STR / AFP
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Conferência da biodiversidade: por que reunião global que ocorreu esta semana é tão importante

15ª Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade foi realizada na China e também teve debates online

Catrin Einhorn, The New York Times

15 de outubro de 2021 | 15h00

Enquanto 20 mil governantes, jornalistas, ativistas e celebridades de todo o mundo se preparam para desembarcar em Glasgow para uma crucial cúpula do clima que começa no fim deste mês, outra reunião ambiental internacional de alto escalão foi realizada esta semana. O problema que tenta resolver: o rápido colapso das espécies e sistemas que sustentam coletivamente a vida na Terra.

As apostas das duas reuniões são igualmente altas, dizem muitos cientistas importantes, mas a crise da biodiversidade tem recebido muito menos atenção. "Se a comunidade global continuar a vê-la como um evento paralelo e continuar pensando que as mudanças climáticas agora são a coisa mais importante a se ouvir, quando acordarem para a biodiversidade, vai ser tarde demais", disse Francis Ogwal, um dos líderes do grupo de trabalho encarregado de formular um acordo entre as nações.

Como as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade estão interligadas, com potencial para soluções ganha-ganha e também para ciclos viciosos de destruição, elas devem ser abordadas em conjunto, dizem os cientistas. Mas suas cúpulas globais são separadas e uma ofusca a outra.

"A conscientização ainda não chegou ao ponto onde deveria estar", disse Hans-Otto Pörtner, biólogo e pesquisador do clima que ajudou a liderar pesquisas internacionais sobre as duas questões. Ele as chama de "as duas crises de sobrevivência que a humanidade provocou no planeta".

Além das razões morais para os humanos se preocuparem com as outras espécies na Terra, existem motivos práticos. No nível mais básico, a sobrevivência das pessoas depende da natureza. "Na verdade, é a diversidade de todas as plantas e todos os animais que faz o planeta funcionar", disse Anne Larigauderie, ecologista que dirige um importante painel intergovernamental sobre biodiversidade. "São as plantas e animais que garantem que tenhamos oxigênio no ar, que tenhamos solos férteis."

Se perdermos muitos desses agentes naturais, o ecossistema vai parar de funcionar. A abundância média de espécies nativas na maioria dos principais biomas terrestres caiu pelo menos 20%, sobretudo desde 1900, de acordo com um importante relatório sobre o estado da biodiversidade mundial publicado pelo painel de Larigauderie, a Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Ecossistemas. Estima-se que 1 milhão de espécies estejam ameaçadas de extinção.

As mudanças climáticas são apenas um fator de perda de biodiversidade. Por enquanto, o maior culpado, em terra, são os humanos, que destroem o hábitat por meio de atividades como agricultura, mineração e extração de madeira. No mar, é pesca excessiva. Outras causas incluem poluição e espécies introduzidas que expulsam as nativas.

"Quando você tem duas crises simultâneas, não pode escolher apenas uma – você precisa lidar com ambas, não importa o quão desafiador seja", disse Brian O’Donnell, diretor do Campaign for Nature, um grupo de defesa da causa. "É como ter, ao mesmo tempo, um pneu furado e uma bateria descarregada no carro. Se consertar só um, você vai continuar parado."

Como a cúpula funciona

Esta semana, autoridades do meio ambiente, diplomatas e outros observadores de todo o mundo se reuniram online, e um pequeno grupo se reuniu presencialmente em Kunming, China, para o encontro, a 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade. Os Estados Unidos são o único país do mundo, além do Vaticano, que não faz parte do tratado subjacente, a Convenção sobre Diversidade Biológica, situação em grande parte atribuída à oposição republicana. Representantes americanos participam paralelamente das negociações, assim como cientistas e defensores do meio ambiente.

Por causa da pandemia, a conferência foi dividida em duas partes. Embora o objetivo dessa parte virtual seja basicamente angariar vontade política, as nações se reunirão novamente na China para ratificar uma série de metas destinadas a combater a perda de biodiversidade. O objetivo será adotar um pacto pela natureza semelhante ao Acordo de Paris sobre mudanças climáticas, disse Elizabeth Maruma Mrema, secretária executiva da convenção.

No ano passado, as autoridades relataram que as nações não conseguiram atingir as metas do acordo global sobre biodiversidade anterior, assinado em 2010. Se os novos compromissos não se traduzirem em “políticas eficazes e ações concretas”, disse Mrema na reunião desta semana, “corremos o risco de repetir os fracassos da última década”.

Quais são os próximos passos

A minuta de trabalho inclui 21 metas que funcionam como um modelo para reduzir a perda de biodiversidade. Muitas são concretas e mensuráveis, outras são mais abstratas. Nenhuma é fácil. Elas estipulam, em resumo:

  • Elaborar um plano, abrangendo todas as terras e águas de cada país, para tomar as melhores decisões sobre onde realizar atividades como agricultura e mineração, mantendo também as áreas intactas.
  • Garantir que as espécies selvagens sejam caçadas e pescadas de forma sustentável e segura.
  • Reduzir o escoamento agrícola, os pesticidas e a poluição do plástico.
  • Usar ecossistemas para limitar as mudanças climáticas, armazenando na natureza o carbono que aquece o planeta.
  • Reduzir subsídios e outros programas financeiros que prejudicam a biodiversidade em pelo menos US$ 500 bilhões por ano, a quantia estimada que os governos gastam apoiando combustíveis fósseis e práticas agrícolas potencialmente prejudiciais.
  • Proteger pelo menos 30% das terras e oceanos do planeta até 2030.

Na preparação para a conferência, esta última medida, impulsionada por ambientalistas e um número crescente de nações, recebeu a maior parte das atenções e dos recursos. No mês passado, nove grupos filantrópicos doaram US$ 5 bilhões para o esforço, conhecido como 30x30.

"É um nome que pega", disse E.O. Wilson, biólogo influente e professor emérito da Universidade de Harvard. Ele disse que espera que a iniciativa 30x30 seja um passo no caminho para um dia conservar metade do planeta para a natureza.

Grupos indígenas vêm observando com esperança e preocupação. Alguns acolhem com agrado a expansão, preconizando um número superior a 30%, enquanto outros temem perder o uso de suas terras, como tem acontecido historicamente em muitas áreas destinadas à conservação.

O debate ressalta uma tensão central que permeia as negociações sobre biodiversidade. "Se virar simplesmente um plano de conservação para a natureza, não vai dar certo", disse Basile van Havre, líder de um dos grupos de trabalho da convenção. "O que precisamos é de um plano para a natureza e as pessoas."

Com a população humana global ainda aumentando, os cientistas dizem que é necessária uma mudança transformacional para que o planeta seja capaz de nos sustentar.

"Na verdade, precisamos ver todos os empreendimentos humanos através das lentes da biodiversidade e da natureza", disse Larigauderie. Como todos dependem da natureza, ela observou, "todos precisam fazer parte da solução". / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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