Colapso das abelhas provoca disseminação de vírus também em espécies silvestres

Estudo na Grã-Bretanha mostrou infecção em 33% das espécies domésticas e 11% nas selvagens

Geoffrey Mohan, LA Times

21 Fevereiro 2014 | 17h02

Crédito: Matthias A. Fürst / Divulgação

Doenças infecciosas ligadas ao colapso das colônias de abelhas estão se espalhando entre espécies de abelhas silvestres (conhecidas como abelhões em Portugal, e como zangões ou mamangavas no Brasil) que polinizam culturas agrícolas no mundo inteiro, podendo provocar um duplo desastre na agricultura, mostra um novo estudo.

Estudos realizados em 26 locais na Grã-Bretanha constataram que 1 em cada 5 abelhas sofriam de um vírus que deformava as asas, impedindo os insetos de voar e chegando a provocar sua morte, segundo um relatório divulgado online na quarta-feira, pela revista especializada Nature.

Mais de 33% das abelhas estavam infectadas, e cerca de 11% dos zangões tornaram-se vetores do vírus – dados que os pesquisadores consideram extremamente conservadores. Outro parasita letal, a Nocema ceranae microspore, teve uma menor prevalência.

Embora não fosse possível determinar com certeza o caminho seguido pela infecção, os pesquisadores disseram que muito provavelmente ela se espalha através das abelhas – 88% delas transportavam vírus com replicação ativa. É provável que o fato de as diferentes espécies se alimentarem das mesmas flores provoque em grande parte a infecção, mas a invasão de colmeias concorrentes também pode contribuir, disseram os pesquisadores.

“Só apanhamos indivíduos vivos e saudáveis, capazes de sair para se alimentarem”, disse Mark J.F. Brown, biólogo conservacionista da Royal Holloway University de Londres e principal autor da pesquisa. “Assim, é provável que os números relatados no nosso estudo sejam menores do que são na realidade.”

Abelhas criadas comercialmente polinizam cerca de 90 culturas em todo o mundo, num serviço avaliado em US$ 14 bilhões por ano. Na Califórnia, só o segmento de amêndoas gasta US$ 239 milhões ao ano com o aluguel de mais de 1 milhão de colônias de abelhas.

Os pesquisadores suspeitam que ácaro Varroa que infesta as abelhas seja o principal vetor dos vírus. Os locais pesquisados na Grã-Bretanha não são os únicos ameaçados, acrescentaram, mas representam um padrão de surto que poderia ocorrer em qualquer outro lugar onde as colônias de abelhas comerciais entram em contato com polinizadores nativos.

“Se nossa interpretação da direção tomada pelo fluxo do patógeno for correta, os pré-requisitos para isso podem estar presentes em toda a América do Norte, na Europa e em todas as outras partes do mundo onde as abelhas apresentam elevados níveis de vírus em razão do parasita Varroa”, acrescentaram os pesquisadores.

Os resultados revelaram a necessidade de gerir as colônias de abelhas com o maior cuidado e aumentar os esforços para erradicar o parasita.

“É imprescindível que as colmeias seja absolutamente limpas para frear o alastramento do parasita no meio ambiente”, disse o coautor do trabalho Matthias A. Furst, ecólogo evolucionista da Holloway University.

Embora culturas importantes, como as de amêndoas na Califórnia, dependam consideravelmente das colônias nacionais, um estudo realizado no ano passado mostrou que os polinizadores silvestres frequentemente são responsáveis pelo mesmo nível de polinização das culturas, mesmo onde os produtores importam abelhas comerciais.

“As abelhas silvestres contribuem para uma fração significativa da polinização”, disse Brown. “As domésticas são absolutamente importantes, mas também as silvestres.” De fato, os esforços para incentivar os polinizadores nativos poderiam se frustrar por causa das abelhas infestadas que se alimentavam na mesma área, sugerem os pesquisadores. “Se tentarmos reintroduzir as populações de zangões extintas num local, será aconselhável avaliar as abelhas controladas perto daquele local”, prosseguiu Brown.

“Acho que devemos concluir que precisamos nos preocupar não apenas com os nossos polinizadores controlados, mas também com os silvestres.”

Tradução de Anna Capovilla

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