Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Chuvas extremas no Brasil e no mundo: entenda o que é o ‘novo normal’ no clima

Grandes chuvas que ocorriam uma vez por década nos anos 1960 já têm uma taxa quatro vez maior

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2020 | 12h06

SÃO PAULO - Nos primeiros 11 dias de fevereiro, a chuva que caiu na capital paulista acumulou 342,7 mm, uma alta de 37% em relação ao esperado para o mês inteiro – 249,7 mm –, conforme registros feitos pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) desde 1943. Essa média histórica é chamada de “normal climatológica”, o que indica que o evento do início desta semana foi anormal. O que se viu neste ano em São Paulo, em Belo Horizonte e vem acontecendo em várias partes do mundo, porém, não pode mais ser considerado exceção. Estamos vivendo o “novo normal” climático.

Se dias como esses, com mais de 100 mm de chuva em 24 horas (entre 9h de domingo e 9h de segunda choveram históricos 114 mm), ocorriam uma vez por década nos anos 1960, atualmente já ocorrem a uma taxa de quatro vezes no período.

Nos anos 1950, praticamente não havia dias com mais de 50 mm na capital paulista; na última década, eles ocorreram de duas a cinco vezes por ano, como detalhou uma equipe de pesquisadores brasileiros publicada nos Anais da Academia de Ciências de Nova York.

Há várias fortes evidências de que a mudança do clima já está em curso. Os cientistas, liderados pelo climatologista José Antonio Marengo, do Cemaden, listaram no estudo vários exemplos recentes dessas chuvas intensas. Um caso isolado, reforçam sempre, não pode ser classificado como decorrência do aquecimento global, mas uma série deles indica que o normal mudou.

Só para citar os mais recentes, eles lembram uma intensa chuva em 23 de novembro de 2018, que alagou ruas e provocou um deslizamento de terra que destruiu uma casa, matando uma pessoa. Quatro meses depois, entre a noite do dia 10 e a manhã do dia 11 de março, choveu na cidade aproximadamente 40% do esperado para o mês. Deslizamentos de terra e inundações rápidas na Região Metropolitana de São Paulo causaram a morte de 12 pessoas.

Espera-se que, com a intensificação da mudanças climáticas, a temperatura suba mais na cidade e o número de eventos extremos também aumente – o que também pode significar a ocorrência de mais secas, como a de 2014.

“Chuvas extremas serão mais frequentes e intensas no futuro, mas vão se concentrar em poucos dias, com longos períodos secos entre os eventos de chuva”, escrevem os pesquisadores. Esse prospecto, dizem, requer dos governantes uma visão de longo alcance para o planejamento da cidade.

Nas chuvas de março do ano passado, o então prefeito em exercício, Eduardo Tuma, disse que “não havia ação preventiva que pudesse corrigir o que aconteceu em SP” . O governador João Doria afirmou que “ainda que tivéssemos todos os piscinões, teríamos danos”.

Nesta segunda-feira, 10, Doria e o secretário de Infraestrutura e Meio Ambiente afirmaram que o temporal foi consequência das mudanças climáticas. “Está chovendo nessa década o que não choveu no século passado”, disse Penido.

Isso é fato, assim como é fato que o processo de urbanização impediu a absorção de chuva pelo solo. A água corre pelo concreto, pelo cimento e causa as inundações relâmpago em casos de temporais intensos, ressaltam os cientistas. Assim como as canalizações de rios e o fato de eles estarem assoreados. Moradias desabam quando ocupam áreas irregulares, que deslizam.

Se não fosse todo esse cenário complexo, só o aumento de chuva não causaria tanto estrago. “Isso agrava os impactos do aumento de temperatura e a intensificação de eventos extremos”, ressaltam os autores. 

Cientistas afirmam que as questões, se já eram urgentes, agora precisam ainda mais rapidamente ser enfrentadas. Assim como trabalhar com médias históricas de chuva do passado para definir vazões não faz mais sentido.

“Só atribuir o problema à mudança climática não resolve. É quase como falar que Deus quis. O que mata as pessoas é a combinação de falta de infraestrutura, com áreas impermeabilizadas, com ocupação em áreas de risco”, diz Marengo.

Os autores desse estudo, mas também de centenas de outros que vêm sendo publicados em todo o mundo, recomendam a necessidade urgente de medidas de adaptação para lidar com o problema.

É preciso reduzir emissões de gases de efeito estufa para conter o aquecimento do planeta, mas é preciso se adaptar para enfrentar as mudanças já em curso e que vão se intensificar ainda mais.

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