Chefe da BP diz que indústrias têm de mudar para evitar acidentes como o do Golfo

Robert Dudley afirmou que a BP está pronta para dividir o que aprendeu

The New York Times

09 de março de 2011 | 20h00

Em seu primeiro discurso dirigido aos executivos da indústria petrolífera desde que se tornou chefe da BP, Robert Dudley afirmou que a indústria precisa mudar para prevenir outro vazemento devastador como o que a empresa protagonizou no ano passado, no Golfo do México.

"Acredito que seria um erro tratar nossa experiência do ano passado simplesmente como um 'cisne negro' - algo que acontece uma vez em um milhão e cuja ocorrência não pode servir de exemplo ao nosso negócio", disse Dudley em uma conferência com executivos. "Creio que a indústria também tem a responsabilidade de mudar."

Ele abraçou as descobertas feitas pela comissão presidencial de investigação, que chegou a conclusões parecidas com as suas, e disse que a BP estava pronta para dividir o que aprendeu.

Os comentários de Didley estavam em franco contraste com os pronunciamentos dos executivos sênior da indústria petrolífera, que afirmavam que suas empresas haviam projetado poços de forma diferente dos da Macondo, que um ano atrás originou um desastre que matou 11 trabalhadores e vazou milhões de barris de petróleo no Golfo do México. Esses executivos disseram na época que o acidente não teria acontecido se os trabalhadores da plataforma e seus supervisores tivessem seguido os procedimentos da indústria, realizado testes adequados e sido devidamente treinados.

O executivo chefe da Exxon Mobil, Rex T. Tillerson, repetiu recentemente sua posição em uma conferência em Austin, no Texas, afirmando: "Eu não concordo que este seja um problema do nosso setor industrial."

Desde que ele assumiu como chefe executivo no último outono, Dudley tentou reposicionar a BP retomar uma sensação de calma e confiança. As ações da companhia recuperaram bem mais da metade do valor perdido quando o preço dos papéis afundaram após o vazamento. Ele vendeu milhares de milhões de dólares em ativos para pagar os danos do acidente do Golfo. Ele colocou à venda metade dos ativos de refino da BP nos Estados Unidos, incluindo a gigante da refinaria de Texas City, onde 15 trabalhadores foram mortos em uma explosão em 2005, em um esforço para levantar U$ 5 bilhões.

Mas Dudley também tentou guiar a companhia para um caminho de retomada do crescimento. Ele alinhou mais de 30 projetos em todo o mundo, incluindo Rússia, Índia e Canadá.

Duas semanas atrás, a BP anunciou que pagaria US$ 7,2 bilhões para adquirir parte do capital de 23 campos de óleo e gás operados pelas Indústrias Reliance, a gigante indiana do petróleo. A BP vai oferecer sua experiência em exploração em profundidade no mar, como sinal de que o acidente do ano passado não afetou sua habilidade ou desejo de continuar atuando nesse campo.

 

O acordo Reliance aconteceu algumas semanas após a BP fechar um trato de US$ 7,8 bilhões com a empresa russa Rosneft para perfurar no Ártico. Esse negócio era visto como um golpe da BP para ter acesso às licenças de exploração de uma das últimas fronteiras gigantes do gás e petróleo no mundo.

 

O aval de Moscou foi visto como particularmente estratégico, já que a Rússia é agora a maior produtora de petróleo do planeta.

 

Um parceiro russo da BP, a TNK-BP, tentou frear o acordo em uma corte de Londres, alegando que violava tratos feitos previamente. Na semana passada, o primeiro-ministro Vladimir V. Putin, da Rússia expressou frustração, dizendo que a BP tinha oferecido falsas garantias de que o acordo Rosneft não violaria os contratos da BP com seus outros parceiros russos.

 

Os analistas de Wall Street dizem que a empresa se beneficiou de um relatório da comissão presidencial de investigações que, ao se debruçar sobre a explosão fatal, considerou não apenas a BP como responsável, mas também o empreiteiro Halliburton e a Transocean, proprietária da Horizon Deepwater, por uma série de erros que levaram ao acidente .

"A divisão da culpa leva as pessoas a pensar que a BP não foi grosseiramente negligente", uma situação legal que poderia multiplicar multas futuras, disse Matti Teittinen, vice-presidente e analista sênior de ações no IHS Herold.

 

Em seu discurso, Dudley afirmou que a empresa introduzira novos padrões de segurança. Ele também disse que a companhia já havia interferido várias vezes para cessar operações ao sentir que ações corretivas seriam necessárias.

Mas os analistas de Wall Streer ainda estão céticos com relação ao futuro da empresa. "Não creio ainda na recuperação", afirmou Brian Youngberg, analista senior de energia no Edward Jones. "Ainda há incerteza sobre os passivos do vazamento e não há um verdadeiro catalisador para saber como esta empresa pode crescer ao longo dos próximos três anos."

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