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A China e o aquecimento global

'Pequim começa a avaliar os perigos que correm a terra e a espécie humana. Mas Hollande pede um pouco mais de esforço'

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

03 Novembro 2015 | 06h00

François Holland parece hiperativo. Não descansa. Em poucos meses fez um tour por países que nunca visitou: as ilhas do Pacífico, Islândia, Caribe, África subsaariana, Filipinas. E no fim de semana partiu para uma capital mais majestosa do que Reykjavik: Pequim. Todas essas viagens, uma atrás da outra, têm o mesmo objetivo: esfriar um pouco a terra.

A França organiza a conferência sobre o aquecimento global, a COP 21, que se realizará em Paris de 30 de novembro a 15 de dezembro. Uma grande honra, uma nobre missão. E também um grande perigo.

Se a conferência for um fracasso, como foi a de Copenhague em 2009, a França será responsável e o termômetro mundial continuará a subir e subir. O Polo Norte derreterá. As tempestades sacudirão mares e terras. Animais morrerão de calor ou migrarão. O mar invadirá as terras baixas e as canículas estivais semearão a morte.

É por isso que Hollande, desde suas primeiras semanas de governo, dedicou suas energias para fazer desse encontro planetário um sucesso ou talvez, nunca se sabe, um triunfo. Ele uniu seu destino ao do termômetro mundial. Ora, seja o futuro de Hollande ou do grau Fahrenheit, o fato é que a questão parece mal encaminhada. 

Há seis meses a França vem fazendo o tour dos países poluidores para exortá-los. Ela obteve resultados, mas são pequenos. Se contabilizarmos todas as promessas feitas pelos países emissores de gases poluentes, poderíamos calcular que a temperatura do mundo aumentaria não 6%, como preveem os cientistas, mas apenas 2%, talvez 3%. O que seria um avanço, mas dramaticamente insuficiente. O desastre não teria sido conjurado.

Com um aquecimento de 2%, um verão a cada quatro será “canicular”, tão devastador como o de 2003 que matou 15.000 pessoas na França. Se o aumento for de 3% o glaciar da Groenlândia vai acelerar seu derretimento e desaparecerá inteiramente no fim do século. Neste caso o nível dos oceanos subirá sete metros. Sete metros!

Eis porque Hollande, com uma escolta de 80 especialistas, passará dois dias na China, antes de fazer uma parada na Coreia do Sul, por causa da sua população, sua atividade industrial e a sua despreocupação já que se trata da maior produtora de gases com efeito estufa (25% do total mundial. Mais do que os Estados Unidos).

É verdade que Pequim tem se empenhado. Em 2014 jurou a Obama que em 2030 as suas emissões de fases cessariam de aumentar. Em junho deste ano Pequim pronunciou-se em favor de um mercado nacional de créditos de carbono até 2017. Pequim começa a avaliar os perigos que correm a terra e a espécie humana. Mas Hollande pede um pouco mais de esforço.

Com o delegado chinês para o clima, Hollande discutirá uma questão delicada: o “controle permanente” dos compromissos que serão assumidos pelos 195 membros da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. A França exige que seja instituído um “mecanismo de revisão” a cada cinco anos, acompanhado de um acordo que obrigue juridicamente as partes. 

A China faz ouvidos de mercador. E rejeita a ideia de um acordo que seja obrigatório. Aceita apenas um diálogo amigável.

Como acreditar que um diálogo, mesmo amigável, possa intimidar o flagelo mortal do aquecimento, sabendo que os atores desse aquecimento, são cabeças frias que não se incomodam nem com a amizade, a razão ou a sobrevivência do planeta?

Em Paris a opinião é que só poderemos alimentar o sonho de um aquecimento estabilizado em 2% ao ano se um mecanismo de controle permanente duríssimo for assinado, atestando as promessas feitas nessa conferência a se realizar dentro de um mês.

Acrescentemos que essa conferência sobre o clima, se for um real sucesso, será a última chance para Holande conseguir se reeleger em 2017. Isto quer dizer que sua reeleição não está certa. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS

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