Adriano Machado/Reuters - 28/09/21
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Como o fogo na Amazônia ameaça a biodiversidade

Algumas pessoas argumentam que as áreas queimadas são pequenas em relação à Amazônia e, portanto, dificilmente afetariam a sua biodiversidade; mas agora a ciência deu um grande passo e quantificou a fração das espécies que podem ser extintas

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2021 | 05h00

Que o fogo mata muitos animais e vegetais ninguém duvida. Basta ver as fotos das áreas queimadas com macacos, répteis e árvores carbonizadas. A questão é saber se a extensão das áreas queimadas na Amazônia é suficiente para colocar em risco a existência de muitas espécies, levar à extinção espécies ameaçadas e provocar o colapso do ecossistema.

Algumas pessoas argumentam que as áreas queimadas são pequenas em relação à Amazônia e, portanto, dificilmente afetariam a sua biodiversidade. Outros discordam.

Como medir diretamente a influência do fogo e do desmatamento é muito difícil, ambos os lados da discussão baseavam seus argumentos em levantamentos parciais ou exemplos de espécies extintas. Mas agora a ciência deu um grande passo e quantificou a fração das espécies que podem ser extintas com as queimadas que já ocorreram na Amazônia.

A sobrevivência de uma espécie depende principalmente da preservação dos ambientes em que ela vive. Caso a área que ela ocupa seja muito extensa (como os pernilongos, que ocupam quase todo o continente) a sobrevivência da espécie vai ser pouco afetada se dedetizarmos nossas casas ou se uma grande área de floresta for destruída.

Agora, se uma espécie existir em uma área pequena (como o mico-leão), um pequeno incêndio pode, sim, levá-la à extinção. Assim, para saber qual o risco de queimadas ou desmatamentos provocarem a extinção de seres vivos é necessário saber a distribuição geográfica das espécies (a extensão e a localização da área em que ela vive) e como os incêndios ou desmatamentos afetam essa área.

A novidade é que os cientistas conseguiram medir esses dois parâmetros. Uma colaboração entre centenas de cientistas conseguiu determinar a distribuição geográfica de 11.514 espécies de plantas e 3.079 espécies de animais em todo o bioma Amazônia (incluindo os países vizinhos ao Brasil). Além disso, usando fotos tiradas pelos satélites do sistema Modis durante quase 20 anos de toda a Região Amazônica (entre 2001 e 2019), os cientistas puderam estimar toda a área já queimada na região.

Essas imagens subestimam a área queimada pois a resolução desses satélites é de aproximadamente 400 metros, ou seja, só detectam focos que queimam aproximadamente quatro quarteirões. Quando a área queimada em toda a bacia amazônica foi plotada em um mesmo gráfico com a distribuição geográfica dessas 41 mil espécies foi possível medir a fração de área ocupada por cada espécie que foi destruída durante esse período.

A área queimada na bacia amazônica é de aproximadamente 150 mil quilômetros quadrados – que, somados aos desmatamentos por corte, atingem aproximadamente 20% do bioma. O interessante é que a área destruída atinge a distribuição geográfica de 64% das espécies estudadas, ou seja, quase dois terços das espécies tiveram sua distribuição geográfica reduzida, o que facilita sua extinção.

Mas o mais importante é que essa destruição afeta diretamente a área em que vivem 85% de todas as espécies listadas como ameaçadas de extinção.

Além disso, esse estudo mostrou como esse impacto vinha diminuindo até 2019 e agora voltou a subir com as mudanças de política ambiental implementadas pelo governo Bolsonaro.

Esses dados são muito importantes pois demonstram de uma vez por todas que, de fato, a quantidade de queimadas que vêm ocorrendo na bacia amazônica diminui as chances de sobrevivência de 64% das espécies estudadas e de 85% das espécies ameaçadas de extinção.

Portanto, a destruição de uma pequena fração da Floresta Amazônica pode ter um efeito amplificado na redução da biodiversidade da Amazônia. E esse efeito pode levar ao colapso da biodiversidade muito antes que 40% do bioma seja destruído. É um resultado assustador que vai servir como base científica para justificar políticas mais agressivas de proteção desse bioma.

MAIS INFORMAÇÕES EM: HOW DEREGULATION, DROUGHT AND INCREASING FIRE IMPACT AMAZONIAN BIODIVERSITY (2021)

*É BIÓLOGO, PHD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL; FOLHA DE LÓTUS, ESCORREGADOR DE MOSQUITO; E A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS

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