Italo Guedes
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Conceito de agricultura sustentável permite produção de hortaliças em centros urbanos

Parceria entre Embrapa Hortaliças e empresa 100% Livre estima ter primeira unidade produtiva em ambiente controlado funcionando em novembro deste ano no centro da capital paulista

Renata Okumura, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2020 | 05h00

SÃO PAULO - A agricultura indoor permite que centros urbanos se tornem mais resilientes e sustentáveis. Diante da distância entre polos de produção e locais de consumo, surge como uma das alternativas para se cultivar hortaliças em ambiente totalmente controlado e fechado. A iniciativa que se soma a outras formas de agricultura - como a tradicional e a orgânica - já está presente em muitos países e também começou a ganhar força nos últimos anos no Brasil.

Desde abril deste ano, pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Hortaliças em parceria com a empresa 100% Livre, do ramo de comércio varejista de hortifrútis, se dedicam para a criação de sistemas que permitem a reprodução das condições climáticas ideais para o cultivo de cada uma das espécies plantadas. A previsão é que a primeira unidade produtiva esteja funcionando em novembro deste ano no centro da capital paulista.

Por enquanto, os experimentos estão sendo realizados em uma estrutura de 90 metros quadrados do Laboratório de Agricultura em Ambiente Controlado da Embrapa Hortaliças, com uso de dois containers acoplados e modificados, com paredes feitas com placas que mantêm o isolamento térmico e totalmente equipada com sensores para monitoramento das condições ambientais, com financiamento da empresa parceira.

Além da produtividade do cultivo em andares, conhecido como fazenda vertical urbana, formato indicado para folhosas e condimentares, a pesquisa também vai considerar a produtividade em um único nível ou camada, no que se entende como plant factory (fábrica de plantas), modelo mais adequado para cultivo de hortaliças de fruto.

Conhecido mundialmente, o modelo de agricultura indoor envolve o plantio de espécies vegetais em um local fechado com cultivos sem solo ou substratos, iluminação artificial com painéis de LED e controle de diversas variáveis. "Estamos avaliando os aspectos no interior da estrutura que podem influenciar no crescimento e na produção dos vegetais. Avaliando a parte de iluminação, tanto tipos de lâmpadas, quanto diferentes cores, se azul ou vermelho, temperatura do ambiente mais adequada e composição de soluções nutritivas", disse o coordenador do projeto Ítalo Guedes, pesquisador da área de nutrição de plantas e cultivo protegido e sem solo da Embrapa.

Segundo ele, os estudos são necessários para analisar as diferentes espécies de hortaliças e verificar quais respondem melhor ao tipo de ambiente. "Todo o cultivo é feito com solução nutritiva completa. Está em teste um grande número de hortaliças folhosas como alface, agrião e rúcula; de hortaliças condimentares como manjericão e coentro; e de hortaliças de frutos como tomates e morangos", exemplificou Guedes, ao dizer que, em países desenvolvidos, a agricultura urbana responde por quase um quarto da produção de hortaliças e frutas.

Técnicas de cultivar plantas sem solo

Prática já conhecida pela economia de água e nutrientes em relação ao cultivo em campo aberto, a hidroponia pode reduzir em até 90% o uso de água e até 70% o de adubos. A planta recebe água pura, onde são dissolvidos nutrientes necessários para o crescimento adequado. Já na aeroponia, outro manejo da nutrição e da irrigação das hortaliças, a solução nutritiva é injetada sob pressão com equipamentos tipo nebulizador que jogam a névoa da solução diretamente nas raízes das plantas. Neste caso, a economia de água e nutrientes pode alcançar até 30%, dependendo do cultivo. "Além disso, nós estamos fazendo a coleta da evapotranspiração dentro do ambiente, utilizando desumidificadores e, assim, conseguimos um reúso de quase 100% da água aplicada no sistema de produção", esclareceu.

Além da economia de água e nutrientes, os experimentos mostram que é possível tornar a produção mais precoce. "Colher com antecedência, dependendo da variedade, de 5 a 10 dias do que colheria em campo aberto. O ambiente de alta eficiência também consegue manter a qualidade nutricional, de sabor, firmeza e textura das hortaliças. A única desvantagem ainda é a energia elétrica, principalmente por causa da luz, no entanto, tentamos compensá-la com o aumento de produtividade", explicou o pesquisador.

Desta forma, o monitoramento constante também é feito periodicamente para acompanhar o desenvolvimento das espécies cultivadas, podendo assim ajustar a oferta de nutrientes necessários para as plantas, podendo expandir com segurança o cultivo. A produção obedece ainda aspectos de higiene e de manipulação para garantir a oferta de hortaliças limpas, livres de agrotóxicos e sem contaminação biológica. Na estrutura, uma antecâmara é usada para a descontaminação de funcionários e evitar o ingresso de insetos ao contêiner.

Parceria

A parceria público-privada (PPP) entre a Embrapa Hortaliças e empresa 100% Livre viabilizou a pesquisa com a produção de hortaliças em ambiente controlado.

"Além de ser 100% livre de agrotóxico, a hortaliça estará pronta para consumo do cliente final, sem a necessidade de lavagem. Além disso, por  ter cultivo sem uso de solo, a vida útil da vegetação também é maior", disse Diego Gomes, sócio-fundador da 100% Livre.

A fazenda vertical não se limita por clima, temperatura ou sazonalidade. "Com isso, acabará a época de determinadas frutas e folhas, sempre conseguiremos entregar semanalmente, o mesmo alimento, sem a variação de preços provocada pela sazonalidade", disse Gomes.

Além de São Paulo, onde irá funcionar a primeira unidade, o empresário espera expandir o conceito de agricultura sustentável para outras cidades das regiões Sudeste, Sul e Nordeste. "O objetivo a longo prazo é ter um volume de produção maior. Ampliar iniciativa para outras capitais e também outros países. Com resultados positivos do cultivo de hortaliças, esperamos ainda ampliar a iniciativa para outras frentes como cultivo de espécies medicinais", ressaltou ele.

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