Johannes Eisele/AFP
Johannes Eisele/AFP

'Caçador de icebergs', capitão canadense lucra com água de luxo

Há mais de 20 anos, Edward Kean extrai líquido de blocos de gelo; com a aceleração do aquecimento global, os negócios vão bem

Julien Besset, AFP

07 de agosto de 2019 | 12h00

TERRA NOVA - Edward Kean, um caçador canadense de icebergs, leva o binóculo aos olhos e se encanta: acaba de ver sua próxima presa, uma massa branca de dezenas de metros de altura que se destaca no horizonte ao largo da costa da Ilha de Terra Nova.

"É um bom pedaço de gelo, talvez eu atire nele", afirmou o exultante Kean, que aproveita o lucrativo comércio de água de iceberg impulsionado pelo derretimento das geleiras.

Todas as manhãs, com as primeiras luzes da madrugada, o capitão do navio de pesca Green Waters, de 60 anos e porte avantajado, lança-se ao mar com três marinheiros para colher seu ouro branco, o gelo, no chamado "corredor dos icebergs" do Grande Norte.

Há mais de 20 anos, ele extrai água desses blocos congelados e a vende para os comerciantes locais, que a engarrafam, misturam-na com álcool ou a usam para fazer cosméticos.

Com a aceleração do aquecimento global no Ártico, que acentua a fundição da banquisa, os negócios estão indo bem. Porém, do iceberg aos estabelecimentos, os dias são longos e o trabalho, duro.

Nesta manhã, o grupo deve navegar 24 quilômetros para chegar ao iceberg registrado pelo satélite. Uma vez ao pé da colossal parede branca que brilha ao sol do meio-dia, Kean pega o rifle, mira e atira várias vezes para que um pedaço do iceberg se desprenda.

Os disparam ressoam, e a tripulação segura a respiração. Mas o gelo não cai. "Às vezes, funciona; às vezes, não", afirmou, decepcionado.

Corrida contra o relógio

A alta temporada de icebergs está chegando ao fim, e o tempo está pressionando. "Ao chegar aqui, os icebergs se derretem muito rapidamente", contou o capitão.

"Eles vão derreter em poucas semanas e voltar para a natureza de qualquer forma, então, não prejudicamos o meio ambiente, não pegamos nada, apenas aproveitamos a água mais pura que podemos encontrar", explicou.

Dois dos jovens marinheiros embarcam em uma lancha com motor, com a qual rodeiam o iceberg para encontrar um pedaço que se desprendeu anteriormente.

Ajudados por um bastão e uma rede, eles trabalhosamente envolvem as pepitas de ouro branco, que pesam entre uma e duas toneladas, e as amarram ao gancho de um guindaste instalado na embarcação.

Os pedaços de icebergs são colocados no convés, onde sofrem machadadas para serem transformados em unidades menores. Em seguida, são armazenados em tanques de 1.000 litros, onde se derretem.

Nicho de mercado

No total, o grupos coletou cerca de 800 mil litros de água entre maio e julho, a alta temporada dos icebergs. Os compradores locais pagam US$ 1 por litro para adquirir o precioso líquido.

Considerada pura por estar congelada muito antes da contaminação atmosférica trazida pela Revolução Industrial, a água de iceberg é agora cobiçada por marcar que querem seduzir um setor específico com produtos de alta qualidade.

"Estamos tentando atingir o nicho de mercado de alimentos e produtos saudáveis", explicou o capitão Kean.

Cliente do capitão, a Dyna-Pro enche com água de iceberg garrafas de vidro cuidadosamente desenvolvidas e as vende por cerca de US$ 12 cada.

"Hoje, com a água de iceberg, provavelmente crescemos mais do que nunca. Exportamos nossas garrafas para o exterior, para a Europa, Cingapura, Dubai e acabamos de assinar com clientes do Oriente Médio", afirmou o gerente da empresa, Kerry Chaulk.

Auk Island Winery, no povoado turístico de Twillingate, fabrica um licor de frutas silvestres com água de iceberg que custa entre US$ 8 e US$ 70 por garrafa.

"Utilizamos a água de iceberg porque ela é a mais clara e limpa disponível no planeta, e dá um sabor muito puro a tudo relacionado a ela", disse Elizabeth Gleason, uma funcionária da pequena loja da marca.

Sinais do aquecimento

A turista americana Melissa Axtman, cuja família é de Terra Nova, não vê problema em os habitantes locais aproveitarem os fenômenos naturais que atraem o turismo e as fontes de renda.

"Há 30 anos, eu não via um único iceberg, mas os tempos mudaram", declarou Melissa. "O aumento dos icebergs tem bons e maus aspectos."

De fato, o surgimento de icebergs aqui é um dos sintomas da aceleração das mudanças climáticas no Ártico, que aquece três vezes mais rápido que no resto do mundo.

Apesar do sucesso da água de iceberg, a tripulação da Green Waters continua pequena e as ferramentas de coleta permanecem praticamente as mesmas desde o fim do século 20.

"Ninguém quer fazer esse tipo de trabalho manual", lamentou o capitão, que às vezes luta para encontrar tripulantes de longo prazo. "Espero que possamos continuar nos próximos anos, mas eu tenho 60, então, o tempo está se esgotando", disse, melancólico. / AFP

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