Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Com mudanças climáticas, saída é priorizar a infraestrutura verde

Cuidados com florestas se somam a grandes obras para garantir oferta de água para a população do planeta

Eduardo Geraque, especial para o Estado

23 Outubro 2018 | 02h30

SÃO PAULO - Em um contexto de mudanças climáticas, investir na chamada infraestrutura verde e focar também na demanda de água são duas soluções prioritárias para o País evitar transtornos com a escassez hídrica. Segundo os especialistas que debateram sobre o tema durante o Fórum Estadão Sustentabilidade, não existe uma solução única para fugir de futuras crises hídricas. A saída tem de ser sempre sistêmica, afirmam.

“Não tem bala de prata. Precisamos de um conjunto de ações bem calibrado”, afirma Guarany Osório, coordenador do Programa de Política e Economia Ambiental do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas.

Para o pesquisador, apenas as grandes obras de engenharia para aumentar a oferta de água, a chamada infraestrutura cinza, não são suficientes. “Temos que ter também instrumentos voltados para a demanda. Como mecanismos de mercado baseados na quantidade de água que é consumida pelas pessoas”, diz Osório.

Estimativas feitas pela FGV na região do semiárido brasileiro para os próximos 50 anos mostram uma perspectiva preocupante. “Quando você aplica os cenários climáticos para a bacia Piancó-Piranhas-Açu, por exemplo, um dos locais que estudamos, se não considerar a mudança climática significa negligenciar um déficit hídrico adicional de 133% ao problema, que já é grave”, diz. Por isso, defende, é preciso “ter soluções novas para resolver o problema”.

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O problema das mudanças climáticas é grave, e tende a piorar ainda mais, por isso temos que trabalhar para não ficar ainda mais caro no futuro.
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Guarany Osório, coordenador do FGVCES

Para Samuel Barreto, gerente nacional de água da ONG The Nature Conservancy, o problema é que a chamada infraestrutura verde - ações que visam ao reflorestamento de áreas ao redor de mananciais ou à preservação de matas que estão de pé - está longe da prioridade dos governantes. “Temos deixado esses projetos em quarto ou quinto plano. Mas precisam estar em primeiro lugar, porque contribuem para a melhoria da qualidade e da quantidade de água. Não podemos abdicar de nada.”

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A era que nós estamos vivendo é a era do imprevisto. Aquilo que ocorreu no passado em relação à água dificilmente vai ocorrer no futuro.
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Samuel Barreto, gerente de água da The Nature Conservancy

Soluções combinadas

Além do investimento nas áreas verdes, que ajudam na melhora da oferta de água, o especialista afirma que as obras de engenharia também são importantes. E também lembra de outro problema grave que existe no Brasil em relação aos recursos hídricos. “O País perde, em média, 37% de tudo o que é produzido de água. Em algumas regiões do País perde-se 70%, como na Amazônia”, diz Barreto. O biólogo defende uma combinação de todas as soluções. “Pelo lado da demanda, na agricultura e na indústria temos que melhorar esses sistemas. Eles são ineficientes”, afirma.

Para Renato Saraiva, diretor do departamento de Revitalização de Bacias Hidrográficas e Acesso à Água da Secretaria de Recursos Hídricos e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente, a crise de recursos hídricos vivida pelo Brasil nos últimos anos não é obra do acaso. “Ela decorre de um grande modo de desenvolvimento em que a variável ambiental foi negligenciada”.

O gestor, assim como os outros debatedores, é um entusiasta da infraestrutura verde. “Continuamos precisando muito da infraestrutura cinza, dos engenheiros civis, mas precisamos dos geólogos, dos hidrólogos, dos agrônomos, dos botânicos e dos ecólogos para compreendermos melhor a água na natureza.

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