Adriana Baldissarelli/Comcap/SMMA
Adriana Baldissarelli/Comcap/SMMA

Coleta seletiva de lixo começa a dar bons resultados em Santa Catarina

Florianópolis e Lages são dois exemplos de cidades onde políticas públicas aliadas à educação ambiental têm mudado a relação dos moradores com o descarte de resíduos

Eduardo Geraque, especial para o Estadão

20 de abril de 2022 | 10h00

A mudança de cultura de uma cidade em relação aos resíduos que ela produz não ocorre da noite para o dia. Políticas públicas aliadas à educação ambiental estão na base desse processo. Apesar de a maior parte do País ainda engatinhar quando o assunto é lixo zero, é possível apontar alguns bons exemplos, como Florianópolis.

O programa feito na capital catarinense envolve a coleta separada de vidro, metal, papel e plástico, além de lixo orgânico e outros materiais. A iniciativa começa a dar resultados.

Números oficiais indicam que, em 2020, cerca de 8% do material reciclável que estava indo para o aterro conseguiu ser desviado para fins mais nobres. Ou seja, voltou a ser utilizado nas linhas de produção. O índice pode parecer baixo, porém, é mais do que o dobro do registrado na maior parte das cidades do País.

“A questão básica é você separar o lixo e evitar que tudo vá misturado para o mesmo saco. Existem cinco ou seis coletas diferentes que podem ser feitas mais ou menos com a mesma logística”, afirma Rodrigo Sabatini, presidente do Instituto Lixo Zero no Brasil.

O governo federal publicou no último dia 13, no Diário Oficial da União, o Plano Nacional de Resíduos Sólidos (Planares), que prevê acabar com os lixões e aterros controlados nos próximos dois anos. Ainda conforme o documento, a meta até 2040 será reciclar ou recuperar 48,1% dos resíduos sólidos urbanos. Em termos internacionais, o conceito de lixo zero sugere evitar que matérias-primas encontradas no lixo cheguem até o aterro sanitário e sejam separadas da parte pequena do lixo que é efetivamente “rejeito” e não pode ser reutilizada em outros processos.

Em Lages, no interior de Santa Catarina, a compostagem caseira tem contribuído para uma nova cultura preocupada com o processamento do lixo orgânico. Em dez anos, a iniciativa do professor Germano Güttler, do Centro de Ciências Agroveterinárias (CAV) da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), ajudou a diminuir os resíduos orgânicos que chegavam ao aterro sanitário da cidade.

Em 2011, os estudos mostram que 50% do que entrava no aterro era lixo orgânico. No final de 2020, última medição disponível, o mesmo índice caiu para 21%. Em relação aos rejeitos, a marca hoje está em 56% (ou seja, 44% do lixo está voltando para movimentar a chamada economia circular).

Segundo Güttler, o teor de rejeitos no aterro registrado em Lages pode ser o mais alto do Brasil, na comparação com outras cidades de médio a grande porte, o que significa um ponto positivo do programa de lixo zero da cidade. Além disso, segundo o pesquisador, a maioria dos aterros do País apresenta teores de recicláveis bem acima dos 30%.

Essa era a realidade de Lages. Na primeira análise realizada em 2014, 40% de recicláveis chegavam ao aterro sanitário. Hoje, essa taxa é de 22,7%, quase a metade. “(Como é) uma cidade bastante horizontal, a população foi estimulada a fazer compostagem em casa. E está dando certo”, diz Sabatini.

Se o Brasil tem ainda poucos exemplos a dar, no exterior o cenário é diferente. Até o segundo semestre de 2021, 325 cidades da Itália tinham implantado o modelo Lixo Zero, impactando um total de 7 milhões de pessoas. Na região do Vêneto, 74,7% dos resíduos já são desviados dos aterros. Ao mesmo tempo, mais de cem municípios do país atingiram 90% de alcance da coleta seletiva diferenciada, enquanto outros 1.168 estão por volta dos 80%.

“A sacada da Itália é que eles usam a mesma logística para fazer coisas diferentes. Um dia tem a coleta do papelão, no outro, dos plásticos e metais, depois o vidro, o orgânico e os resíduos propriamente ditos. Ou seja, eles acabaram com o saco preto, onde vai tudo misturado”, afirma o presidente do Instituto Lixo Zero. Além disso, a matéria-prima gera fluxo para várias cadeias de produção, o que contribui para aumentar o número de empregos gerados.

Um dos segredos do sucesso italiano, segundo Rossano Ercolini, presidente do Instituto Lixo Zero na Itália, foi ter dado espaço às comunidades locais e aos prefeitos. “De fato, para serem totalmente implantadas, as boas práticas Lixo Zero devem dedicar muito espaço para a informação e o treinamento de cidadãos e de usuários comerciais locais. São eles que fazem a diferença e a diferenciação”, afirma Ercolini, que esteve no Brasil durante a Semana Embaixada Verde, realizada em Brasília no início deste mês.

Na ocasião, a Embaixada da Itália no Brasil recebeu um certificado do Instituto Lixo Zero Brasil, por ser a “primeira e única embaixada no mundo com o selo Lixo Zero”. Do ponto de vista logístico, o modelo italiano pode ser totalmente adaptado ao Brasil, segundo Ercolini. “O caminho é a organização de um sistema de coleta seletiva domiciliar baseado em cinco coletores (resíduos orgânicos, papel, plástico/metal, vidro e não reciclável), como feito em Milão e na província italiana de Treviso, na região do Vêneto”, explica.

Mesmo nos Estados Unidos, a questão do lixo zero também está na pauta do dia, principalmente no Estado da Califórnia, que assumiu a meta de desviar dos aterros 65% dos resíduos que podem ser reaproveitados de alguma forma. “No caso de São Francisco, o sistema é baseado em três coletores: um para resíduos orgânicos (e o Brasil tem cerca de 50% de resíduos orgânicos em seu lixo), um para resíduos secos recicláveis (vidro, papel, metais e plásticos) e um recipiente para o que atualmente não é reciclável”, conta Ercolini.

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