'Comida é mais importante do que meio ambiente'

Para o engenheiro agrônomo Eliseu Alves, pioneiro da Embrapa, desmate seria maior sem as pesquisas

Herton Escobar, enviado especial,

26 Setembro 2009 | 16h41

Onde alguns enxergam devastação ambiental, outros enxergam desenvolvimento e segurança alimentar. Essa é a postura de vários pesquisadores do setor agropecuário entrevistados pelo Estado.

 

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Eles não negam os impactos negativos sobre o meio ambiente, mas veem o problema da seguinte forma: o Brasil tem 190 milhões de habitantes; essas pessoas precisam comer alguma coisa; essa comida precisa ser produzida em algum lugar e, se não fosse pelo avanço tecnológico do setor, a destruição seria muito maior.

 

Desde 1990, a produção de grãos no Brasil cresceu 147% (de 58,3 para 143,9 milhões de toneladas), enquanto a área plantada cresceu apenas 22%, (de 38,9 para 47,4 milhões de hectares), segundo a Conab.

 

Se a produtividade agrícola do Brasil hoje fosse igual à de 1970, especialistas da Embrapa calculam que teria sido necessário desmatar outros 900 mil km² para a produção de alimentos - uma área do tamanho de Mato Grosso. O Cerrado já teria desaparecido.

 

"A criação da Embrapa (em 1973) significou uma economia de recursos naturais enorme para o País", diz o engenheiro agrônomo Eliseu Alves, de 77 anos, um dos pioneiros da empresa. "A única forma de aumentar a produção sem derrubar mais floresta é aumentar a produtividade, e isso só se faz com tecnologia. O resto é conversa fiada."

 

Mineiro de voz alta, Alves não se esquiva do debate nem por um minuto. "Comida tem prioridade sobre o meio ambiente", diz ele. "É muito fácil falar de preservação quando se tem comida sobrando. Se faltasse alimento, a conversa dos ambientalistas seria outra."

 

Plinio Souza, da Embrapa Cerrados, que ajudou a criar a primeira variedade de soja adaptada ao Cerrado, também defende os frutos de sua pesquisa: "A soja, se for cultivada corretamente, só beneficia o Cerrado", diz. Ele destaca que apenas 6% da área do bioma é plantada com soja, enquanto o desenvolvimento econômico estimulado por ela é enorme.

 

"Se o Brasil parasse de produzir soja, as consequências seriam catastróficas para a economia e a sociedade", diz o agrônomo José Roberto Peres, chefe de gabinete da presidência da Embrapa, que nos anos 60 ajudou a desenvolver a técnica de fixação biológica de nitrogênio.

 

Ele ressalta que a preocupação com o meio ambiente na agricultura é um fenômeno recente, que não existia nas décadas de 70 e 80, quando as fronteiras começaram a se expandir sobre o Cerrado. "A sociedade não cobrava, o governo não cobrava, o Código Florestal era uma letra morta. Quando a preocupação chegou, boa parte do Cerrado já tinha ido embora", diz.

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