Cláudio Melo/Divulgação
Cláudio Melo/Divulgação

Bunkers do novo milênio

No mundo todo, mais de 1.500 bancos de sementes guardam espécies úteis ao homem, tanto para alimentação quanto para obtenção de matéria-prima

Karina Ninni, Especial para O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2010 | 23h55

No século 20, a humanidade perdeu três quartos de suas espécies de cultivo, as chamadas sementes "crioulas", que não sofreram modificações em laboratório e eram a base da agricultura tradicional há 50, 60 anos. Para conter essa perda vertiginosa de biodiversidade, institutos de pesquisa e entidades civis mantêm "ilhas" de preservação da diversidade genética, que garantem a sobrevivência de espécies usadas na alimentação e na extração de matéria-prima. O planeta tem hoje mais de 1.500 bancos de sementes ou germoplasma (que armazenam partes da planta usadas para reprodução).

 

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O mais ambicioso desses projetos foi inaugurado em 2008 numa montanha gelada do arquipélago de Svalbard, Noruega, perto do Polo Norte. Apelidado de "Cofre do Juízo Final", guarda mais de meio milhão de amostras em sua estrutura metálica na neve.

 

"Temos enorme diversidade de sementes em bancos no mundo, mas eles são vulneráveis. Colocamos à disposição o banco em Svalbard para que as coleções tenham um seguro", diz Cary Fowler, diretor executivo da Global Crop Diversity Trust, parceria público-privada cuja meta é preservar a segurança alimentar mundial. Além de manter o banco, a instituição ajuda outros centros a selecionarem linhagens de espécies ameaçadas, para torná-las mais resistentes (veja entrevista no link acima).

 

 

No Brasil, a referência no assunto é o Centro Nacional de Pesquisa de Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargen) da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Sétimo maior banco do mundo, o Cenargen está preparando amostras de milho, feijão e arroz para enviar a Svalbard. "Ajudamos, por exemplo, os índios craôs (do Tocantins) a recuperarem uma espécie de amendoim que tinha desaparecido de suas terras", afirma Solange Roveri, curadora da coleção base do centro.

 

O Cenargen tem 110 mil "acessos" (cada acesso contém diversas amostras), de 671 espécies. Sua estrutura inclui salas de documentação, de preparo de amostras, de controle de qualidade e cinco câmaras frias com capacidade para 240 mil acessos. As sementes podem ser conservadas no ambiente de origem ou fora dele, em câmaras frias, úmidas e secas ou ainda por meio do plantio de mudas. "Quando as amostras chegam, nós processamos – o que pode incluir a secagem das que estiverem úmidas – e germinamos para ver se são viáveis. Só então embalamos e congelamos a 18 graus negativos", explica Solange.

 

Apesar do status do Cenargen, o banco mais antigo do Brasil é o do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), cuja coleção começou na década de 20. "Temos uma das maiores coleções de café e cítricos do mundo", diz Renato Ferraz, diretor do Jardim Botânico do IAC.

 

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