Capital da Rio+20 é insustentável

Cercado de verde, Rio decepciona com praias poluídas e baixo índice de coleta de lixo e saneamento

Clarissa Thomé e Heloísa Aruth Sturm - O Estado de S. Paulo,

30 Maio 2012 | 09h50

Limpeza das praias é desafio para a administração do Rio de Janeiro. Foto: Marcos de Paula

 

RIO - Cidade que vai abrigar a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, o Rio está longe de ser uma capital verde. A cidade acumula problemas - esgoto que contamina praias e lagoas, falta de coleta seletiva, transporte concentrado em ônibus - e seus moradores ainda resistem a abandonar hábitos pouco ecológicos, como as sacolinhas plásticas. Em resumo, a sede da Rio+20 ainda não fez o dever de casa ambiental.

 

Os problemas são nítidos nas áreas onde vão ocorrer os eventos da conferência. Quem frequentar a Cúpula dos Povos, no Aterro do Flamengo, parque de 1,2 milhão de m² de cara para o Pão de Açúcar, vai conviver com a poluição da Baía de Guanabara. São jogados 15 mil litros de esgoto por segundo no local, que espera há 20 anos a conclusão do programa de despoluição.

 

O Rio é um dos poucos lugares a ostentar duas imensas áreas florestais no coração da cidade: a Floresta da Tijuca e o Parque Estadual da Pedra Branca. A cidade tem 34,7 mil hectares de vegetação natural e 2,2 mil hectares de áreas reflorestadas (30,3% do seu território), o equivalente a mais de 230 Parques do Ibirapuera, segundo dados do município.

 

É a cidade com maior cobertura vegetal do País - cerca de 700 mil árvores plantadas em calçadas e canteiros compõem a arborização urbana do Rio. Mas quem transita somente pelas zonas sul e oeste da cidade, regiões turísticas que servem de cenário para os principais cartões-postais do Rio, não imagina que a capital carioca apresenta, em diversos pontos, uma grande escassez de áreas verdes.

 

Jardins. Enquanto a cidade tem uma média de 55 m² de área verde por habitante, bem acima dos 12m² recomendados pela Organização Mundial da Saúde, a zona norte registra apenas 3,75. Se considerarmos apenas a área verde pública de lazer, como parques e jardins, o índice cai para 0,6 - pior do que o verificado no extremo leste de São Paulo.

 

Na zona oeste, as ligações clandestinas de esgoto e o lixo fazem as lagoas da Baixada de Jacarepaguá agonizar há anos. São lagoas vizinhas ao Riocentro, sede da conferência da ONU. Em alguns pontos, estão tão assoreadas que a profundidade é de menos de meio metro.

 

"Essa região teve um crescimento urbano muito rápido e a infraestrutura sanitária não acompanhou", explica Fátima Soares, gerente de Avaliação de Qualidade das Águas do Instituto Estadual do Ambiente (Inea).

 

A zona oeste tem o pior indicador de saneamento básico de toda a cidade. Apenas 79% dos domicílios estão conectados à rede de esgoto, e ainda ocorre o lançamento em valas, rios ou no mar.

 

É nessa área que fica a região de Guaratiba, onde se localiza uma reserva ecológica de 36 km². Ali, cerca de 18% de todo o esgoto é lançado em valas e quase 6% vão direto para lagos e o oceano - média inferior à da cidade, que registra 2,24% de esgoto a céu aberto e 1,43% nas águas.

 

Mas uma das situações mais graves é registrada no Alto da Boa Vista, na região da Floresta da Tijuca, zona norte. O bairro de classe alta possui rede de esgoto em apenas 66% dos domicílios. Em 14% das residências, tudo é despejado em fossas rudimentares, e em 11% dos casos o esgoto é lançado no rio.

 

As famosas praias da zona sul também foram afetadas pelo esgoto. No último verão, a do Leblon, por exemplo, só foi considerada própria por dois dias. Dois projetos, ao custo de R$ 650 milhões, preveem a despoluição das praias até 2014 e das lagoas, até 2016.

 

O desafio do lixo. Embora a prefeitura vá fechar o Aterro de Gramacho, o maior da América Latina, em 1.º de junho, a questão do descarte do lixo está longe de ser resolvida.

 

A coleta seletiva atinge poucas ruas de 41 dos 160 bairros. A quantidade de lixo separada na cidade ao longo de todo o ano passado, 7, 1 mil toneladas, é próxima do que São Paulo reciclou só no bairro de Vila Mariana - 6,7 mil toneladas. No Rio, a coleta seletiva se restringe a 0,3% das 152 mil toneladas de dejetos coletados por mês.

 

Promessa. O prefeito Eduardo Paes (PMDB) promete uma cidade mais verde até 2016. "Agora é que podemos começar a pensar em lixo reciclado. Como eu ia pensar em reciclagem em uma cidade que não tinha um centro de tratamento de resíduos adequado? Agora estamos fazendo dez centros de reciclagem em uma primeira parceria com BNDES, em um investimento de R$ 60 milhões. O programa de despoluição das lagoas está em execução, financiado pelo governo federal. Tem avanços, mas o caminho é longo", reconhece.

 

Angela Fonti, presidente da Companhia Municipal de Limpeza Urbana, promete "ação mais agressiva" para reduzir a informalidade na coleta seletiva. "Mas a gente precisa também que a sociedade entenda que tem de reciclar materiais."

 

É a falta de participação popular que compromete a aplicação da lei das sacolas, diz o coordenador de Fiscalização do Inea, José Maurício Padrone. Desde julho de 2010, o consumidor tem direito a R$ 0,03 de desconto na conta a cada cinco produtos que compra e dispensa o uso da embalagem descartável. Não pegou: ou a população não leva a sua sacola retornável ao mercado ou o próprio estabelecimento não dá o desconto. Em dois anos, 134 comércios foram fiscalizados e 34, multados.

 

A estimativa é de que 2 bilhões de sacolas deixaram de ser distribuídas. "Isso é um problema de mentalidade e de educação, e não é só do carioca, é um problema nacional. A pessoa tem aquela visão de que é a favor, acha muito bom, mas não se vê como agente participativo direto", diz Angela.

 

"Isso tem de se transformar em disposição por ações proativas, é um desenvolvimento de mudança de hábitos", afirmou Carlos Alberto Muniz, vice-prefeito e secretário de Meio Ambiente do Rio de Janeiro. 

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