Carbono da Amazônia se concentra em áreas protegidas e aldeias

Carbono da Amazônia se concentra em áreas protegidas e aldeias

Pesquisa apresentada na abertura da COP-20 alerta que as áreas, fundamentais para estabilizar clima global, estão ameaçadas

FÁBIO DE CASTRO, O Estado de S. Paulo

03 Dezembro 2014 | 20h35

SÃO PAULO - As terras indígenas e áreas protegidas de nove países sul-americanos concentram 55% de todo o carbono da Amazônia, de acordo com um novo estudo divulgado nesta quarta-feira, 3, na abertura da 20a Conferência das Partes sobre Mudança Climática (COP-20), em Lima (Peru). De acordo com a pesquisa, por conta da grande quantidade de carbono, essas áreas são fundamentais para a estabilidade do clima global, mas estão ameaçadas pela mineração, pelo desmatamento ilegal, pela construção de barragens e por projetos agrícolas. O estudo será publicado na próxima edição da revista Carbon Management.

A pesquisa mapeou o carbono existente nos territórios indígenas e áreas de proteção, combinando medições de satélite de conteúdo de biomassa com registros obtidos em campo. A equipe, formada por cientistas, especialistas em políticas públicas, redes panamazônicas de indígenas e várias ONGs, foi liderada pelo Centro de Pesquisa Woods Hole (WHRC), a Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (Raisg), a Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (Coica) e o EDF (Environmental Fund Defense). "Até recentemente, uma análise desta magnitude não teria sido possível. Agora, a disponibilidade de dados espaciais consistentes e precisos sobre a Amazônia fez uma enorme diferença ", disse Alessandro Baccini, do WHRC. 


Segundo o estudo, 2.344 territórios indígenas e as 610 áreas naturais protegidas ocupam uma área de 4,1 milhões de quilômetros quadrados - correspondente a 52% da Amazônia -, em nove países. Essas áreas garantem benefícios ambientais de importância global, incluindo a estabilização do clima pelo sequestro de carbono pela biomassa florestal. Diminuir a cobertura florestal significa lançar esse carbono na atmosfera. 

De acordo com os autores, os territórios indígenas e áreas protegidas são consideradas a pedra angular para a conservação amazônica, por formarem barreiras sociais e naturais diante do avanço da fronteira agrícola e dos incêndios florestais. "Em países como o Brasil, com histórico de altos índices de desmatamento, estas áreas são consideradas elementos centrais das estratégias orientadas a evitar as emissões de dióxido de carbono por desmatamento e degradação florestal", diz o estudo.

O estudo mostra que os estoques de carbono ameaçados em terras indígenas e áreas protegidas correspondem a uma área de 1,4 milhões de km2, cerca de 18% da Amazônia. Esses territórios, segundo o estudo, estão ameaçadas pelo corte legal e ilegal de madeira, pela construção de novas estradas e barragens, pela expansão da agricultura comercial e das indústrias de minérios e de petróleo. 

De acordo com um dos autores, Edwin Vásquez, presidente da Coica, o trabalhou revelou uma pressão sem precedentes nos territórios - especialmente em países onde os governos não reconhecem ou respeitam os direitos territoriais indígenas. "Agora fica evidente que onde os direitos são fortes, as florestas estão em pé. E sabendo que temos mais da metade do carbono da região nos territórios indígenas e áreas protegidas, podemos dizer a nossos governantes que fortaleçam o papel e os direitos dos povos indígenas das florestas", disse Vásquez.

Outro dos autores, Beto Ricardo, do  Instituto Socioambiental (ISA), afirmou que se todos os projetos de desenvolvimento econômico atualmente previstos para a Amazônia fossem implementados, a região se converteria em uma gigantesca savana, com ilhas de floresta. "Uma importante proporção dos territórios indígenas e áreas protegidas se encontra em situação de risco, com consequências potencialmente desastrosas incluindo 40% dos territórios indígenas, 30% das áreas naturais protegidas e os 24% que correspondem a ambas as categorias, por se tratar de áreas de sobreposição", afirmou Ricardo.

Os autores alertam que quase 14% do carbono ameaçado nas terras indígenas da Amazônia está em territórios que não têm reconhecimento oficial dos governos. Segundo eles, a demarcação dessas terras é uma medida urgente.

O estudo estima ainda em US$ 2 bilhões a US$ 4 bilhões o custo para criar e consolidar terras indígenas e áreas de proteção, além de cobrir os custos administrativos e de monitoramento dessas áreas. De acordo com os autores, o valor "representa uma soma manejável na escala dos atuais acordos para reduzir o desflorestamento".

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