Divulgação/Idesam
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Como o café orgânico ajuda a reduzir o desmate em cidade no sul da Amazônia

Projeto-piloto na cidade de Apuí vai crescer depois de aporte de R$ 11 milhões; pés da planta são semeados perto de espécies nativas com o objetivo de evitar a perda florestal e o desgaste do solo

Eduardo Geraque, especial para o Estadão

11 de abril de 2022 | 11h00

O município de Apuí, no sul do Amazonas, está no olho de um furacão. Os produtores locais veem a pressão crescente diante do avanço da fronteira agropecuária. No curto e no médio prazo, a pecuária e a soja, frequentemente atreladas ao desmatamento naquela região, são negócios rentáveis. Os problemas vão aparecer apenas no futuro, quando a ciclagem de nutrientes naquela terra não der mais conta do recado e toda a pobreza do solo amazônico cobrar o seu preço, deixando o gado sem alimento. 

Esse ciclo vicioso, que ajuda a alimentar as emissões de carbono por causa da destruição florestal desenfreada, pode ser quebrado, principalmente, quando uma atividade alternativa rentável e que preserve o meio ambiente é apresentada aos povos amazônicos. A transformação está em curso em várias áreas da região e também em Apuí, cidade de quase 23 mil habitantes que concentra uma das mais altas taxas de desmate do bioma. 

Lá, um projeto-piloto e pioneiro de produção de café orgânico acaba de ganhar impulso de ampliação após um aporte de R$ 11 milhões. Antes cultivada por aproximadamente 50 famílias daquela região, a planta vai passar a fazer parte do dia a dia de outros 250 produtores nos próximos meses. O café já está sendo vendido em vários locais, o que ajuda a aumentar a geração de renda dos produtores.

A produção faz parte do trabalho da organização não governamental Idesam, que atua sobre toda a cadeia cafeeira e na preservação do meio ambiente há mais de dez anos.

“Nosso trabalho tem três frentes. A acadêmica, onde a preservação da biodiversidade é respaldada pela ciência; a do impacto social, que envolve mudar a vida das pessoas; e a territorial, e até por isso a escolha de Apuí vem sendo importante”, afirma Mariano Cenamo, criador e diretor do Idesam desde a fundação, no início do século.

A relação entre café e preservação ambiental está bem estabelecida, segundo o executivo da ONG, engenheiro florestal pela Universidade de São Paulo (USP) que há 20 anos radicou-se em Manaus. Os pés da planta são semeados no ambiente ao lado das espécies nativas. Do ponto de vista botânico, esse sistema faz com que os nutrientes circulem pelo solo. O que significa ainda menos necessidade de adubação por parte dos produtores. 

“Todo o processo fica mais sustentável. A questão da sombra e da disponibilidade de água também é fundamental. A produção de café, por esse processo, chega a aumentar em até três vezes”, afirma Cenamo. O solo pobre da Amazônia é compensado pelas raízes profundas que as plantas da região têm para buscar água e os nutrientes. O que não ocorre, por exemplo, quando a floresta dá lugar ao pasto.

O fato de o aporte milionário ocorrer agora, a partir de uma parceria com a empresa Amazônia Agrofloresta, não vai ajudar apenas na ampliação do número de famílias atingidas pelo programa. Será possível também, segundo Cenamo, qualificar melhor toda a cadeia de produção.

“Poderemos aumentar a cesta de produtos e atingir novos mercados com o fortalecimento da presença no e-commerce (comércio online)”. A produção, em termos quantitativos, também terá um salto. As projeções indicam um crescimento de 5.000%. Um salto de 231 sacas, número de 2021, para 12 mil sacas do Café Apuí Agroflorestal.

"É um ganha, ganha e ganha. Quando uma alternativa rentável é apresentada para os produtores da região, o convencimento ocorre”, afirma Cenamo. O retorno do capital para os investidores (a operação financeira contou ainda com o aporte de capital da Mirova Natural Capital e Axcell) será obtido por meio de projetos de sequestro de carbono, que ainda estão sendo formatados. “Esse é um modelo de produção sadia que se encaixa muito bem para a região”. Os produtores que aderem ao programa recebem tanto as mudas de café quanto de espécies nativas para serem plantadas no terreno. Além dos insumos e de toda a assistência técnica para que a qualidade do produto seja atingida. 

O Café Apuí Agroflorestal, além de ser totalmente processado no próprio município, também pretende ganhar as xícaras de muitas partes do mundo. “Esse passo agora é muito significativo. E mostra que estamos no caminho certo tanto do ponto de vista técnico quanto comercial”, argumenta Cenamo. Em uma década, além do sequestro de carbono, a expectativa é ampliar a área produtiva para mais de 600 hectares. 

Técnica é comum na América Central e no México

O cultivo do café com o sombreamento da floresta é uma prática comum em países da América Central e no México, por exemplo. No Brasil, em áreas de Mata Atlântica, os chamados cafés gourmets também estão sendo produzidos ao lado da mata com aumento de produtividade  na divisa de São Paulo com Minas Gerais.

Do ponto de vista botânico, pesquisas feitas desde o início do século mostram aumento da produtividade em até 30% quando os pés de café frutificam sob uma temperatura menor. A exposição direta ao sol também aumenta a possibilidade de má formação dos botões florais. No caso da recuperação de áreas degradadas, de acordo com os especialistas, o benefício do café orgânico passa a ser duplo. Ganham os produtores e também o meio ambiente.

 

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