Washington Alves/AE
Washington Alves/AE

Chuva que dura o ano inteiro

Projeto aproveita temporada de chuva forte no semiárido para criar minibarragens formadas pelas enxurradas, alimentando lençol freático e garantindo abundância de água no período de seca

Karina Ninni e Marcelo Portela, Enviado Especial, ARAÇAÍ,

21 Março 2012 | 12h29

Em 1982, o agrônomo Luciano Cordoval teve um insight. Passava por uma área erodida em Janaúba, no semiárido mineiro, durante uma chuva forte, quando viu um fenômeno natural que lhe chamou atenção. “A chuva formou uma erosão que levou a terra e, quando isso aconteceu, formou-se uma minibarragem natural, com o assoreamento. Esse fenômeno barrou outra enxurrada que vinha na direção contrária, formando um laguinho.”

Ele explica que, no ato, relembrou o que tinha visto seis anos antes, em um treinamento sobre irrigação em Israel. “Veio tudo à tona. Na época, eu trabalhava na iniciativa privada. Fui lapidando a ideia e, dez anos depois, fui para a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa. Em 1993, o projeto estava maduro para ser colocado em prática no campo”, recorda.

O projeto se chama Barraginhas e já ganhou prêmios de norte a sul do País. A matéria-prima são as enxurradas e a premissa é muito simples: a chuva, no semiárido, é concentrada em determinados períodos. Quando cai sobre o solo muito seco, gera enxurradas, que escavam erosões. “O produtor nos mostra os locais, em sua propriedade, onde se formam esses redemoinhos”, explica Cordoval.

Nos pontos onde o fenômeno é mais violento, uma equipe treinada abre pequenas barragens, de 15 a 20 metros de diâmetro, com no máximo 2 metros de profundidade. A terra retirada vai para as laterais, formando um anel protetor que segura o lago.

“Quando chove forte, essas pequenas barragens vão reter a enxurrada. Em cinco a dez dias, a água vai infiltrar no solo. Dependendo do solo, demora até 15 dias. Essa água vai ser guardada no subsolo, no lençol freático”, explica Cordoval. “Dali a 10, 15 dias, vai chover de novo. Aí, a água da chuva anterior já infiltrou e abriu espaço.”

O processo eleva o nível do lençol freático, tanto que, depois de alguns anos, os produtores passam a ter outras possibilidades de geração de renda, como a construção de lagos impermeabilizados para criação de peixes.

Zezinho Brandão, morador do Vale do Jequitinhonha, conseguiu fazer lagos lonados para aproveitar a água farta e sustentar criatórios de peixes. Quando colheu a primeira safra de pescado, ele distribuiu para os vizinhos e até mandou para a filha, que mora em São Paulo.

“Mandei no isopor com gelo, de ônibus. Três dias depois, ela me ligou e disse: ‘Pai, comi peixes e ainda tem fresco na geladeira’. Já pensou, o Vale do Jequitinhonha, vale da miséria, mandando peixes para ‘Sum Paulo’?”

Abundância. História parecida conta o aposentado Geraldo Saldanha de Oliveira, de 60 anos, que há 15 comprou um lote de dois hectares de terra na comunidade Fazendinhas Pai José, na zona rural de Araçaí (MG).

Oliveira pouco sabia sobre o terreno e achou que realizaria o sonho de viver do que produzia na própria terra. Nascido em Conceição do Mato Dentro, na região central de Minas, estava acostumado à abundância de água por causa da profusão de nascentes e rios na área e nem imaginou que o terreno que acabava de comprar tinha o solo duro, seco e hostil à maioria das culturas que pretendia ter.

“Eu dei uma olhada no terreno, estranhei um pouco o solo (cheio de cascalho), mas não sabia que ia ser assim. Plantei cana e milho e buscava água em um córrego para jogar na lavoura. Mas, na mesma semana, já estava tudo seco de novo. Perdia tudo”, lembra.

Há cerca de três anos, ele começou a escavar barraginhas em seu terreno e em lotes próximos. Ele acaba de colher 350 quilos de feijão, outros tantos de milho, e mostra com orgulho o belo canavial. O feijão, além de encher a panela, reforça a aposentadoria. O milho, que também alimenta a família, é usado para engordar os porcos e vacas, enquanto a cana-de-açúcar é transformada em rapadura e vendida.

Além disso, ele ainda tem no terreno um pomar repleto de pés de banana, jabuticaba, abacate, manga e maracujá e uma horta onde colhe uma infinidade de verduras e legumes. A fartura é tanta que Oliveira vende parte da produção, toda feita sem agrotóxicos, para a prefeitura local, que faz merenda escolar com os alimentos. Do terreno seco e pedregoso, sobraram apenas alguns pés de pequi. “Era a única coisa que tinha na terra. E não gosto muito”, disse.

Hoje há tanta água na região que Oliveira, para “tirar o estresse”, como ele mesmo diz, vai para a beira do lago lonado que tem ao lado da casa e joga ração para um cardume de tilápias. “Fico calmo de novo.”

Particular. Enquanto as comunidades mais carentes se beneficiam do patrocínio das entidades que apoiam o projeto para escavar suas minibarragens, os produtores com mais recursos pagam por conta própria para tê-las em seus terrenos. O pecuarista André Valadares Cunha, de 39 anos, tem duas fazendas com cerca de 1 mil hectares e, nos últimos anos, construiu 300 barraginhas nas propriedades onde cria gado de corte. “Sem as elas, o capim secava logo. Em parte do ano tinha de confinar 60% do gado para tratar no cocho (com ração).

Aumentava em até 80% o meu custo. Hoje, trato no máximo 20% do gado no cocho. O pasto dura mais e regenera mais rápido. E o gado precisa andar menos para beber, porque a água está ao lado”, comemora.

O lençol freático ficou tão carregado que, quando o pecuarista tentou cavar novos reservatórios, eles se encheram na hora, mesmo em período de seca. “Agora, apareceu um olho d’água no meio do Cerrado. Vou fazer mais umas 20 (barraginhas) neste ano”, concluiu.

Escala. Embora o projeto se mostre muito indicado para pequenos e médios produtores, segundo especialistas, não é a solução mais indicada para os grandes fazendeiros.

“É claro que centenas de barraginhas podem melhorar a produtividade do agricultor, mas não dá para pensar nessa solução para grandes extensões de terra. Para os que trabalham com agricultura de subsistência, funciona”, opina o pesquisador da área de irrigação do Instituto Agronômico de Campinas, Emílio Sakai.

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