David Gray/REUTERS
David Gray/REUTERS

Cientistas se espantam com grave processo de destruição dos corais

'Parece coisa de outro mundo. Foi devastador', conta oceanógrafa Kim Cobb, que mergulhou nas azuis águas profundas da Ilha Kiritimati, um atol remoto perto do centro do Oceano Pacífico

Michelle Innis, The New York Times

20 Abril 2016 | 11h54

SYDNEY - A oceanógrafa Kim Cobb, do Instituto de Tecnologia da Georgia, previa que os corais poderiam estar danificados quando mergulhou nas profundas águas azuis da Ilha Kiritimati, um atol remoto perto do centro do Oceano Pacífico. Ainda assim, ficou chocada com o que viu quando desceu 9 metros até a borda de um afloramento de corais. "O recife inteiro está coberto com uma penugem marrom-avermelhada. Parece coisa de outro mundo. São algas que cresceram sobre o coral morto. Foi devastador", contou Kim quando voltou à superfície depois de seu mergulho recente.

Os danos em Kiritimati são parte de um processo de branqueamento em massa de recifes de coral em todo o mundo, o terceiro do gênero já registrado e possivelmente o pior de todos. Os cientistas acreditam que o estresse térmico decorrente de vários eventos meteorológicos, incluindo o último e severo El Niño, agravados pelas mudanças climáticas, ameaçaram mais de um terço dos recifes de coral da terra. Muitos podem não se recuperar.

Os recifes de coral são incubadoras cruciais do ecossistema do oceano, garantindo comida e abrigo para um quarto de todas as espécies marinhas e a sobrevivência de populações de peixes que alimentam mais de um bilhão de pessoas. Eles são feitos de milhões de pequenos animais, chamados pólipos, que formam relacionamentos simbióticos com algas, que por sua vez usam a luz do sol e capturam o dióxido de carbono para produzir açúcares que alimentam os pólipos.

Sobrevivências dos pescadores. Estima-se que 30 milhões de pequenos pescadores precisam dos recifes para sobrevivência, mais de um milhão apenas nas Filipinas. Na Indonésia, os peixes que se beneficiam dos recifes são a principal fonte de proteína. "Esta é uma crise planetária enorme e ameaçadora, e estamos enfiando a cabeça na areia sobre o assunto", afirma Justin Marshall, diretor da CoralWatch da Universidade de Queensland, na Austrália.

O branqueamento acontece quando o calor e o sol fortes produzem uma aceleração descontrolada no metabolismo das algas - que dão aos recifes de coral suas cores brilhantes e sua energia - e elas começam a produzir toxinas. Os pólipos recuam. Se a temperatura cai, os corais podem se recuperar, mas os que ficaram nus acabam vulneráveis a doenças. Quando o estresse térmico continua, eles morrem de fome.

Corais danificados ou morrendo foram encontrados da Ilha de Reunião, na costa de Madagascar, até East Flores, na Indonésia, e de Guam e Havaí, no Pacífico, às Florida Keys, no Atlântico.

O maior branqueamento, na Grande Barreira de Corais da Austrália, foi confirmado em março. Em uma pesquisa em 520 recifes individuais que formam a parte norte da Grande Barreira, os cientistas da Força Tarefa Nacional de Branqueamento de Coral da Austrália encontraram apenas quatro sem sinais de branqueamento. Quase mil quilômetros de recifes, que antes estavam em ótimas condições, haviam sofrido branqueamento significativo.

Em pesquisas subsequentes, cientistas que mergulharam nos recifes disseram que metade dos corais que viram havia morrido. Terry Hughes, diretor do Centro de Excelência para Estudos de Recifes de Corais na Universidade James Cook, em Queensland, que participou da pesquisa, avisou que ainda mais corais vão morrer se a água não esfriar logo. “Há uma boa chance de que uma grande parte do coral danificado morra”, afirmou.

Fatores múltiplos. Os cientistas dizem que o branqueamento global é o resultado de uma confluência incomum de eventos, cada um dos quais elevou mais a temperatura da água que já estava alta por causa das mudanças climáticas.

No Atlântico Norte, uma célula de alta pressão forte bloqueou o fluxo normal de ar polar em 2013, dando início ao primeiro dos três invernos em sequência mais quentes que o normal até o Caribe.

Uma grande onda quente subaquática se formou no nordeste do Pacífico no começo de 2014 e desde então se ampliou em um trecho largo pela costa oeste da América do Norte, da Baja Califórnia até o Mar de Bering. Apelidada de Blob (Mancha), é 2,2 graus Celsius mais quente do que as águas que a rodeiam e está sendo responsabilizada por uma série de fenômenos estranhos, incluindo o encalhe de leões marinhos famintos na Califórnia e o aparecimento de atum-gaiado tropical no Alasca.

Então veio 2015, com o mais poderoso ciclo climático de El Niño em um século. Ele espalhou o calor pelo Pacífico tropical e sul, branqueando corais de Kiritimati até a Indonésia, e pelo Oceano Índico até as Ilhas Reunião e a Tanzânia, na Costa Leste da África. "Estamos vivendo o mais longo evento mundial de branqueamento de corais que já pudemos observar", afirma C. Mark Eakin, coordenador do Coral Reef Watch na Administração Nacional Oceânica e Atmosférica de Maryland. "Vamos perder muitos dos recifes do mundo durante esse evento."

Recifes que levam séculos para se formar são destruídos em semanas. Corais individuais são capazes sobreviver ao branqueamento, mas vários eventos seguidos podem matá-los.

No verão de 2014, relatórios chocantes de corais danificados começaram a ser feitos por cientistas preocupados. Lyza Johnston, oceanógrafa das Ilhas Norte Mariana, mergulhou nos recifes em Maug, um grupo de pequenas ilhas: "Em qualquer direção que se olhe, quase todos os corais estavam com um branco brilhante".

Misaki Takabayashi, oceanógrafa da Universidade do Havaí em Hilo, surfou nas ondas acima do coral arroz azul da região: "Eu pude ver o que pareciam fantasmas esbranquiçados surgindo do chão do oceano". Cory Walter, biólogo sênior do Laboratório Marinho Mote, na Flórida, olhou de um barco os corais do Wonderland Reef, na parte mais ao sul das Florida Keys: "Parece quase que nevou sobre o recife".

Sem previsão. Prever a duração do branqueamento ou quando será o próximo é difícil. A Blob esfriou um pouco, e o El Niño, apesar de mais fraco, deve durar até 2017. Eakin diz que espera que o branqueamento continue por nove meses. Os cientistas não vão conseguir medir a extensão dos danos até que ele termine.

O que está claro é que esses eventos estão acontecendo cada vez com mais frequência - e ferocidade. Os branqueamentos anteriores, em 2010 e 1998, não pareceram ser tão extensos nem tão prolongados quanto este.

O branqueamento de 1998, que Eakin diz ter começado com um forte El Niño, matou cerca de 16 por cento dos corais do mundo. Em 2010, os oceanos já estavam quentes o suficiente para que um El Niño moderado começasse outra rodada.

Então, em 2013, segundo Eakin, "muito do processo de branqueamento aconteceu por causa das mudanças climáticas, antes mesmo que o El Niño começasse".

Recifes que foram branqueados em 2014, como os das Florida Keys e do Caribe, não tiveram tempo para se recuperar antes de sofrer outro estresse térmico do El Niño no ano passado, o que deixou o coral vulnerável a doenças e à morte.

Os recifes das Florida Keys "estão entrando no terceiro ano seguido de branqueamento, algo que nunca aconteceu antes", explica Meaghan Johnson, oceanógrafa da Nature Conservancy. "Estamos preocupados com as doenças e as taxas de mortalidade".

Prenúncio. O El Niño esquenta as águas equatoriais em volta da Ilha Kiritimati mais do que em qualquer lugar, tornando-se um prenúncio para a saúde dos recifes de corais em todo o mundo. É por isso que Kim Cobb, a oceanógrafa da Georgia Tech que fez o mergulho recente, tem visitado o pequeno atol, parte do arquipélago das Ilhas Line, pelo menos uma vez por ano pelos últimos 18 anos.

Apesar de o atol ficar um pouco ao norte do equador, ventos alísios sugam a água das profundezas do oceano, normalmente mantendo a temperatura da água que cerca os recifes em saudáveis e quase constantes 25,6 graus Celcius.

Mas, em 2015, a esperada subida da água fria do fundo do mar não aconteceu, contou Kim, falando de um telefone por satélite depois de seu mergulho. Então a água no atol ficou 5,6 graus mais quente do que o normal e nunca esfriou o suficiente para permitir que o coral se recuperasse. "O pior aconteceu. Isso mostra como a mudança climática e os estresses térmicos estão afetando esses corais no longo prazo. Esses recifes podem nunca voltar a ser o que eram."

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