Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Cientistas comprovam incêndios em matas que cobriam Antártida há milhões de anos

Descoberta de vestígios de carvão no continente gelado serve de alerta para os perigos da mudança climática para os seres vivos

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2021 | 23h03

RIO - É difícil relacionar a mansidão branca e gelada da Antártida com a fúria do fogo e o calor. Mas foi exatamente isso que fizeram pesquisadores brasileiros em estudo publicado nesta quarta-feira, 20, na “Polar Research”. O trabalho inédito conseguiu comprovar pela primeira vez a ocorrência de incêndios florestais na ilha James Ross, na Península Antártica, há 75 milhões de anos. Nessa época, o continente era recoberto por vegetação exuberante e as temperaturas eram muito mais elevadas.

O estudo ajuda os cientistas a entenderem o que acontece com plantas e animais diante de mudanças climáticas bruscas como a que transformou uma floresta habitada por dinossauros em um deserto gelado. Serve também de alerta para o que pode acontecer atual no mundo diante do aquecimento global.

“Essa descoberta mostra que as variações climáticas que ocorreram ao longo do tempo produzem profundas mudanças no planeta e em toda a biota (conjunto de seres vivos de uma região). Isso acende um importante alerta diante das mudanças climáticas na atualidade”, explica o paleontólogo Alexander Kellner, diretor do Museu Nacional. “A dinâmica paleoflorística da Antártida é essencial para a compreensão das mudanças que ocorreram nos ambientes de alta latitude do hemisfério sul durante o Cretáceo.”

Evidências fósseis de troncos e vegetais são encontrados por todo o continente antártico. Essas descobertas já indicavam a composição florestal da região no período Cretáceo. Desta vez, no entanto, foram achados fragmentos de plantas com carvão vegetal. Indicam que essa vegetação também era atingida por incêndios espontâneos. Provavelmente, eram provocados pela intensa atividade vulcânica na região no passado.

“Essa descoberta amplia o conhecimento sobre a ocorrência de incêndios vegetacionais durante o Cretáceo, mostrando que episódios assim eram mais comuns do que se imaginava”, afirmou a paleontóloga Flaviana Lima, uma das autoras do trabalho. “Além disso, representa uma contribuição significativa para os estudos de paleobotânica em todo o mundo.”

Os incêndios florestais durante o Cretáceo afetaram diretamente a composição das comunidades de plantas. Influenciaram significativamente as mudanças paleoecológicas em diferentes ambientes do planeta.

Registros de incêndios florestais passados e intensos têm sido encontrados no mundo inteiro. Remetem sobretudo a incidentes ocorridos no período superior do Cretáceo (85 a 70 milhões de anos atrás). Foi um dos períodos mais quentes da história do planeta. Mas a maioria desses registros foi feita no Hemisfério Norte. Há poucos do Sul.

No Cretáceo, o continente antártico estava se separando das demais massas continentais do planeta. Isso favoreceu o surgimento de vulcões. Afetou diretamente os paleoecossistemas locais.

“Os dados inéditos apresentados no trabalho reforçam que as florestas que ocupavam o que hoje conhecemos como Península Antártica também foram afetadas pelo fogo, ampliando a abrangência paleogeográfica desses eventos e ajudando a esclarecer seu impacto sobre a paleobiodiversidade”, explica André Jasper, professor da UNIVATES.

Participaram do trabalho pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), do Museu Nacional/UFRJ, da Universidade do Vale do Taquari (Univates), da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), do Centro Paleontológico da Universidade do Contestado (CENPALEO) e da Universidade Regional do Cariri (URCA).

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