Ulet Ifansasti NYT
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Como o Tofu é fabricado: incinerando plástico enviado pelos Estados Unidos

As cozinhas de fundo de quintal produzem a maior parte do tofu encontrado na área, um alimento barato e rico em proteínas à base de soja que é parte importante da dieta local. Mas a fumaça e a cinza resultantes da queima do plástico têm consequências tóxicas muito mais amplas

Richard C. Paddock, The New York Times

19 de novembro de 2019 | 14h00

TROPODO, Indonésia - Nuvens de fumaça negra emanam das altas chaminés que se sobressaem na cidade. E o cheiro de plástico queimado toma conta do ar. Uma cinza preta cobre o chão. É mais um dia de fabricação do tofu.

Mais de 30 cozinhas comerciais em Tropodo, cidadezinha a leste da ilha principal da Indonésia, Java, produzem o tofu queimando uma mistura de papel e resíduo plástico, uma parte vinda dos Estados Unidos depois de os americanos descartarem suas embalagens nos recipientes de reciclagem.

As cozinhas de fundo de quintal produzem a maior parte do tofu encontrado na área, um alimento barato e rico em proteínas à base de soja que é parte importante da dieta local. Mas a fumaça e a cinza resultantes da queima do plástico têm consequências tóxicas muito mais amplas.

Segundo testes feitos, os ovos das galinhas de Tropodo, que tem cinco mil habitantes, contêm altos níveis de vários produtos químicos perigosos, incluindo a dioxina - um poluente que causa câncer, anomalias congênitas e doença de Parkinson - de acordo com relatório divulgado esta semana por uma aliança de grupos ambientais indonésios e internacionais.

“Eles começam a queima de manhã e vão até a noite”, disse Karnawi, 84 anos, que vive próximo de quase sete dessas cozinhas. “Isto ocorre diariamente e a fumaça está sempre no ar. Para mim é difícil respirar”.

Um ovo posto por uma das galinhas de Karnawi tinha um dos mais altos níveis de dioxina já registrados na Ásia, de acordo com o estudo.

Os níveis de dioxina encontrados no ovo só perderam para os de Bien Hoa, no Vietnã, antiga base aérea americana durante a guerra do Vietnã, uma área que concentrava o esfolhante chamado agente laranja, que contém dioxina. Os Estados Unidos começaram recentemente uma limpeza do local que continua fortemente contaminado cinco décadas após o fim da guerra. A limpeza deve durar 10 anos com o custo de US$ 390 milhões.

A ingestão de um único ovo como o da granja de Karnawi excede o limite de segurança diário estabelecido nos Estados Unidos em quase 25 vezes e no caso dos critérios adotados pela European Food Safety  Authority 70 vezes.

Os ovos são comumente usados para testar a contaminação porque as galinhas ciscam a terra quando buscam alimento e as toxinas ficam armazenadas nos seus ovos.

“Essas conclusões ilustram o perigo dos plásticos para a saúde humana e deveriam levar os legisladores a proibirem a combustão de resíduo plástico, acabar com a contaminação ambiental e controlar rigorosamente as importações”, afirmou Lee Bell, assessor da International Pollutantes Elimination Network e um dos autores do relatório.

O estudo foi realizado por quatro grupos ambientalistas: Ecoton e a Nexus3 Foundation, com sede na Indonésia. A Arnika, sediada em Praga, e a International Pollutantes Elimination Network (IPEN), uma rede global dedicada à eliminação de poluentes tóxicos.

As toxinas encontradas no solo de Tropodo começaram com os ocidentais acreditando estar praticando uma boa ação para o meio ambiente - ao separarem seu lixo para reciclagem. Grande parte desse lixo é enviado para o exterior, incluindo a Indonésia, onde é combinado com o lixo local para ser processado.

Mas em vez de se transformar em novos bens de consumo, como jaquetas de lã sintética e tênis, esse lixo não é reciclado, mas lançado nas fornalhas que aquecem as caldeiras de produção de tofu em Tropodo.

“Trata-se de plástico jogado fora pelos consumidores nos Estados Unidos e em outros países e queimado para a produção de tofu na Indonésia, disse Yuyun Ismawati, cofundador da Nexus2 Foundation.

O volume de resíduo plástico vindo do exterior aumentou há dois anos depois que a China suspendeu as importações de lixo.

Depois de remover os melhores materiais para reciclagem, muitas companhias enviam a carga remanescente para Bangun, vilarejo conhecido pelos seus catadores de lixo que buscam artigos de valor e material que possa ser reciclado.

Em Bangun pilhas de lixo, algumas com mais de quatro metros e meio de altura, ocupam todo pedaço vazio de terra. No vilarejo vivem 2.400 pessoas e praticamente todas as famílias são de catadores de lixo. Que afirmam que parte dos carregamentos vêm dos Estados Unidos porque os itens que separam estão escritos em inglês. E dizem que às vezes encontram por acaso dólares americanos e garrafas de bebidas quebradas com rótulos americanos, como por exemplo Jack Daniels.

O ponto final desse lixo é Tropodo e os fabricantes de tofu.

Diariamente, caminhões carregando sobras de papel e plástico percorrem os 30 quilômetros de Bangun a Tropodo e descarregam sua carga na frente das cozinhas de tofu.

Ativistas ambientais afirmam que o presidente da Indonésia, Joko Widodo, ignora os cuidados com a saúde em busca do desenvolvimento econômico e eles o têm pressionado para dar uma solução para essa contaminação tóxica, incluindo a poluição do ar e a contaminação por mercúrio.

Em julho a diretora geral do ministério do Meio Ambiente encarregada da administração do lixo, Rosa Ivien Ratnawati, visitou Tripodo e admitiu que a queima de plástico é perigosa, mas não tomou nenhuma providência.

Ela disse a jornalistas que iria investigar como a fumaça tóxica poderia ser controlada. “Se o plástico é usado como combustível não é problema, mas a poluição deve ser controlada.

Mas desde então, nenhuma medida foi tomada.

Contatada na semana passada pelo The New York Times, ela recusou-se a falar sobre o assunto e transferiu as perguntas para o diretor geral encarregado da poluição ambiental, que também não respondeu às indagações feitas pelo Times.

Os moradores de Tropodo dizem que detestam a queima de plástico, mas não têm força para impedi-lo. Os fabricantes de tofu - um importante empregador no vilarejo - abandonaram a madeira e passaram a queimar plástico há muitos anos.

As cozinhas operam diariamente e quando há pouco vento a fumaça corrosiva paira sobre o local como uma névoa venenosa.

Nanang Zainuddin, 37 anos, dirige uma pequena cozinha perto da granja de Karanawi. Ele disse que queima plástico porque é mais barato, custando às vezes um décimo do custo da madeira. Ele acrescentou que se desfaz da cinza produzida pelo plástico enterrando uma parte e espalhando pelo solo para criar uma superfície plana. E dá uma parte para os vizinhos para também usarem no chão em volta das suas casas.

“A dioxina vem de todos os lugares, mas se o governo quisesse resolver o problema, seria bem-vindo”.

O ex-prefeito de Tropodo, Ismail, ele próprio produtor de tofu, proibiu o uso de plásticos para servir de combustível em 2014. Mas a proibição durou apenas alguns meses e a queima de plástico foi retomada. Seu decreto foi ignorado.

“Há muitos produtores de tofu aqui e a maioria não se incomoda”, disse Ismail, que queima madeira e algum plástico para servirem de combustível. “Os produtores de tofu só pensam no lucro. Não levam em conta as desvantagens criadas por este negócio”, disse ele. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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