Adema
Justiça suspende instalação de boias para conter borra de petróleo em Sergipe Adema

'Buracos' de monitoramento por satélite dificultam investigação sobre óleo

Estudos com base nas correntes marítimas já indicam que o acidente aconteceu além das 200 milhas da costa, em alto-mar

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2019 | 05h00

RIO - A ausência de um sistema de monitoramento de desastres ambientais por satélite no oceano e a escassez de imagens do alto-mar dificultam a investigação sobre a origem do óleo achado em mais de 200 pontos do litoral do Nordeste. Cientistas de diferentes instituições buscam imagens que deem alguma pista, mas não encontraram nada que mostrasse o deslocamento do poluente até agora. 

Ex-ministro do Meio Ambiente, o deputado estadual Carlos Minc (PSB-RJ) foi um dos primeiros a levantar a questão. “(Imagens de) satélites do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciaise da Nasa (a agência espacial americana) deveriam ter sido requisitados no dia seguinte, cruzando com os planos de rotas de todos os navios, que a Marinha têm”, cobrou Minc, em redes sociais. Não é tão simples assim. 

O único satélite que produz o tipo de imagem capaz de mostrar um vazamento de óleo no mar e que o disponibiliza gratuitamente é o Sentinel, da Agência Espacial Europeia (ESA). E há limitações. As imagens são geradas com intervalos de dias. E a maioria delas é de regiões mais próximas da costa. Sobre estas, o interesse comercial dos países é maior.

Estudos com base nas correntes marítimas já indicam que o acidente ocorreu além das 200 milhas da costa, em alto-mar. É menor a chance de haver imagens dessas regiões.

Ainda assim, grupos do Inpe, do Laboratório de Análise e Processamento de Imagem de Satélite da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e do Laboratório de Métodos Computacionais em Engenharia do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe), da Universidade Federal do Rio (UFRJ), buscam imagens que deem alguma pista.

Para Entender

Entenda o vazamento de petróleo nas praias do Nordeste

Óleo se espalha pelos 9 Estados da região. O poluente foi identificado em uma faixa de mais de 2 mil quilômetros da costa brasileira

“O Inpe já olhou todas as imagens disponíveis das proximidades da costa de 60 dias para cá, e não foi detectada nenhuma mancha expressiva indicativa da origem do vazamento”, disse o oceanógrafo Ronald Buss de Souza, pesquisador titular do Inpe. 

Nas análises da Ufal, os resultados obtidos foram semelhantes. “Até agora não conseguimos identificar nenhuma imagem com um padrão clássico de derramamento de óleo”, disse o coordenador do laboratório da Ufal, Humberto Alves Barbosa, especialista em sensoriamento remoto. “Mas não há uma sequência completa. Há falhas de dois, três dias. Além disso, a dificuldade de interpretação das imagens é grande.”

Para Luiz Landau, coordenador do laboratório da Coppe/UFRJ, seria sorte achar uma imagem com informações sobre a origem do vazamento dentre as geradas pela ESA. “Não temos imagens para nos ajudar, porque não temos programa de monitoramento para eventos desse tipo”, explicou. “Temos uma constelação de satélites privados nos céus, mas eles têm de estar programados para olhar para onde nos interessa.”

Pesquisadores também já alertaram que outra dificuldade é que o óleo se movimenta na sub-superfície, o que dificulta a visualização do material. "As primeiras manchas, na fase aguda do vazamento, eram mais líquidas e flutuantes. Era mais fácil de ver por satélite ou aviões", disse ao Estado, na semana passada, a oceanógrafa Yara Schaeffer-Novelli, professora sênior da Universidade de São Paulo (USP) e sócia do Instituto BiomaBrasil.  

Para os especialistas, a melhor estratégia para determinar a origem do óleo é contar com oceanógrafos e modelos matemáticos para estudar correntes marítimas. Análises geoquímicas do óleo também podem ajudar. Os cientistas reclamam, porém, que o gabinete de crise do governo não convocou os cientistas oficialmente. “Após 50 dias, não se conseguiu ainda descobrir a fonte do vazamento. Essa lerdeza gera um desastre ambiental sem precedentes”, disse Souza, do Inpe.

Procurado pelo Estado nesta terça-feira, 21, o gabinete de crise do governo se manifestou.

 

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Descontaminação de tartarugas cobertas de óleo pode levar 6 meses

Existe risco ainda de répteis não conseguirem voltar ao hábitat natural; balanço do Ibama indica que 39 animais foram afetados

Ricardo Araújo , especial para o Estado

23 de outubro de 2019 | 06h00

NATAL - Animais atingidos pelo óleo e resgatados por voluntários e especialistas podem levar seis meses para a descontaminação completa. E há ainda o risco de não conseguirem voltar ao seu hábitat natural. O último levantamento do Ibama, de domingo, 20, indicava que 39 animais haviam sido afetados pelo material que se espalhou pela costa brasileira – 19 tartarugas morreram e 11 foram resgatadas.

Flávio José de Lima, que coordena o Projeto Cetáceos da Costa Branca da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), responsável pelo resgate dos animais atingidos pelo óleo cru no Estado, descreve o caso como uma “catástrofe ambiental”. “É uma perda significativa, pois são animais em processo de extinção.” 

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Segundo ele, os animais são atingidos de forma intensa. “As tartarugas, quando sobem saindo da água para respirar, se deparam com uma mancha de óleo e acabam contaminadas em poucos instantes, o que pode levar à morte imediata”, explica. 

A recuperação dos animais é complexa e envolve até medicamentos. Por causa da dificuldade, Lima alerta que voluntários não devem devolver imediatamente ao mar os animais atingidos pelo óleo. “A gente oferece barreiras, que são protetores gástricos, renais e hepáticos, porque o animal pode estar se contaminando pela mucosa, pela corrente sanguínea.” 

Após 24 horas desse procedimento, é iniciada a descontaminação. O excesso de óleo é retirado das mucosas e partes moles do corpo. Os animais são lavados com água, detergente neutro e outros produtos. Em seguida, são colocados em um tanque com água salgada para que sejam assistidos por veterinários e biólogos. “Serão analisados processos de natação, alimentação e excreção. Se ele está eliminando óleo pelas fezes ou não. Quando o animal para de eliminar óleo pelas fezes, é um sinal de que a substância já não está mais no trato gastrointestinal.”

Ao longo de 30 anos de docência e pesquisa, Lima diz que jamais presenciou cenário tão preocupante. “As cenas são as mais chocantes que já vi na vida", diz. "Não sabemos o grau de contaminação do mar. Só vimos o que chega às praias”. 

Responsáveis por resgate nas praias atuam de forma voluntária

Os profissionais que atuam no resgate e reabilitação das tartarugas marinhas atuam de forma voluntária. Nesta quarta-feira, 23, eles vão treinar equipes emergenciais que atuam da Bahia ao Maranhão. “Formamos um grupo de instituições do Nordeste que trabalham com tartarugas e mamíferos para atender a essa demanda”, diz o pesquisador.

O Projeto Cetáceos da Costa Branca foi criado em 1998 e, desde 2013, atua no processo de atendimento e resposta à emergência de fauna em casos de derramamento de óleo em decorrência da exploração do mineral em partes do litoral potiguar.

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De peneira de macarrão a itens de jardinagem: o que voluntários usam para tirar óleo

Grupo atua na limpeza da Praia de Itapuama, em Cabo de Santo Agostinho, desde a chegada do poluente no domingo

Priscila Mengue (texto) Tiago Queiroz (fotos), enviados especiais de O Estado de S. Paulo a Pernambuco

23 de outubro de 2019 | 07h00

CABO DE SANTO AGOSTINHO (PE)  - Peneira de macarrão, espátula de obra, itens de jardinagem e outros instrumentos domésticos foram algumas das ferramentas utilizadas pelas centenas de voluntários que foram nesta terça-feira, 22, à Praia de Itapuama, em Cabo de Santo Agostinho, a 40 minutos do Recife. Aos voluntários, que atuam no local desde a chegada da mancha de óleo no domingo, 20, somam-se integrantes da Marinha e, ainda, dezenas de militares que também chegaram nesta terça.

O cenário pode até parecer um tanto confuso inicialmente, com a quantidade de trabalho feita simultaneamente. Como a parte mais "grossa" do óleo foi retirada, o foco estava nos "detalhes", isto é, em retirar pequenas quantidades de óleo ao peneirar a areia ou utilizar uma escova nas pedras.

As atividades podem parecer simples, mas exigiam esforço pela consistência de chiclete ou bala derretida da substância, como exemplificavam alguns voluntários.

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Entenda o vazamento de petróleo nas praias do Nordeste

Óleo se espalha pelos 9 Estados da região. O poluente foi identificado em uma faixa de mais de 2 mil quilômetros da costa brasileira

"Fica grudado demais nos buraquinhos. A gente só tira o excesso, não consegue tirar na integralidade", desabafa a advogada Gilmara Ribeiro, de 35 anos, que usava um instrumento de jardinagem já um tanto torto pelo esforço.

Como estava sem instrumentos, o empresário Danilo Araújo, de 27 anos, catou o excesso de óleo com as mãos, retirando-o de buracos entre as pedras. Sócio de uma academia de crossfit, estava de folga para participar do mutirão.

"Fui criado no Cabo. Minha infância foi aqui, nesta praia", comentou. "Isto aqui é a casa da gente."

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Fui criado no Cabo. Minha infância foi aqui, nesta praia. Isto aqui é a casa da gente
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Danilo Araújo, empresário

Já outros voluntários foram até dentro do mar, como a aluna de Engenharia Thamires Cavalcante, de 20 anos. Com a água até o pescoço, ela usava uma peneira atrás de pequenas quantidades de óleo, do tamanho de bolas de gude. Thamires já estava no segundo dia seguido na praia.

"Não é fácil, a luva escorrega. O que me preocupa é deixar a praia assim."

A aposentada Ladjane Lima, de 58 anos, também lembra da situação antes dos mutirões. "Domingo eram placas imensas", diz ela, que usava uma grande peneira. "Mas agora também é preocupante, por causa dos peixinhos. Amo a natureza, feriu a alma ver um negócio desses."

"Eu ia mergulhando e tirando de dentro do mar, não tem muita gente para fazer isso, nem todo mundo está disposto", comenta o professor de surfe Henrique Almeida, de 25 anos, que vestia só a bermuda e estava com a pele cheia de fragmentos de óleo. "A gente puxa e vem trazendo."

Nem pôr do sol desmobiliza grupo

Logo após as 17 horas, o entardecer já começa a subir a maré e dificultar os trabalhos. Algumas dezenas de voluntários seguiram mais uma hora, com a luz de dois tratores e de outras formas improvisadas, enquanto os militares já haviam se retirado. 

A cirurgiã-dentista Morgana Manoela, de 31 anos, utilizava uma lanterna na cabeça para ajudar a repassar os últimos sacos de óleo.

"Estou aqui desde as 9 horas (da manhã). Já raspei a pedra, usei peneira, agora estou ajudando a tirar o sargassum (tipo de alga)", relata. "Nasci e me criei no litoral pernambucano. Essa área é uma parte de mim."

Embora o foco atual seja retirar o óleo aparente da praia, a situação já preocupa pelos danos futuros.

"A gente não sabe se atingiu um lençol freático", comenta Estêvão Santos, de 41 anos, da ONG Onda Limpa. 

Daniel Galvão, do Salve Macaraípe, admite a necessidade de mais itens de segurança para voluntários. Eles ajudam a recolher e distribuir máscaras, luvas e galochas, além de alimentação e água.

"Mas é um momento de guerra. A gente usa o que dá."

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É um momento de guerra. A gente usa o que dá
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Daniel Galvão, do Salve Macaraípe

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