Leo Souza/Estadão
Leo Souza/Estadão

União de catadoras gera renda e ajuda o meio ambiente

Cooperativa Filadelphia saiu de barracão para local com refeitório e sala de reunião; grupo recicla até 40 toneladas por mês

Iolanda Paz, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2022 | 05h00

A trajetória das catadoras da Cooperativa Filadelphia nunca foi fácil. De um barracão de madeira precário a um novo espaço alugado, muita coisa aconteceu em seus 11 anos de história – incluindo uma pandemia. Mesmo com todas as dificuldades, a persistência para seguir com o trabalho sempre foi mais forte. Para as mulheres da Filadelphia, a cooperativa não é sinônimo “apenas” de cuidado com o meio ambiente (o que já seria bastante), mas também de empoderamento feminino

Na zona leste da capital, mais precisamente no Jardim Cinco de Julho, as cooperadas fazem a triagem dos materiais recicláveis, prensam tudo isso de acordo com o tipo e vendem os fardos resultantes. É daí que essas mulheres tiram o sustento para suas famílias e, além disso, contribuem para parte da reciclagem do município de São Paulo. Por mês, a Cooperativa Filadelphia recicla entre 30 e 40 toneladas. 

A Filadelphia é formada exclusivamente por mulheres que, juntas, aprenderam a fazer todo o trabalho relacionado à cooperativa. “Não dependemos de homem”, diz a presidente Vanessa de Souza. “A mulher não tem nada de frágil”, completa Miriam Alves. As cooperadas se ajudam tanto nas tarefas laborais quanto nas questões da vida pessoal. “A Filadelphia se tornou uma família para mim”, resume ela.

Segundo Vanessa, a cooperativa serviu como ferramenta para fortalecer muitas mulheres da comunidade onde estava localizada. Além da autonomia financeira proporcionada pela fonte de renda própria, foi um espaço em que viram que tinham direito a se posicionar – como cooperadas e também como mulheres. “Entender que podemos dizer e fazer o que queremos, independentemente de marido ou namorado”, explica Vanessa. “Comprar as coisas e poder dizer que é dinheiro do nosso trabalho.” 

Origem

A Filadelphia surgiu em 2010, em um barracão de madeira no Jardim Eliane, na zona leste da capital paulista. Com condições precárias e sem documentação, a cooperativa não conseguiu se conveniar ao Programa Socioambiental de Coleta Seletiva da cidade. Mesmo assim, a Filadelphia tinha uma parceria com a Prefeitura, que entregava materiais recicláveis no local. 

Nessa época, eram cerca de 35 mulheres cooperadas. Após a parceria ser interrompida em abril de 2019, esse número foi progressivamente diminuindo. “Fomos nos virando como podíamos. Não queríamos acabar com os trabalhos da cooperativa, porque tínhamos dado oportunidades para muitas mulheres”, lembra Vanessa.

Sem a entrega de material da Prefeitura, as cooperadas começaram a fazer coletas com um pequeno caminhão, mas a quantidade não era suficiente para trazer renda a todas elas. Permaneceram somente nove mulheres que, juntas, decidiram continuar e apostar em um novo espaço para a Filadelphia.

Com recursos de duas premiações que haviam recebido da Associação Nacional de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis, as cooperadas conseguiram alugar um galpão por um ano. Fizeram a mudança em fevereiro de 2020, mas logo em seguida veio a pandemia do novo coronavírus e os trabalhos tiveram de parar por cerca de 10 meses. Só retornaram em novembro daquele ano. “Precisávamos voltar a trabalhar para continuar pagando o aluguel”, conta Vanessa. 

Hoje, a Filadelphia tem uma parceria com a empresa Trashin e recebe material da coleta seletiva do Parque Ibirapuera, na zona sul, e de alguns condomínios. “Nosso trabalho é separar tudo que chega. Depois, mandamos para a prensa, pesamos e vendemos”, afirma Vanessa.

Em comparação ao espaço onde a cooperativa surgiu, o galpão alugado trouxe condições mais dignas. Antes, elas faziam a separação dos materiais sob sol e chuva, sem um local fechado para armazená-los adequadamente. A infraestrutura do novo espaço conta com refeitório, sala de reunião e escritório. 

Por mais que as cooperadas persistam, as contas da Filadelphia ainda não fecham completamente. Além dos gastos de 2020 – de quando os trabalhos pararam por causa da crise sanitária –, há principalmente dívidas de 2019, do período posterior ao fim da parceria com o Município. Para gerir a cooperativa, Vanessa conta que prioriza o aluguel, as contas fixas e a retirada das cooperadas. “Vamos nos virando do jeito que dá: um mês paga duas, outro mês paga mais uma… mas não podemos parar”, relata. 

Para melhorar o cenário, agora a Filadelphia já conseguiu tirar quase toda documentação exigida pela Autoridade Municipal de Limpeza Urbana (Amlurb). No próximo edital, o grupo pretende fazer parte das cooperativas conveniadas ao Programa Socioambiental de Coleta Seletiva da cidade de São Paulo. 

O objetivo é aumentar a quantidade de material recebido e, consequentemente, a renda das cooperadas. “Enquanto eu estiver aqui, quero encher esse espaço de mulher trabalhando e fazendo dinheiro”, afirma Vanessa. 



 

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