Christopher Smith/The New York Times
Christopher Smith/The New York Times

Como discutir as mudanças climáticas sem falar sobre o assunto

Nos Estados Unidos, agricultores sentem na pela que o planeta está mudando ao verem os impactos em suas terras e adotam um postura pragmática para fugir do debate político que voltou à tona com o negacionismo do presidente Trump

Hiroko Tabuchi, The New York Times

07 Fevereiro 2017 | 16h41

Glen Elder, Kansas – O agricultor Doug Palen vem tentando entender o clima. Desde 2012, ele sofre com a seca mais dura que atingiu as Grandes Planícies em um século, pontuada por tempestades de neve estranhas e sufocantes rajadas de poeira. Agora, a temporada de plantio começa mais cedo na primavera e vai até mais tarde no inverno.

Para se adaptar, adotou uma maneira ambientalmente consciente de cultivo que protege o solo contra a erosão e conserva a preciosa água. Ele pode falar por horas sobre o sequestro de carbono – a captura de gases do efeito estufa em plantas e no solo – ou sobre a ciência dos micróbios benéficos que enriquecem sua terra.

Em resumo, ele é um realista das mudanças climáticas. Só não espere que use as palavras “mudanças climáticas”.

“Se os políticos querem se matar debatendo o clima, é escolha deles. Eu tenho uma fazenda para cuidar”, avisa Palen.

Na região centro-norte do Kansas, as realidades da agricultura transformaram as mudanças climáticas em uma questão importante para os negócios. Ao mesmo tempo, os políticos e a pressão social fizeram a discussão franca virar algo complicado. Este é o país do trigo e de Donald Trump e, apesar do clima estar mudando, a ortodoxia conservadora afirma que a ciência ainda não é algo estabelecido.

Por isso, apesar de as mudanças climáticas fazerem parte das conversas diárias, estão sempre disfarçadas de outra coisa.

“As pessoas estão discutindo isso sem falar sobre isso. Tornou-se um assunto tão carregado que elas falam de uma maneira pré-estabelecida”, conta Miriam Horn, autora de um livro recente sobre americanos conservadores e o meio-ambiente, “Rancher, Farmer, Fisherman”.

Palen, seus colegas de Glen Elder e do resto do estado demonstram como funciona essa dança delicada, focando em questões práticas como erosão ou a diminuição dos aquíferos. “Quando as chuvas não vêm, os tempos são duros”, diz ele.

Políticos regionais e líderes empresariais discursam sobre buscar os empregos que as fontes de energia limpa podem gerar, em vez de falar sobre a necessidade premente de controlar as emissões de carbono. Um professor de ciências da faculdade fala aos alunos a respeito das descobertas científicas positivas (eletricidade) para facilitar a conversa sobre assuntos mais controversos (aquecimento global).

E recentemente o editor de uma revista de agricultura, Successful Farming, fez um movimento polêmico, que gerou uma enxurrada de cartas irritadas: rompeu com uma regra antiga e falou abertamente sobre as mudanças climáticas.

“Alguns leitores nos agradeceram, mas outros perguntaram m se havíamos sido sequestrados por ambientalistas ferozes”, afirma o editor Gil Gullickson.

Trump tem dito que acredita que as mudanças climáticas são uma farsa, e sua administração expurgou todas as menções sobre programas que lidam com o tema dos sites da Casa Branca e do Departamento de Estado. Também ordenou um congelamento do dinheiro federal gasto na Agência de Proteção Ambiental (EPA) e em outras instituições governamentais.

O fato de o discurso sobre as mudanças climáticas ter sido dominado pelos liberais alienou alguns conservadores, Palen entre eles. Muitas pessoas daqui em particular se ressentem com a maneira como os americanos conservadores têm sido tratados como pessoas hostis ao meio-ambiente.

A campanha de Trump se aproveitou desse cisma, pintando os democratas como ecologistas excessivamente zelosos com pouca apreciação pelas realidades econômicas ou os costumes sociais da região rural americana. “Muitas de nossas leis ambientais estão sendo usadas para oprimir os fazendeiros ao invés de realmente ajudar o meio-ambiente. Os fazendeiros se preocupam mais com o meio-ambiente do que os ecologistas radicais”, gracejou Trump em uma resposta a questões no site FarmFutures.com.

“Seria um grande erro pensar que as pessoas que votaram em Trump votaram contra o meio-ambiente”, avisa Miriam Horn. Se Trump seguir uma agenda antiecológica, acredita ela, “haverá uma grande reação no coração do país.”

Plantio direto. De várias maneiras, Palen se vê como o conservacionista mais radical. Na faculdade, ele aprendeu uma técnica chamada “plantio direto”, que se destina a imitar o ecossistema natural da pradaria, e ficou curioso sobre sua promessa de proteger os campos da família dos ventos implacáveis e das tempestades súbitas do Kansas. A ideia por trás do plantio direto é que arar o solo destrói sua estrutura natural, fazendo com que perca a preciosa umidade e os nutrientes. Isso o torna mais vulnerável à erosão.

Palen alterna trigo e outros grãos no que descreve como um coquetel de gramíneas e plantas frondosas, como sorgo, girassol e alfafa, dando um aceno para a diversidade da pradaria selvagem. “Dizem que há mais organismos em um punhado de terra do que pessoas no planeta”, conta Palen. Ele pega um pedaço de terra do chão e rola entre os dedos.

“Viu como ela é firme e se mantém em bloco? Viu como não se esfarela?”

O plantio direto lida com um problema terrível para os agricultores americanos: quase 1,7 bilhão de toneladas de solo vegetal são sopradas ou lavadas dos campos de cultivo todos os anos, avalia o Departamento de Agricultura, o que resulta em perdas de bilhões de dólares para os fazendeiros. Manter o solo saudável e coberto diminui a evaporação em 80 por cento, ajudando os agricultores a conservar água, segundo o departamento.

Fazendeiros como Palen também estão protegendo um vasto e valioso sumidouro de carbono, o que o transforma em um aliado das pessoas que fazem campanha sobre as mudanças climáticas. O solo retém muito mais carbono em suas profundezas do que toda a vida vegetal e animal da terra, dizem os cientistas.

Annie Kuether, democrata e defensora da energia limpa na câmara estadual, controlada pelos republicanos, e membro do Comitê de Empresas de Serviços Públicos do Estado, há anos vem pressionando por mais fontes renováveis.

Ao longo dos anos, construiu alianças de negócios poderosas focando em empregos e na economia. Ela também vem encontrando apoio cada vez maior de fazendeiros e donos de terras, que hospedam moinhos de vento e painéis solares em suas propriedades para obter renda extra.

“Aos poucos, de um ponto de vista político, você pode obter um eleitorado que se beneficia dessa indústria”, explica Mark Lawlor, aliado e executivo da Clean Line Energy Partners, que está construindo uma linha de transmissão de 1.255 quilômetros para entregar quatro mil megawatts de força eólica do oeste do Kansas até o Missouri, Illinois e outros estados vizinhos.

Gullickson, da Successful Farming, que normalmente escreve sobre temas como amendoim, gesso e escoamento superficial, começou a quebrar as barreiras dos debates sobre mudanças climáticas. Ele confessa que passou muito tempo em cima do murro em relação ao assunto. Mas começou a mudar há cerca de cinco anos quando compareceu a uma palestra em que um professor da Universidade de Kentucky usou argumentos persuasivos, apoiados por dados.

“Comecei a olhar para as evidências, os dados e o que os fazendeiros estavam fazendo. Ficou muito claro: o clima tem se tornado mais extremo hoje em dia. E pensei: ‘Nunca ouvi falar de qualquer publicação de negócios que continuasse no mercado escondendo informações’.”

Então, pela primeira vez na história de 115 anos da revista, uma reportagem de capa abordou diretamente a ciência das mudanças climáticas.

“Eu sei o que você está pensando: as mudanças climáticas são apenas um produto da imaginação de Al Gore adotado por liberais que abraçam árvores e querem acabar com a economia dos Estados Unidos”, escreveu Gullickson.

“Ainda assim, pense sobre o clima difícil que você teve que enfrentar nos últimos anos e se faça algumas perguntas. As primaveras estão ficando mais úmidas? As secas mais severas? As tempestades ficaram mais intensas? A resposta sincera, segundo ele, é sim.”

Seu editor chefe, Dave Kurns, apoiou a decisão, conta ele, mas também alertou que a reportagem poderia gerar reação.

Kurns fala abertamente sobre as preocupações na carta do editor que abre a revista. Quando se tornou editor da publicação há dois anos, diz, foi alertado: “Nunca use as palavras ‘mudanças climáticas’”.

“Eles me avisaram: ‘Os leitores odeiam. Apenas fale sobre o clima’”, escreveu.

Gullickson diz que alguns dos leitores o agradeceram. “Finalmente uma revista sobre agricultura que entende o que está acontecendo com o clima”, escreveu Paul Jereczek, de Dodge, Wisconsin.

Pelo telefone, Jereczek, que administra uma fazenda produtora de laticínios, expressou sua exasperação com a falta de capacidade das pessoas de falar abertamente. “A expressão se tornou tão politizada que ficou difícil conversar sobre essa questão. Mas falamos sobre todas as outras. Mesmo aqui, proteger o solo é um assunto complicado hoje em dia. Mas falamos do solo, de economizar os fertilizantes, essas coisas.”

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