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Casal inventa ‘ouvido biônico’ antivazamentos em tubulações

Falta d’água gera ideias inovadoras para ajudar a conter perdas no sistema de distribuição de forma mais rápida

Eduardo Geraque, especial para o Estado

23 Outubro 2018 | 04h30

SÃO PAULO - A preocupação em fazer diferença no campo da sustentabilidade e a perspectiva real de falta de água entre 2014 e 2015, durante a aguda crise hídrica, geraram várias ideias inovadoras que se mostraram não apenas importantes do ponto de vista ambiental como também boas oportunidades de negócio para os profissionais que mergulharam no caminho do empreendedorismo.

Em São Paulo, o casal Marília Lara e Antônio Oliveira, mesmo não sendo da área de saneamento, resolveram apostar em uma ideia em 2015 que vem se mostrando viável. “Nós queríamos investir em algo que fizesse diferença para o planeta”, afirma Marília, administradora com mestrado em marketing.

Oliveira, engenheiro e matemático formado pela Universidade de São Paulo (USP), largou a área para juntos começarem a investir na Stattus4. Eles conseguiram um financiamento público da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para deslanchar uma incubadora, hoje premiada, dentro do parque tecnológico de Sorocaba.

Em um primeiro momento, conta Marília, eles pesquisaram, junto a empresas que distribuem água nas cidades, se a perda nas tubulações era algo importante para o negócios delas. E descobriram que o impacto dos vazamentos é grande para o setor de saneamento, ainda mais em áreas que vivem em constante estresse hídrico, como é o caso de São Paulo. 

Resolveram desenvolver uma espécie de “ouvido biônico” para escutar vazamentos nas tubulações de água dos centros urbanos. A técnica é adaptada do trabalho dos geofonistas, profissionais especializados em procurar vazamentos nas redes com o uso do geofone - uma haste de alumínio que, por meio do ruído dos vazamentos, identifica onde pode estar o problema.

“Nós desenvolvemos um sensor que é instalado nos hidrômetros. Eles gravam o ruído da água no equipamento por alguns segundos e, por meio de um aplicativo, enviam estes áudios para a nuvem”, diz Marília.

A inteligência artificial dos computadores vai analisar depois, com base em um banco de dados com milhares de amostras, qual ruído gravado no campo mais se assemelha ao som de um hidrômetro que já tenha de fato registrado um vazamento. “São analisadas 70 características acústicas em um trecho de quatro segundos de gravação. Esta análise, depois, é jogada sobre o mapa da cidade, e os prováveis locais com problema aparecerão em vermelho.”

Segundo Marília, o sistema não identifica o local exato do vazamento, o que pode vir a ocorrer no futuro, mas reduz o tempo de vistoria que precisa ser feito no campo. “Em um projeto piloto em Votorantim, que tem 160 mil habitantes, nós reduzimos o tempo de exploração da cidade em um terço”. 

Pelas contas da empresária, se antes a empresa de distribuição de água da cidade demorava de 12 a 15 meses para vistoriar todos os hidrômetros da sua rede, com a aplicação do sistema do ouvido biônico isso caiu para 4 a 5 meses. “A área de ação caiu de 100% para 1%”, afirma Marília. “Nosso sistema já foi testado em 23 cidades do Brasil e vamos para outras em breve.”

Irrigação e filtragem

Da cidade para o campo, outra ideia inovadora premiada nos últimos anos é a da Agrosmart. “A empresa nasceu em 2014 para ajudar o agricultor com a irrigação da lavoura. Faltava muito informação na agricultura”, afirma Guilherme Raucci, responsável pela área de sustentabilidade da empresa, hoje uma das maiores da América Latina no setor. Os fundadores da empresa são netos e filhos de agricultores e conheciam, no dia a dia do campo, as dificuldades do setor.

Unindo tecnologia e a ciência de dados, o sistema oferecido ao agricultor permite que ele tenha informação personalizada sobre as chuvas nas diversas partes de sua propriedade, sem precisar vistoriar o campo. Os sensores desenvolvidos pela empresa coletam informações de forma automática, sem passar pelas redes de celulares ou de internet. Eles geram, depois, mapas de chuva específicos para a propriedade analisada. 

Com os dados, o produtor não vai conseguir apenas economizar água, segundo Raucci. “Ao identificar as mudanças do clima na região e quanto realmente choveu na sua propriedade, a tomada de decisão por parte do agricultor fica mais fácil. Vai fazer com que ele não apenas economize água e energia, mas que melhore a produtividade de uma forma geral. Melhora toda a qualidade da produção.”

Inovação também vem sendo aplicada para despoluir água, solo e ar. Este é o objetivo dos chamados “jardins filtrantes”, da Phytorestore Brasil. A empresa, que surgiu na França há 30 anos como fruto de um trabalho do arquiteto paisagista Thierry Jacquet, desenvolve projetos sustentáveis com valorização arquitetônica e paisagística dos locais. No Brasil, um dos principais projetos é com a L’Oreal, no Rio, em que os jardins são usados para tratar águas pluviais e resíduos industriais e sanitários. Ainda há reúso para irrigação e nos banheiros.

Desperdício

37% em média é o que se perde no Brasil entre captação e distribuição.

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