Carvão põe China na liderança de emissões

País tem 20 cidades mais poluídas; doenças ligadas à má qualidade do ar e da água matam mais a população

Cláudia Trevisan,

05 Junho 2008 | 00h17

A China paga um pesado custo humano e ambiental pelo feroz e incessante crescimento das últimas três décadas. O país, que acaba de assumir a liderança mundial na emissão de gases que provocam o efeito estufa, tem 70% de seus rios, lagos e reservatórios poluídos, recebe chuva ácida em 30% de seu território, abriga 20 das 30 cidades mais poluídas do mundo e vê milhares de seus habitantes morrerem prematuramente de doenças relacionadas à má qualidade do ar e da água.O uso do carvão como principal fonte de energia responde por muitos desses problemas. A China é o segundo maior consumidor de energia do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, e 68% da demanda é atendida pelo carvão, o mais poluente dos combustíveis fósseis.A forte industrialização e rápido ritmo de urbanização são outros fatores de degradação dos recursos naturais do país. Entre 2000 e 2006, o número de habitantes nas cidades aumentou em 120 milhões, para um total de 580 milhões.A elevação na renda que acompanha o crescimento econômico leva milhões de chineses a trocarem a bicicleta pelo carro. Em 2006, a China ultrapassou o Japão e se tornou o segundo maior mercado automobilístico do mundo, com vendas que devem chegar a 9,5 milhões de unidades em 2008. Mesmo com esse aumento, a China tem uma relação de 44 carros para cada grupo de mil habitantes, cerca de um terço da média mundial de 120 por mil e a anos-luz dos 750 por mil registrados nos Estados Unidos. Isso significa que o número de carros nas ruas da China continuará a crescer fortemente nos próximos anos, na medida em que a renda do 1,3 bilhão de chineses aumente. O mesmo raciocínio se aplica às emissões de gases que provocam efeito estufa. Apesar de liderar o ranking mundial, a China tem emissão per capita que corresponde a um quinto da dos norte-americanos.PREJUÍZOSEstudo divulgado no ano passado pelo Banco Mundial estimou que a poluição gera perdas anuais equivalentes a 5,8% do PIB chinês, algo como US$ 200 bilhões, considerando o tamanho da economia e a taxa de câmbio atuais. A maior parte – 4,3% do PIB – é relacionada à morte prematura de pessoas vítimas de doenças provocadas pela má qualidade do ar ou da água.O restante (ou seja, 1,5%) diz respeito aos danos materiais, incluindo prejuízos agrícolas relacionados à contaminação da terra e das águas.O jornal inglês Financial Times publicou reportagem em julho de 2007 na qual afirmava que, a pedido do governo chinês, o Banco Mundial havia retirado da versão preliminar do estudo a estimativa de que 760 mil pessoas morrem prematuramente a cada ano no país em decorrência da poluição. O argumento usado era o de que a informação, considerada "muito sensível", poderia gerar "instabilidade social" – o governo chinês patrocinou o estudo em conjunto com o Banco Mundial. O prefácio da versão publicada afirma que algumas das estimativas haviam ficado fora do estudo em razão de "incertezas" relacionadas à metodologia de cálculo aplicada.As autoridades chinesas sabem que estão diante de uma crise ambiental grave. A exaustão dos recursos naturais ameaça a própria manutenção do crescimento, que registrou uma média de 10,6% ao ano desde 1978.O FUTUROO Plano Qüinqüenal para o período 2006-2010 prevê o aumento de 7% para 10% da participação das fontes renováveis na matriz energética e a redução em 10% das emissões de gases poluentes. O problema é que 10 das 13 metas ambientais previstas no plano anterior não foram cumpridas. A pressão do crescimento econômico levou a um aumento de 70% no consumo de energia entre 2000 e 2005 e 75% dessa expansão foi atendida pela queima de carvão. Para conseguir reduzir o consumo de combustíveis fósseis, o governo elevou de maneira dramática os investimentos em fontes renováveis de energia. Em 2005, de acordo com o World Watch Institute, o país liderou os investimentos no setor em todo o mundo, com US$ 6 bilhões, excluídos os gastos em grandes hidrelétricas. No ano seguinte, o investimento foi de US$ 10 bilhões, superado apenas pelo da Alemanha.

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