Clima deve estar acoplado ao planejamento
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Clima deve estar acoplado ao planejamento

Projeções de recuperação de reservatórios e de preços da energia não espelham a realidade

Estadão Blue Studio, O Estado de S.Paulo
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10 de junho de 2021 | 11h29

No fim de maio, o Sistema Nacional de Meteorologia (SNM) emitiu um alerta de emergência hídrica para a Bacia do Paraná, que abrange os Estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná. As baixas afluências verificadas desde o ano passado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), geradas por chuvas bem abaixo do esperado nos reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste no ano passado, levaram um indicador chamado de Energia Natural Afluente (ENA) ao menor patamar histórico em 90 anos. O quadro crítico tem motivado o despacho cada vez mais frequente de energia por termelétricas mais poluentes e caras, elevando as contas e colocando em xeque o planejamento do setor. Quadro que leva os especialistas a incluir as mudanças climáticas na equação.

“Não é só conjuntural, ligado a fenômenos como El Niño e La Niña. A velocidade de recomposição de reservatórios se alterou ao longo do período, não só pelo menor volume de chuvas, mas também em decorrência do gradual aumento das temperaturas que, por sua vez, interfere nos dados temporais de evaporação”, afirma Bruno Pascon, diretor da CBIE Advisory. Para o executivo, é preciso que os reguladores e responsáveis pelo planejamento do setor reconheçam que as mudanças climáticas trouxeram alterações estruturais no regime de chuvas no Brasil nos últimos 20 anos.

Um recente relatório de perspectivas da CBIE avalia que, por não considerarem esse “novo normal” climático, os modelos computacionais de planejamento e operação do sistema acabam mostrando velocidade de recuperação dos reservatórios e estimativas de preço de curto e longo prazos desacopladas da realidade. De acordo com Pascon, o sistema brasileiro está dependendo de fatores exógenos, que o governo não controla. “O que salvou foi o baixo crescimento econômico.”

Durante o webinário Caminhos da Energia, realizado pelo Estadão Blue Studio, Luiz Barroso, presidente da consultoria PSR, concordou que o País enfrenta o que pode ser considerado “o pior dos piores” cenários, ou a “seca das secas”. “Naturalmente isso liga uma preocupação porque o governo precisa começar a se preparar para garantir o atendimento físico do suprimento de eletricidade deste ano. Vejo a declaração de emergência hídrica colocada pelo governo como um ato bastante positivo. E uma das coisas a serem feitas é controlar o uso da água entre os seus distintos usos múltiplos”, avaliou o consultor.

A falta de abundância hídrica é um dos pontos cruciais segundo análise de João Carlos Mello, presidente da Thymos Energia. “É preciso modernizar nossa estrutura porque não temos mais a água que tínhamos antigamente. Além disso, tem outras demandas para água, como a agricultura e o saneamento. Tem que reconhecer isso. A caixa d’água está do mesmo tamanho, mas atende uma família maior”, compara.

Pressão de preços

O despacho sistemático das termelétricas tem exercido uma inegável pressão nos preços, especialmente para os consumidores cativos, que não conseguem acessar o mercado livre de energia. O Brasil possui uma das tarifas de eletricidade mais altas do mundo em relação ao poder aquisitivo da sua população, segundo relatório publicado em março pela Thymos. O País ocupa o 3º lugar, atrás apenas de Ruanda e Quênia. Em valores absolutos, a tarifa média brasileira está na 18ª posição.

Segundo os cálculos da CBIE, de 2013 (quando se estabeleceu o cenário hidrológico que permanece ainda hoje) até 2019, as tarifas de eletricidade aumentaram 105,2% ante uma inflação acumulada no País de 47,7%, perfazendo incrementos anuais médios 7,9% acima da inflação. “Isso, mesmo as fontes renováveis sendo responsáveis por 86% da geração nesses anos”, alerta Pascon.

Segundo o executivo, as fontes intermitentes são ótimas para o setor, mas é preciso levar em consideração que não se tem sol e nem venta 24 horas por dia, enquanto o consumo permanece por todo o período do dia. “Tem que trazer para a base o reservatório equivalente e o gás também pode ter um papel relevante”, argumenta Pascon. O especialista no setor reconhece como legítimas as preocupações ambientais no contexto das práticas de ESG (ambiental​, social e de governança, na sigla em inglês), mas pede que sejam observadas as três letras com a mesma atenção. “O peso da conta de luz para o brasileiro é de 6% da renda mensal, enquanto nos países desenvolvidos é de 1% a 2%. O ‘S’ (social) deveria vir primeiro que o ‘E’ (environmental). No lado do ‘E’, o Brasil é exemplo. Enquanto o mundo tem 73% da matriz elétrica fóssil, no Brasil temos 75% de renovável. No transporte, o Brasil tem 46% de matriz limpa e o mundo está em 14%”, afirma.

O exemplo que vem da Alemanha é didático, avalia Pascon. O país europeu acelerou a transição energética nas últimas décadas. Diminuindo a importância dos combustíveis fósseis, obtidos a partir de plantas a carvão e nucleares, e aumentando a participação da energia vinda do gás e de fontes renováveis. “Acelerou em poucas décadas e a tarifa subiu muito. Ganharam no ‘E’ e perderam no ‘S’”, explica.

Subsídios em xeque

Na análise dos componentes da conta de luz, Sergio Leitão, diretor executivo do Instituto Escolhas, disse no webinário que é preciso rediscutir a questão dos subsídios. “Virou uma desculpa para taxar ou para beneficiar os investidores que apostaram numa taxa de retorno da qual não querem abrir mão. A mudança tecnológica permitiu uma mudança de patamar de preço. A gente poderia zerar. Zera os subsídios para todo mundo”, sugeriu. Barroso concorda: “As renováveis no Brasil não precisam de qualquer subsídio e estes já estão sendo removidos, o que é correto”.

Entre as medidas de modernização do setor que estão nos planos do governo, está a abertura do mercado livre de energia para outras classes de consumidores, chegando até aos residenciais. Mello, da Thymos, acredita que será natural que o consumidor opte por contratar uma energia mais limpa e barata, como a eólica e solar. Segundo Pascon, o mercado livre, para funcionar, vai precisar compartilhar os custos com o consumidor cativo. “O que norteia a modernização é uma boa alocação de riscos e custos na cadeia”, afirma o diretor da CBIE.

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O peso na conta de luz para o brasileiro é de 6%
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Bruno Pascon, diretor da CBIE Advisory


 

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