientistas e os experts do mundo todo já provaram o que o vai acontecer com o planeta se ele continuar esquentando, ninguém mais pode dizer que não sabe. Então a obrigação dos dirigentes (chefes de Estado) aqui na COP é garantir que os meninos e meninas da minha idade possam ter um futuro”, afirma.

A certeza de que esse era o caminho, veio quando assistiu na TV a florestas no Brasil sendo queimadas. Ali, aos 9 anos, resolveu que deveria fazer alguma coisa. Foi para as redes sociais, criou um grupo, que se transformou em uma ONG, e hoje tem mais de 400 crianças, a maioria na Colômbia e no México. “O que acontece no país do senhor é muito triste. A Floresta Amazônica queimando e sendo derrubada. Foi isso que me levou a criar a ONG”, diz. “Mas na Colômbia também temos muitíssimos problemas, também com o desmatamento.”

“Desde pequeno ele é assim. Sempre foi muito falante e chamava atenção das pessoas”, diz Ana Maria. A dedução do menino, afirma, é a expressão de uma paixão dele pelo assunto e pela atenção que ele dá às pessoas. A vocação, no entanto, não vem sozinha. Com a exposição surgem os haters nas redes sociais, administradas pelos pais do menino. “Claro que existem, não são poucos. Francisco sabe disso, mas não se abala”, diz.

Para a mãe, mais importante do que Francisco ser um ativista , embaixador da boa vontade ou reconhecido nas redes sociais, é o menino realizar o que ele mesmo se propôs a fazer.

Ela diz que mesmo com as viagens e as atividades da ONG, seu rendimento na escola não foi afetado. Francisco está lendo agora Os Três Mosqueteiros, “um clássico. O senhor já deve ter lido”, diz.

Os clássicos são um dos interesses do menino. Aprender línguas latinas é outro. Francês e português ele já arrisca. “Mas o Inglês eu realmente não domino”, afirma, emendando que ainda terá tempo para aprender.

Por enquanto suas preocupações andam longe dos bancos da escola: ainda há uma série de adultos para convencer que ele e os meninos de sua geração merecem uma chance.

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