Concentração de gases-estufa é a maior já registrada, diz ONU

Em menos de 300 anos, concentração de CO2 na atmosfera aumentou quase 40% e causou danos irreversíveis

Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo,

23 Novembro 2009 | 16h29

Apesar de todos os esforços mundiais e discursos inflamados de líderes, nunca a concentração de gases de efeito estufa foi tão alta como agora. Dados divulgados nesta segunda-feira, 23, pela Organização Mundial de Meteorologia (OMM), entidade climática da ONU, indicam que a concentração já é a maior desde a era pré-industrial, iniciada em 1750, e continua a aumentar em um ritmo ainda mais acelerado. A entidade, que estrategicamente divulgou sua avaliação praticamente às vésperas da cúpula mundial que ocorre em Copenhague para lidar com mudanças climáticas, apela para que haja um acordo ambicioso até o final do ano sobre emissões de CO2.

 

Em menos de 300 anos, a concentração de CO2 na atmosfera - que gera a elevação da temperatura média - aumentou em 38%. O dano é considerado como tão profundo que, mesmo que o mundo interrompesse todas as emissões de CO2 neste momento, em cem anos haveria ainda uma concentração de gases de efeito estufa 30% superior ao do ano 1750.

 

Entre 2007 e 2008, os níveis de concentração de todos gases de efeito estufa (metano, CO2 e N20) aumentaram. Entre 1990 e 2008, o aumento da radiação gerado pelos gases foi de 26,2%. Entre 2007 e 2008, a taxa chegou a 1,3% de alta.

 

"O aumento é exponencial", afirmou Michel Jarraud, secretário-geral da OMM. Segundo ele, 2008 terminou com 385,2 ppm (número de moléculas de gás por cada molécula de ar seco) de CO2. O volume foi 2 ppm a mais que em 2007, 0,5% de expansão. O CO2 de fato foi o gás que mais contribuiu para o aumento de concentração. Entre 1979 e 1984, o CO2 respondia por 56% do aumento da radiação. Entre 2003 e 2008, o CO2 foi responsável por 86%.

 

A concentração de metano chegou a 1797 ppb, 7 ppb a mais que em 2007. Entre 1999 e 2006, os níveis de metano estavam estáveis. Mas uma alta foi registrada desde 2007. Em comparação ao ano de 1750, a expansão do metano é de 157%.

 

A OMM também conclui que a concentração de CFCs, que gera a deterioração na camada de ozônio, sofreu uma redução drástica em uma década. Mas os gases que substituíram o CFCs nos equipamentos que usavam o material se transformaram nas novas preocupações dos cientistas. Isso porque os novos gases podem não gerar a deterioração da camada de ozônio, mas contribuem de forma ainda mais importante no aquecimento do planeta. Atualmente, esses gases já representam 9% dos gases de efeito estufa.

 

Os maiores responsáveis pelas emissões são as atividades humanas, como nos setores fósseis e agricultura. Jarraud insiste, em declarações ao Estado, que a preservação de floresta como a Amazônica será também fundamental e que o desmatamento na última década colaborou para o aumento da concentração de CO2.

 

"Se queremos controlar a concentração de CO2, a floresta tropical será fundamental. Primeiro, porque o desmatamento gera emissões. Depois porque, preservada, a floresta consome o CO2 que estaria na atmosfera, atuando como uma esponja", disse.

 

Pessimismo

 

Jarraud indicou que os dados demonstram que o mundo caminha para os cenários mais pessimistas elaborados pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). "Se olharmos os relatórios do IPCC, estamos já nos cenários mais pessimistas elaborados pelos cientistas. Se continuarmos nesse padrão mais alto de emissões e concentração de gases, isso também significará que a temperatura vai aumentar acima do que todos queremos", afirmou.

 

"Precisamos reverter essa tendência o mais rápido possível. Quanto mais adiarmos um acordo de redução, maior será o impacto e maior será o custo, principalmente para os países em desenvolvimento", disse Jarraud, defendendo um acordo ambicioso em Copenhague, durante a Cúpula do Meio Ambiente.

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