Ciência tem papel fundamental no desenvolvimento sustentável, diz diplomata

Agente da Unesco afirma que conhecimento científico pode ser um dos 'pilares' da sustentabilidade

Herton Escobar - O Estado de S. Paulo

13 Junho 2012 | 13h55

A ciência deve ser vista como um quarto pilar do desenvolvimento sustentável, que conecta e dá sustentação aos outros três pilares (econômico, ambiental e social). A sugestão é de Luis Valdés, da Comissão Oceanográfica Intergovernamental da Unesco, a agência das Nações Unidas para edução, ciência e cultura.

 

Ele foi um dos palestrantes do Fórum sobre Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Sustentável, evento paralelo à Rio+20 que ocorre na Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio), em que pesquisadores de vários países ressaltaram ontem a necessidade de integração entre conhecimento científico, desenvolvimento tecnológico e políticas públicas para garantir a sustentabilidade do planeta - assim como o sucesso da Rio+20, que começa hoje e vai até o dia 22.

 

A conferência será aberta com o último round de negociações do Comitê Preparatório (PrepCom), incumbido de preparar o documento que será entregue aos chefes de Estado na etapa final do evento para avaliação. De olho nisso, a palestrante Karin Léxen, diretora da Swedish Water House, do Stockholm International Water Institute, cobrou mais engajamento dos cientistas no processo decisório. "Para influenciar políticas, precisamos estar presentes onde as políticas estão sendo formuladas", disse ela. "Esse é o momento para fazermos a diferença."

 

A cobrança, na verdade, vale para o dois lados, segundo vários relatos apresentados ao longo do fórum, que ontem discutiu mudanças climáticas, segurança alimentar e água (segurança hídrica). Cientistas têm de falar mais e negociadores têm de dar mais ouvidos a eles. Karin lembrou como a ciência foi essencial para o reconhecimento político das mudanças climáticas como uma ameaça real, graças aos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), que recebeu até o prêmio Nobel da Paz, em 2007. "Os dados científicos têm de ser traduzidos em cálculos políticos e econômicos", disse.

 

Os pesquisadores enfatizaram a urgência da situação. "Precisamos convencer nossos líderes que o problema é sério e que precisamos de soluções imediatamente", disse Valdés, sobre a conservação e o uso sustentável dos oceanos. Segundo ele, há um enorme vácuo de governança nos oceanos que precisa ser preenchido o mais rápido possível, para permitir a gestão eficiente de seus recursos e serviços ambientais, que incluem regulação climática e produção de alimentos.

 

"Precisamos agir agora para começar a ver os resultados daqui 30 ou 40 anos", disse o pesquisador Roberto Schaeffer, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que falou sobre o setor energético e sua relação com as mudanças climáticas. "As escolhas que fizermos agora vão definir a trajetória do planeta pelas próximas décadas." Se continuarmos na trajetória atual, disse ele, será impossível manter a elevação da temperatura do planeta abaixo de 2°C, limite considerado minimamente seguro com base nos modelos de previsão climática.

 

Outro setor que precisa mudar radicalmente é o da agricultura, segundo o pesquisador Tim Benton, da Universidade de Leeds, na Grã-Bretanha. "Não podemos continuar fazendo o que sempre fizemos, por mais que precisemos produzir comida", disse, ressaltando que os modelos de produção atuais são insustentáveis. Apesar dos avanços em produtividade, a agricultura ainda é uma das principais causas de desmatamento e a atividade que mais consome água no planeta.

 

Além disso, ao mesmo tempo que a produtividade aumentou, a população global também cresceu. Há mais alimentos, mas também há mais pessoas para serem alimentadas, conforme ressaltou Ram Badan Singh, da Academia Nacional de Ciências Agrícolas da Índia. Vinte anos atrás, eram 5,5 bilhões. Hoje são 7 bilhões (das quais quase 1 bilhão ainda passam fome, segundo dados oficiais da ONU). Em 2050, deverão ser 9 bilhões.

 

Singh apresentou a meta da Índia para amenizar o problema, batizada de Visão 20/20/20, que é de aumentar a produtividade agrícola do país em 20%, reduzir as emissões de gases do efeito estufa em 20% e a pobreza, também, em 20%, até 2020. Ele e os outros cientistas enfatizaram ao longo de todo o fórum como todos esses fatores estão inerentemente conectados: clima, recursos hídricos, segurança alimentar, pobreza, conservação ambiental. O que afeta um, de um jeito ou de outro, acaba afetando o outro.

 

"Por tempo demais o desenvolvimento sustentável foi visto como uma questão ambiental. Achávamos que era possível resolver os três problemas isoladamente: o ambiental, o econômico e o social. Agora sabemos que isso não é possível", disse o mexicano Adrian Fernandez, da Comissão sobre Agricultura Sustentável e Mudanças Climáticas. "Não vamos conseguir continuar a alimentar o mundo fazendo as mesmas coisas que fazemos hoje", disse. "Não há outra alternativa a não ser mudar."

 

O fórum na PUC-Rio, organizado pelo International Council for Science (ICS) continua até sexta-feira, com debates sobre ambiente urbano, biodiversidade, conhecimento tradicionais, desastres naturais, energia e economia verde. 

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