Cientista cubano vence 'Nobel verde'

O vencedor desenvolveu um trabalho de melhoramento natural e sustentável das sementes contra o uso de agrotóxicos

AP

19 Abril 2010 | 14h39

O cientistas cubano Humberto Ríos Labrada, de 47 anos, venceu o Prêmio Ambiental Goldman, considerado pelos ecologistas como o 'Nobel verde'. Ele foi premiado por seu trabalho de uma década com melhoramento genético participativo em plantas, um processo pelo qual os camponeses mudam a estrutura genética das plantas, selecionando-as de acordo com sua resistência a pragas ou sua adequação a tipos de terra em particular.

 

"Cuba pode ser um belo exemplo de como enfrentar uma crise e seguir em frente", disse Ríos. O pesquisador estudou pedagogia, mas passou a trabalhar com os camponeses como coordenador do Programa de Inovação Agrária Local (Pial), uma rede que desenvolve a agricultura orgânica e sustentável a partir do melhoramento das sementes de maneira natural. Ríos não rejeita os transgênicos e outros produtos agroquímicos, mas expressou cautela quanto à utilização deles.

 

A diretora do prêmio, Lorrae Rominger, disse que a seleção de Ríos reflete a importância da agricultura sustentável. E afirmou que os êxitos de Ríos são particularmente notáveis se levarmos em conta as limitações que Cuba enfrentou no campo agrícola.

 

Cuba gasta cerca de US$ 2 bilhões por ano para importar alimentos para cobrir a demanda da população, incluindo arroz e feijão, componentes básicos da dieta cubana.

 

Ainda que durante milênios os produtores escolhessem as sementes intuitivamente conforme as características do fruto - que fossem mais doces, com casca mais fina ou com aparência melhor - para, assim, conseguirem a resistência à seca, às pragas ou aos predadores, com a chegada do século XX, a ciência e os especialistas impuseram critérios aos camponeses e negaram-lhes os saberes tradicionais, desenvolvendo pesticidas e químicos para obter maiores rendimentos independentemente da degradação ambiental.

 

É paradoxal que um cubano receba o chamado 'Nobel verde', pois Cuba chegou a ser, na década de 70, um dos primeiros consumidores regionais de agroquímicos e fertilizantes.

 

Apesar da grande tradição agrícola da ilha, foi o açúcar no século XIX - e os interesses econômicos para convertê-lo em monocultura - o primeiro fator para um caminho que terminou em uma forte crise no cultivo e na degradação da terra.

 

O passar do tempo também não beneficiou Cuba em termos de sustentabilidade: com o triunfo da revolução de 1959, as autoridades se entusiasmaram com a chamada 'revolução verde', um sistema baseado no uso de fertilizantes e pesticidas.

 

Quando a União Soviética se dissolveu no começo dos anos 90 e a ilha se encontrou sem seu fornecedor de agrotóxicos, sem mercado para o açúcar, com a terra degradada, com a biodiversidade limitada e sem alimentos para a sua população ou dinheiro para comprá-lo, houve pânico generalizado.

 

Foi então que Ríos conseguiu convencer os colegas cientistas de que escutassem os camponeses e de que trabalhassem entre si para recuperar a diversidade genética das sementes em Cuba.

 

"Durante o período especial [como se denomina a crise dos anos 90] pensamos que todos nós iríamos morrer, mas os conhecimentos dos agricultores e cientistas se uniram para buscar formas de produzir sem esses insumos", lembrou Ríos, reconhecendo a resistência dos especialistas para entender o quanto poderiam aprender com os homens do campo.

 

Nessa época, Ríos era um jovem aspirante ao doutorado em Ciências Agrícolas no Instituto Superior Pedagógico para a Educação Técnica e Profissional. Mesmo assim, decidiu trabalhar com os camponeses para ampliar a variedade de suas sementes, estimulando que eles mesmos experimentassem e escolhessem as melhores para cada tipo de solo. Começou a organizar "feiras de sementes", uma forma de possibilitar o contato entre os produtores.

 

No final dos anos 90, montou uma rede nacional - que logo se converteu em Pial - que atualmente conta com contribuições financeiras de organizações do Canadá, da Holanda, do Reino Unido, entre outros países. "Para mim, o interessante de seu trabalho não é somente o melhoramento genético participativo, que foi bastante novo e revolucionário há dez anos", disse Conny Almekinders, da Universidade de Wageningen, da Holanda. De acordo com ela, o programa agora é uma verdadeira fonte de "inovação rural", com "elementos de gênero, de comercialização e de processamento de alimentos".

 

O Prêmio Ambiental Goldman foi criado em 1990 e reconhece o trabalho de "ecologistas de base" cujas iniciativas tenham forte impacto comunitário. É difícil quantificar os resultados do programa de Ríos, mas em todas as comunidades nas quais foi aplicado melhorou a qualidade da terra, incentivou a agricultura orgânica e as famílias passaram a contar com mais e melhores produtos.

 

Cerca de 50 mil camponeses se beneficiaram em uma década de projeto, o que implica menos gastos com fertilizantes, uma produção variada de alimentos e semeadores adequados às condições da terra e do meio ambiente locais. Para o país, significa um gasto menor na importação de alimentos.

 

"Tradicionalmente quem tinha a licença de selecionar as sementes eram os cientistas. O que o programa fez foi que todas essas sementes, que estavam nas instituições e nos bancos de genes, passassem a ser de livre acesso [aos camponeses]", comentou Ríos. "Logo facilitamos a eles a experimentação e o intercâmbio, e o próximo passo foi facilitar os resultados."

 

De acordo com Ríos, trata-se de atingir "Uma agricultura diferente, que se baseie na diversidade, na qual os agricultores tenham muito mais participação e na qual os cientistas fortaleçam esses conhecimentos que têm os camponeses".

 

A cada ano, o prêmio Goldman concede US$ 150 mil a um líder de cada um dos continentes do mundo. Esta é a primeira vez que um cubano é escolhido.

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