Herton Escobar/ESTADAO
Herton Escobar/ESTADAO

Centro de soltura precisa ser criado na caatinga

Processo de adaptação vai incluir uso de maracanãs; último macho visto na natureza fez par com uma fêmea da espécie por ano

Herton Escobar, O Estado de S. Paulo

31 Outubro 2015 | 15h23

CATAR - O calor seco do deserto catariano não deixa nada a dever para o do sertão nordestino; mas está longe de ser uma Caatinga. Para maximizar as chances de sobrevivência da ararinha-azul na natureza, dizem os especialistas, é importante que as aves selecionadas para a reintrodução sejam nascidas e criadas no hábitat original da espécie, adaptadas desde o início às condições locais de temperatura, umidade, iluminação, alimentação, etc.

Para isso será necessário construir um centro de reprodução e soltura de ararinhas-azuis na própria Caatinga; de preferência em Curaçá, município onde viveram os últimos exemplares conhecidos da espécie na natureza, e que tem grande parte desse hábitat original ainda preservado. Essa foi uma das prioridades identificadas na reunião do Catar para a continuidade do Plano de Ação Nacional (PAN) da Ararinha-azul no Brasil - até como uma exigência dos criadores para enviar mais aves ao País no futuro.

“Precisamos ter ararinhas se reproduzindo na Caatinga o quanto antes; isso é crucial”, esbravejou Martin Guth, presidente da Associação para Conservação de Papagaios Ameaçados (ACTP), na Alemanha, dono de um plantel de 12 ararinhas-azuis.

Ele propôs que o centro seja construído em 2016 e os experimentos de reintrodução comecem o mais rápido possível depois disso. Ideia acatada pelo grupo que soou como música aos ouvidos do biólogo Pedro Develey: “Tá na hora de soltar; não dá para esperar mais”, diz. “O único jeito de aprender é fazendo.”

Segundo ele, é inevitável que algumas ararinhas serão perdidas: “Não existe projeto de reintrodução de fauna que não tenha perdas, faz parte do processo”. Mas é um custo que já pode ser assumido, uma vez que a população de cativeiro vem crescendo de maneira estável. 

A estratégia traçada pelo grupo seria fazer um primeiro experimento com araras de uma outra espécie local, chamada maracanã (que não está ameaçada), para ver como as aves criadas em cativeiro se adaptam ao ambiente inóspito da Caatinga. Por exemplo, se conseguem achar alimento, construir ninhos e evitar ataques de predadores naturais, como corujas e gaviões.

O segundo passo - se esse primeiro teste der certo - seria soltar algumas ararinhas-azuis misturadas com maracanãs. Os cientistas sabem que as espécies convivem bem e se ajudam na natureza, pois o último macho livre de ararinha-azul passou anos “casado” com uma maracanã, quando já não havia mais fêmeas da sua própria espécie para lhe fazer companhia.

Ninguém sabe ao certo o que aconteceu com esse último macho. Um vaqueiro disse tê-lo visto morto debaixo de um fio de alta tensão; mas a história que circula entre os traficantes da região, segundo Kilma Manso, ambientalista que trabalhou muitos anos na Polícia Federal, é que ele foi capturado e vendido por meio milhão de dólares.

O risco de as ararinhas voltarem a ser alvo dos traficantes é uma preocupação constante do projeto. Segundo Develey, é preciso trabalhar em parceria com os comunidades locais, para que elas sejam as guardiãs das aves na natureza. “A população de Curaçá está muito engajada e aguarda ansiosamente o retorno das ararinhas”, diz.

Outra expectativa é com relação à criação de uma área protegida na região. “Não basta reproduzir em cativeiro; temos de proteger o seu hábitat, e isso é responsabilidade do Brasil”, diz Develey. Uma proposta para criação de uma Área de Relevante Interesse Ecológico, de 44 mil hectares, que cobriria a maior parte desse hábitat, está em análise desde 2013 pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). “Se criarem a área protegida, mandamos mais ararinhas”, diz Guth.

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