Jamil Chade/Estadão
Jamil Chade/Estadão

Cientistas propõem metas para o clima

Em Copenhague, especialistas de todo o mundo definirão negociações sobre documento sucessor do Protocolo de Kyoto

DENISE CHRISPIM MARIN, ENVIADA ESPECIAL a Copenhague de O Estado de S. Paulo

26 Outubro 2014 | 21h44

COPENHAGUE - Ao resumir mais de 800 páginas de constatações sobre a mudança climática em um volume de cerca de 30, cientistas de todo o mundo definirão nesta semana, em Copenhague, o lastro para as negociações sobre o documento sucessor do Protocolo de Kyoto. As discussões políticas sobre os compromissos de economias desenvolvidas e em desenvolvimento serão retomadas depois em Lima, Peru, em dezembro. Quanto mais o acordo final, a ser assinado em Paris em maio de 2015, responder às constatações dessa síntese do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), menos chances de a temperatura do planeta aumentar 3,7ºC, em média, até 2100.

O aumento da temperatura da terra já se tornou inevitável, conforme o IPCC constatou em seu relatório de 2013. O cenário mais otimista indica elevação de 1°C até o fim do século. A humanidade terá de adaptar-se também às outras sequelas do aumento da emissão dos gases do efeito estufa. O nível dos oceanos já está subindo, geleiras começaram a derreter, o Ártico e a Antártica perdem superfícies geladas e os eventos climáticos extremos – seca e chuvas torrenciais – se tornam cada vez mais frequentes.

A síntese para formuladores de políticas, texto a ser extraído do encontro desta semana do IPCC, não vai trazer dados novos nem mudar evidências já registradas nos três relatórios produzidos desde o ano passado. Tampouco dirá o que cada país deve fazer. Mas, na sua construção, terá de deixar de lado muito mais do que a maioria dos cientistas gostaria e preservar os elementos indispensáveis para os governos tomarem decisões acertadas em Lima e em Paris. O problema, como sempre, estará nos detalhes omitidos e nos que venham a sobreviver. “A síntese deve refletir o conteúdo dos três grupos de trabalho. Os governos estão muito atentos para evitar a inclusão de algo novo”, explicou a pesquisadora Thelma Krug, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e membro do IPCC. “Não se pode inventar. Não se pode nem mesmo atualizar os dados.”

Estratégia. Para o sociólogo José Eli da Veiga, independentemente da síntese do IPCC, o Brasil manterá a estratégia de atribuir aos países desenvolvidos a responsabilidade maior pelo aquecimento do planeta. Tenderá, portanto, a empurrar para essas nações a cota de compromissos de redução de emissões.

No ano passado, o governo brasileiro retomou um conceito que já havia caducado em 2009, o da responsabilidade histórica. A tese, que evitaria ao País a tarefa de assumir qualquer compromisso, tem o apoio do Itamaraty e do Ministério da Ciência e Tecnologia.

“O Brasil julga ter tido muita influência no Protocolo de Kyoto. Mas esse foi o pior acordo que se poderia ter feito”, defendeu Veiga, ao criticar os cortes de emissões apenas aos desenvolvidos e a criação do mercado de carbono. “O protocolo é eticamente absurdo. Politicamente, nem se fala”, completou.

GLOSSÁRIO

 IPCC

O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) foi estabelecido em 1988 pela Organização das Nações Unidas (ONU). Compila informações científicas, técnicas e socioeconômicas para o entendimento das mudanças no clima, mas não conduz nenhuma pesquisa ou monitoramento de dados.

Protocolo de Kyoto

Acordo feito em 1997 em Kyoto, Japão. Os países signatários concordaram em reduzir, entre 2008 e 2012, as emissões de gases-estufa em 5,2% sobre os níveis existentes em 1990.

Gases de efeito estufa

São gases presentes na atmosfera que, por causa da capacidade de absorver parte da radiação infravermelha refletida pela Terra, conseguem reter calor no planeta.

Aquecimento global

Elevação da temperatura média do planeta por causa do aumento da concentração de gases estufa, provocado pela elevação dos níveis de gás carbônico em decorrência do uso de combustíveis fósseis.

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