Como as ilhas viraram montanhas, e vice-versa

'Do Rio Grande do Sul até a Bahia era tudo uma grande planície', diz geógrafo e oceanógrafo Luis Conti, da USP

Herton Escobar, de O Estado de S. Paulo,

27 Dezembro 2008 | 17h30

As evidência geológicas não deixam dúvidas: o nível do mar já esteve muito mais baixo do que o atual. Cerca de 20 mil anos atrás, no período que os cientistas chamam de "último máximo glacial", havia tanta água congelada nos pólos que o nível global dos oceanos chegou a ficar quase 130 metros mais baixo do que hoje. Conseqüentemente, havia muito mais terra firme, e a praia fica muito mais longe da serra naquela época.  "Do Rio Grande do Sul até a Bahia era tudo uma grande planície", diz o geógrafo e oceanógrafo Luis Conti, da Universidade de São Paulo (USP Leste). Segundo ele, as praias mais próximas estavam a 100 km da linha da costa atual. Ainda hoje é possível enxergar, no leito marinho, as marcas deixadas pelos rios que correram por essa planície durante os milhares de anos em que ela ficou exposta - e que hoje deságuam diretamente da Serra do Mar para o oceano, como o Rio Ribeira de Iguape. A maior dúvida é sobre a cobertura vegetal que teria se formado sobre esse território. Como o clima era muito mais frio e seco na era glacial, é pouco provável que a planície tenha sido coberta por uma mata atlântica densa e úmida como a que conhecemos hoje. O mais provável, segundo Conti, é que tenha-se formado algo mais parecido com uma vegetação de savana ou restinga, como as de beira de praia atuais. Algumas simulações de paisagem das ilhas em terra firme podem ser vistas no site do pesquisador. Como as ilhas estão bem mais próximas da costa do que os 100 km de terra firme do último máximo glacial, Conti estima que elas tinha ficado ligadas ao continente por pelo menos cem mil anos - o que daria tempo mais do que suficiente para muitas espécies irem e virem de um lugar para outro.  O período glacial inteiro começou cerca de 120 mil anos atrás, segundo o geólogo Kenitiro Suguio, professor emérito da USP e um dos pioneiros do estudo e mapeamento do litoral paulista. Hoje, cerca de 2% da água do planeta está na forma de gelo. No último máximo glacial (entre 18 mil e 20 mil anos atrás), esse índice era superior a 5% e as geleiras do Hemisfério Norte chegavam até Boston, no EUA, por exemplo.  Quando o gelo começou a derreter, o mar começou a "encher" de novo. Mas não foi uma coisa abrupta nem contínua. Os oceanos avançaram sobre as bordas dos continentes lentamente, em pulsos de alguns metros para mais ou para menos. Como as ilhas paulistas estão bem próximas da costa, é provável que "elas se conectaram e desconectaram várias vezes" do continente até que o nível do mar se estabilizou na medida atual, segundo Suguio.

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